José Antonio Marengo Orsini passou a manhã desta quarta-feira (27) em uma audiência pública no Senado Federal cercado por parlamentares preocupados com um assunto que explodiu nas manchetes internacionais nas últimas semanas: o risco de um possível “Super El Niño”. Senadores falavam sobre soja, enchentes, escolas fechadas, incêndios no Pantanal e risco de colapso hídrico. Parte da discussão vinha carregada por projeções climáticas extremas que circulam nas redes sociais e em vídeos de influenciadores. Horas depois, já fora da audiência, o climatologista resumiu à Forbes Agro o ponto central da discussão: o El Niño está praticamente confirmado. O tamanho do problema, ainda não.
“Sabemos que o El Niño vai acontecer. O que não sabemos ainda é a intensidade”, afirmou Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão criado em 2011 e ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
A frase parece simples, mas ajuda a separar ciência de ansiedade coletiva em um momento em que termos como “Super El Niño”, “Mega El Niño” e até “Godzilla El Niño” passaram a dominar parte da cobertura climática global. “Na climatologia utilizamos as classificações fraco, moderado, intenso e muito intenso. Não usamos super El Niño. Isso é a imprensa que está usando”, afirmou.
Marengo não fala a partir de observações isoladas. Peruano radicado no Brasil, ele construiu uma das trajetórias mais respeitadas da climatologia latino-americana. Participou das avaliações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), grupo da ONU que dividiu o Prêmio Nobel da Paz de 2007 com o ex-vice-presidente americano Al Gore pelo avanço das pesquisas sobre aquecimento global.
Também integra estruturas científicas ligadas à Organização Meteorológica Mundial (OMM) e coordena, desde 2020, o relatório sobre o estado do clima na América Latina e Caribe produzido pela entidade internacional. O documento reúne dados climáticos de vários países da região e ajuda governos a entender padrões de seca, calor extremo, enchentes e mudanças de temperatura.
O mais recente relatório da OMM, apresentado em Brasília no dia 18 de maio, marcou a primeira vez que o principal documento climático da ONU sobre América Latina e Caribe teve lançamento oficial no Brasil. Coordenador do trabalho pelo sexto ano consecutivo, Marengo apresentou um retrato climático mais agressivo para a região.
Os dados mostram uma América Latina mais quente, mais vulnerável e mais exposta a extremos. Segundo o relatório State of the Climate in Latin America and the Caribbean 2025, o ano entrou para o grupo dos mais quentes já registrados na região, com temperaturas até 3°C acima da média histórica em algumas áreas. O documento também aponta secas mais prolongadas, enchentes severas, ondas de calor recordes e avanço acelerado do nível do mar em partes do Caribe e Golfo do México.
Durante a apresentação, Marengo ressaltou que os números não tratam de cenários distantes ou hipóteses futuras. “Estes dados observados não constituem meras projeções teóricas para o futuro; eles traduzem a realidade climática atual com impactos diretos e mensuráveis nos ecossistemas, na economia e no bem-estar das populações.”
O relatório também chama atenção para o desaparecimento completo da geleira de Chacaltaya, nos arredores de La Paz, na Bolívia, apontado pelo climatologista como um símbolo da velocidade das transformações climáticas na região. As geleiras andinas abastecem cerca de 90 milhões de pessoas e desempenham papel estratégico para geração de energia, agricultura e abastecimento hídrico durante períodos secos. “O único que sabemos é que além do El Niño existe um sinal de fundo muito forte, que é o aquecimento global.”
Mas como fica agora o El Niño?
Nos últimos dias, gráficos de projeções climáticas circularam de maneira acelerada nas redes sociais. Alguns modelos passaram a indicar aquecimento relevante das águas do Pacífico Equatorial, região usada como referência para monitorar o fenômeno. Em alguns cenários, o aquecimento projetado ultrapassa quatro graus. Foi o suficiente para uma onda de interpretações alarmistas.
“O jornalista vê quatro graus e diz: vai ter super El Niño, vai ter todos os desastres”, afirmou. “Mas ainda não temos ferramentas ou certeza para dizer se vai ser pior que 2023 e 2024, igual ou menor.”
Segundo Marengo, a ciência trabalha hoje com praticamente 100% de probabilidade de ocorrência do El Niño. O grau de intensidade, porém, ainda está distante de uma conclusão segura. A explicação passa pelo que os climatologistas chamam de “barreira da previsibilidade”. Os modelos conseguem enxergar tendências, mas perdem precisão quando tentam avançar muitos meses à frente.
“Estamos em maio. Quando os modelos fazem projeções para novembro e dezembro, ainda é muito longe”, afirmou. “Teríamos que esperar julho ou agosto para ter uma previsão mais confiável para a primavera e o verão.”
Na prática, isso significa que o Brasil já entrou em estado de atenção climática, mas ainda não em um cenário de certeza sobre o tamanho dos impactos. Historicamente, episódios fortes de El Niño costumam produzir um mapa climático relativamente conhecido no país. Chuvas acima da média no Sul e períodos mais secos no Norte e parte do Centro-Oeste.
Marengo cita os episódios de 1972, 1982, 1997, 2015 e 2023 como exemplos desse padrão. “Todos esses eventos tiveram algo em comum: muita chuva na região Sul do Brasil.” Segundo ele, caso o comportamento climático siga trajetórias parecidas com as registradas em outros grandes eventos, os primeiros sinais mais intensos poderiam aparecer já a partir de setembro.

Neste cenário, há um país dividido climaticamente em duas partes. De um lado, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e parte do sul paulista sob risco de chuva extrema. Do outro, Amazônia, Norte e Centro-Oeste enfrentando seca, calor elevado e incêndios.
Mas Marengo insiste em um ponto importante: o clima não age sozinho. “As duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo”, afirmou ao comentar a relação entre eventos extremos e mudança climática. “Os fenômenos estão mais fortes, mas a vulnerabilidade também aumentou.”
Ele compara o efeito de um mesmo grau de aquecimento global nos anos 1970 e hoje. Em um planeta já aquecido, qualquer anomalia climática ganha mais força. “E se você coloca o aquecimento do Pacífico em cima do aquecimento global, o impacto fica maior.”
Uma visão coordenada e ações de prevenção
Na visão do pesquisador, o Brasil ainda falha em transformar informação científica em prevenção concreta. O país monitora desastres, emite alertas e acompanha projeções, mas continua convivendo com ocupação irregular, baixa coordenação entre governos e pouca cultura de prevenção.
“Continuam construindo em áreas de risco perto de córregos ou em regiões vulneráveis”, afirmou. “Ainda que o El Niño seja moderado, pode ter impacto grave.” Não por acaso, a lembrança das enchentes históricas do Rio Grande do Sul permanece presente na fala do climatologista. Segundo ele, muitas mortes ocorreram porque moradores ignoraram alertas e acreditaram que a água não ultrapassaria marcas já conhecidas. “As pessoas diziam: minha casa nunca inundou desse jeito. Só que desta vez a água subiu acima do segundo andar.”
Na audiência pública realizada no Senado, a preocupação dos parlamentares também passou pelo agronegócio e pelos incêndios no Pantanal. Marengo disse que produtores e representantes políticos já começaram a organizar brigadas preventivas diante da possibilidade de seca e calor extremo.

“Eles já estão preparando brigadas de incêndio agora”, afirmou. “É melhor estar preparado do que achar que vem um El Niño moderado e enfrentar um evento muito forte.” Para ele, parte do setor agropecuário aprendeu com os eventos recentes. Ainda assim, o país continua reagindo mais do que antecipando riscos. “Não adianta montar brigada quando o incêndio já começou.”
E o alerta do climatologista vai além do campo. Marengo vê risco direto para reservatórios, geração hidrelétrica, abastecimento urbano, saúde pública e inflação de alimentos. “O clima agrava problemas que já existem”, afirmou.
Segundo ele, temperaturas elevadas afetam produtividade agrícola, aumentam consumo de energia e ampliam pressão sobre sistemas de abastecimento. O pesquisador citou também estudos em andamento envolvendo calor extremo e saúde pública, tema que passou a ganhar espaço nos trabalhos da OMM e de instituições brasileiras. “A situação climática afeta alimentos, água, energia e saúde.” Na agricultura, o impacto pode aparecer tanto em produtividade quanto em qualidade das lavouras. “A soja, por exemplo, com temperaturas muito altas produz grãos de qualidade inferior.”
Ao longo da entrevista, Marengo voltou diversas vezes a um tema que considera central: a desinformação climática. Segundo ele, uma parcela da população passou a consumir previsões meteorológicas como sentenças definitivas, sem compreender limitações dos modelos científicos. “As pessoas acreditam que o que o modelo mostra é a realidade. Mas o modelo é uma representação matemática da realidade.”
O climatologista criticou a atuação de influenciadores que transformam projeções de longo prazo em previsões absolutas e alimentam pânico nas redes sociais. “As pessoas veem internet, acreditam em influencer que não entende nada, mas que fala para milhões de seguidores.”
O fato é que Marengo compara a previsão climática de longo prazo a um médico tentando prever exatamente o dia em que um paciente ficará doente meses à frente. “Posso chutar, mas não sei.” Para ele, o maior desafio do Brasil não está apenas em prever desastres, mas em criar uma cultura permanente de prevenção. “O país reage após o desastre”, afirmou. “Tem que existir articulação entre governo federal, estados, municípios e setor científico. Se isso não acontece, estamos perdendo tempo e mais pessoas vão sofrer e podem pagar com a própria vida.”