19/08/2026

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Observatório do Clima Lança Caderno com 37 Medidas contra o Metano no Campo e nas Cidades

O Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), iniciativa do Observatório do Clima, lançou nesta terça-feira (18), um caderno com 37 soluções para reduzir as emissões brasileiras de metano, o CH4 – molécula formada por um átomo de carbono e quatro átomos de hidrogênio – distribuídas entre os setores urbano e rural, em especial a agropecuária, os resíduos, a mudança de uso da terra, mais florestas e energia. Por exemplo, o Rio de Janeiro é a cidade que mais emite metano no país, mais por São Félix do Xingu (PA), São Paulo (SP), Corumbá (MS) e Porto Velho (RO), nesta ordem para as cinco primeiras posições.

O documento do Observatório do Clima organiza práticas, políticas públicas, referências técnicas e exemplos de aplicação para orientar governos, municípios, empresas e produtores. Junto ao material, o SEEG apresentou uma ferramenta para consulta das emissões de metano em municípios e biomas, ampliando a possibilidade de identificar onde estão as fontes do gás e quais setores pesam mais em cada território.

“Temos à disposição um amplo conjunto de soluções para fazer isso, mas o Brasil precisa transformar esse conhecimento em ação coordenada e com escala”, afirmou David Tsai, coordenador do SEEG, em entrevista coletiva. O metano é o segundo gás que mais contribui para o aquecimento do planeta, atrás do dióxido de carbono, e possui potencial de aquecimento 28 vezes maior que o CO2 em um período de 100 anos. Sua permanência na atmosfera, entre dez e 20 anos, é menor do que a do CO2, característica que faz da redução das emissões uma frente capaz de produzir efeito climático em prazo mais curto.

Arq.PessoalDavid Tsai, coordenador do SEEG

O Brasil emitiu 21 milhões de toneladas de metano em 2024, segundo o SEEG, colocando o país entre os maiores emissores mundiais. Desde 2021, o país integra o Compromisso Global do Metano, firmado durante a COP26, em Glasgow, que estabelece redução coletiva de 30% até 2030 sobre os níveis de 2020. A trajetória brasileira, porém, permanece ascendente. Tsai destacou que, enquanto as emissões de CO2 recuaram em períodos associados à queda do desmatamento, as de metano continuam crescendo, puxadas principalmente pela pecuária, pelo tratamento de resíduos urbanos, pelas queimadas e por fontes do setor energético.

A agropecuária ocupa a maior parcela dessa conta. Em 2024, o setor emitiu 15,7 milhões de toneladas de metano, 75,8% do volume nacional. Mais de 90% das emissões agropecuárias do gás estão ligadas à pecuária, principalmente à fermentação entérica dos ruminantes, processo digestivo que produz metano e o libera sobretudo pela eructação dos animais. Também entram no cálculo o manejo de dejetos, o arroz irrigado e a queima de resíduos agrícolas. O caderno destina 15 das 37 soluções à produção rural e para os especialistas do Observatório do Clima representam um oportunidade de ações pontuais.

“Mitigar metano na agropecuária é uma grande oportunidade para o setor, por incluir produtividade e eficiência na produção de alimentos”, disse Gabriel Quintana, coordenador da área de Ciência do Clima do Imaflora, instituição responsável pelo cálculo das emissões agropecuárias no SEEG.

Segundo ele, 10 das 15 medidas apresentadas para o campo possuem efeito direto sobre a emissão absoluta ou sobre a quantidade de metano emitida por unidade de produto. Sete estão relacionadas à fermentação entérica, principal fonte dentro da pecuária.

As alternativas passam por melhoria da alimentação, recuperação de pastagens degradadas, sistemas integrados de produção, manejo de dejetos, melhoramento genético, redução da idade de abate e uso de aditivos capazes de interferir na formação de metano no rúmen. O conjunto inclui ainda planejamento territorial, assistência técnica e linhas de crédito direcionadas à adoção das práticas. A lógica é reduzir a emissão por quilo de carne ou litro de leite e, em algumas tecnologias, cortar também o volume absoluto lançado na atmosfera.

As diferenças entre os sistemas produtivos brasileiros fazem parte do desenho das recomendações. A pecuária nacional opera majoritariamente em pastagens, cerca de 95% da criação de 214 milhões de animais, o que coloca qualidade da forragem, lotação, desempenho animal e tempo de permanência do bovino no sistema entre as variáveis ligadas às emissões. Estudos reunidos pelo Imaflora, apontam, por exemplo, redução teórica de 19,66% do metano quando um sistema extensivo convencional é comparado a um sistema rotacionado bem manejado. Em sistemas integrados avaliados em pesquisas citadas pela instituição, o potencial de mitigação chegou a 38%. O Imaflora é uma organização que atua nas cadeias florestal e agropecuária e responde pelos cálculos das emissões do setor no SEEG.

Arq.PessoalGabriel Quintana, Gabriel Quintana, coordenador da área de Ciência do Clima do Imaflora

O tratamento de dejetos abre outra frente. Biodigestores e compostagem podem substituir formas de armazenamento que liberam mais metano, além de produzir biogás e fertilizantes orgânicos. Na avaliação realizada pelo Imaflora sobre o primeiro ciclo do Plano ABC, entre 2010 e 2020, a recuperação de pastagens degradadas, a integração lavoura pecuária floresta (ILPF) e o tratamento de dejetos poderiam ter mitigado 2,95 milhões de toneladas de metano com base nos resultados considerados efetivamente alcançados. O volume correspondeu a 2,1% das 138,5 milhões de toneladas emitidas pela agropecuária durante os dez anos analisados, indicador da distância entre a existência da tecnologia e sua adoção em escala.

Quintana afirmou que as projeções do próprio SEEG apontam a possibilidade de redução de até 28% das emissões agropecuárias em relação a 2020. Para chegar a esse patamar, as medidas precisam alcançar as propriedades com estruturas produtivas distintas. “Muitas delas já acontecem no campo, mas precisam ser escaladas a qualquer tipo de sistema produtivo, em qualquer território no Brasil”, disse. Crédito rural, assistência técnica, políticas públicas e capacidade de investimento do produtor aparecem, nesse quadro, como instrumentos de disseminação.

Nas cidades, o problema muda de endereço e de fonte. O setor de resíduos responde pela segunda maior parcela das emissões brasileiras de metano e recebeu 12 propostas no caderno. A matéria orgânica depositada em aterros ou lixões se decompõe em condições sem oxigênio e gera o gás. Entre as medidas apontadas pelo Observatório do Clima estão o encerramento de lixões, melhoria da gestão de aterros sanitários, coleta seletiva, redução do desperdício de alimentos, compostagem e aproveitamento energético do biogás. Os resíduos responderam por cerca de 15% das emissões nacionais de metano nos levantamentos recentes do SEEG.

Essa característica coloca os governos municipais dentro da estratégia climática, com prefeituras controlando ou contratando parte relevante dos serviços de coleta e destinação de resíduos, enquanto decisões sobre aterros, compostagem e aproveitamento energético dependem de planejamento, contratos, infraestrutura e fiscalização locais. A ferramenta apresentada pelo SEEG permite consultar as emissões em escala municipal e por bioma, criando uma porta de entrada para que gestores identifiquem o peso das diferentes atividades em seus territórios. A plataforma do sistema já reúne dados nacionais, estaduais e municipais e permite a análise por setores e atividades emissoras.

O caderno também dedica cinco soluções a mudança de uso da terra e florestas. Em 2024, as queimadas associadas ao desmatamento emitiram 1,14 milhão de toneladas de metano, cerca de 6% do total nacional. Há ainda uma parcela que não entra nos inventários oficiais, que são os incêndios ocorridos exclusivamente sobre vegetação nativa. Eles totalizaram outras 1,01 milhão de toneladas pelas estimativas adicionais do SEEG. A prevenção, monitoramento, manejo integrado do fogo e combate a incêndios aparecem entre as propostas para reduzir essas emissões.

“As metas de redução de emissão de metano têm importante papel no combate ao agravamento das mudanças climáticas”, afirmou Bárbara Zimbres, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Segundo ela, a vida atmosférica mais curta do metano permite que medidas adotadas agora produzam impacto em horizonte menor. A pesquisadora relacionou as recomendações à implementação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo e à necessidade de articulação entre União, estados e municípios na prevenção e no controle dos incêndios.

As cinco medidas restantes estão no setor de energia, onde as fontes incluem vazamentos ao longo das cadeias de petróleo e gás, queima em tochas e uso de lenha para cocção. O documento propõe ações de detecção e reparo de vazamentos, redução de emissões fugitivas e melhoria dos controles operacionais. Energia representa uma parcela menor do metano brasileiro do que agropecuária e resíduos, mas reúne fontes nas quais a identificação direta dos pontos emissores pode permitir intervenções específicas.

O caderno não atribui custo, prazo ou potencial individual de redução às 37 medidas. Cada ficha descreve a solução, os responsáveis por sua implementação, referências técnicas, experiências já realizadas e benefícios associados. Na elaboração, as equipes do SEEG consultaram organizações do Observatório do Clima, municípios ligados à rede ICLEI e instituições parceiras. “A ideia geral é que essas fichas tragam orientação ao gestor público e à iniciativa privada”, disse Tsai.

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