Nos quintais de muitas famílias nos Estados Unidos, um churrasco não fica completo sem feijão cozido em molho (baked beans). Para a Bush Brothers, a maior empresa de feijões enlatados do país, isso significa a venda de quase 18,1 mil toneladas de produto no período que antecede o feriado do Memorial Day, celebrado anualmente na última segunda-feira de maio para homenagear e lembrar os militares norte-americanos que morreram em combate.
A empresa, sediada em Knoxville, no Tennessee, concentra 80% das vendas de feijão cozido enlatado no mercado norte-americano. O herdeiro de quarta geração e presidente do conselho da Bush Brothers, Drew Everett, atribui o resultado à concentração de esforços no produto principal, sem distrações com outros itens.
“Atualmente, continuamos tão comprometidos com o feijão quanto sempre estivemos”, diz Everett, de 56 anos.
O executivo relata que aprecia fazer churrasco com diferentes tipos de carne que combinam com os feijões cozidos da marca, destacando a presença do produto em celebrações tradicionais do verão norte-americano, como o Memorial Day, o Quatro de Julho e o Dia do Trabalho.
Gestão e expansão de mercado
Everett lidera de forma reservada a Bush Brothers desde 2015. Sob sua gestão, a empresa de controle totalmente familiar atingiu um faturamento anual estimado em US$ 1 bilhão (R$ 5 bilhões, na cotação atual).
A companhia detém mais de um terço do mercado total de feijões enlatados nos Estados Unidos, distribuindo bases para chili, além de feijão pinto (semelhante ao carioca brasileiro), feijão preto, feijão vermelho, feijão branco, grão-de-bico e outras variedades para mais de 100 mil varejistas.
O objetivo do executivo é expandir o reconhecimento da marca, deixando de ser vista apenas como a empresa de feijão cozido em molho para se consolidar como a companhia de feijão dos Estados Unidos.
“Estamos alcançando esse objetivo”, afirma Everett em entrevista. “Ainda é uma jornada para nós.”
O cenário de mercado favorece os negócios. A Bush Brothers encontrou um ponto favorável diante das mudanças nos supermercados. Com o aumento nos preços das carnes, a acessibilidade financeira virou tema central para as próximas eleições de meio de mandato, e os feijões despontam como uma opção econômica.
As latas da marca custam, em média, US$ 2,50 (R$ 12,50) cada. Por servirem como base para uma refeição completa, são ricas em proteínas e fibras, além de apresentarem baixo teor de colesterol. Essa combinação atrai tanto usuários de medicamentos para perda de peso da classe GLP-1 quanto cidadãos que buscam hábitos de vida mais saudáveis.
“Os feijões vivem um momento favorável”, diz Everett. “Os consumidores procuram por fibras, versatilidade e praticidade. Nós entregamos tudo isso.”
Desempenho financeiro e governança

Em termos de resultados financeiros, estimativas da Forbes indicam que a operação é altamente lucrativa, registrando margens Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de 12,5%.
O índice supera o de grandes corporações do setor de alimentos, como a Conagra, que registra 8%, e de concorrentes que enfrentam dificuldades financeiras recentes, como a Kraft Heinz e a JM Smucker, com retrações de 14% e 2%, respectivamente. A Bush Brothers não se pronunciou sobre os dados financeiros.
Os números consolidam um patrimônio familiar avaliado pela Forbes em mais de US$ 1,35 bilhão (R$ 6,75 bilhões). Everett compartilha o controle acionário com aproximadamente 100 familiares, distribuídos em quatro ramos e seis gerações. Entre os sócios está seu de primo de quarta geração, Jay, que atua como porta-voz da marca ao lado de Duke, um cão da raça golden retriever, em campanhas publicitárias desde 1994.
“Temos orgulho de ser uma empresa familiar”, declara Everett. “Queremos manter esse modelo de propriedade, um propósito constante da segunda para a terceira, quarta e, agora, quinta geração.”
O presidente do conselho recebe chamadas frequentes de investidores interessados na aquisição da empresa, mas afirma que a resposta permanece simples. “Não estamos à venda. Não temos interesse nisso. Continuamos orgulhosos de nossa herança e do legado familiar. Alcançamos o sucesso por causa da contribuição de muitas pessoas, e queremos garantir a continuidade desse compromisso com elas.”
Para estruturar a sucessão e os negócios, mais de 60 acionistas familiares, funcionários e diretores receberam capacitação em governança de empresas familiares na Kellogg School of Management. O alinhamento permitiu que Everett e o conselho contratassem, em 2019, Al Williams, o segundo CEO profissional de fora da família na história da companhia.
“A família deseja a perenidade do negócio”, afirma Williams. “E os colaboradores adotam os princípios estabelecidos pelos fundadores.”
Origem e trajetória histórica

O negócio começou em 1897 como a mercearia A.J. Bush & Company, localizada na base das Great Smoky Mountains, em Chestnut Hill, no Tennessee. No local, o bisavô de Everett, um antigo professor, vendia itens básicos e aceitava permutas como pagamento.
A atividade de enlatamento de tomates teve início em 1908, motivada pelo fato de que o transporte em carroças danificava as frutas em trajetos longos. Ao longo das décadas, a produção foi expandida para outros vegetais enlatados, como vagem, milho e espinafre. A Bush Brothers chegou a atuar como fornecedora de rações para o Exército dos Estados Unidos durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.
A receita do tradicional feijão cozido em molho surgiu apenas em 1969, por iniciativa de Condon Bush, neto do fundador e integrante da terceira geração da família, que gerenciava uma das indústrias de enlatamento em Wisconsin.
A unidade operava com capacidade máxima no verão, período de colheita e conservação dos vegetais, mas registrava ociosidade no inverno. Conforme a história preservada pela família, o gestor temia o fechamento da fábrica sob sua administração.
Ele decidiu desenvolver uma receita própria de feijão cozido, inspirada em um prato feito por sua mãe, e introduziu o produto nos supermercados.
O feijão cozido em molho foi comercializado ao lado dos demais produtos da marca por décadas. A consolidação nacional ocorreu na década de 1990, quando os primos Condon Bush e Jim Ethier assumiram a liderança da empresa, ampliaram os investimentos no segmento de feijões e lançaram as campanhas publicitárias com Jay, filho de Condon, e o cão Duke.
Trajetória de Drew Everett
Após trabalhar durante as férias de verão na fazenda de gado da família no leste do Tennessee e na operação da fábrica de enlatados, Everett ingressou oficialmente na Bush Brothers in 1993, no departamento de tecnologia da informação, período em que a marca avançava para a liderança do setor.
O executivo integrou a equipe responsável pela instalação dos primeiros computadores da empresa e pelo treinamento de funcionários no uso de planilhas eletrônicas. Posteriormente, assumiu funções na cadeia de suprimentos e nas operações fabris.
“Precisávamos concentrar esforços novamente em um portfólio de produtos mais restrito, e foi assim que nos dedicamos aos feijões”, relembra.
No período em que a Bush Brothers alcançou um faturamento anual estimado de US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão, conforme a cotação atual), Everett passou a integrar o conselho de administração, em 2007, e assumiu a diretoria de recursos humanos em 2008. Na época, o executivo constatou a necessidade de expansão contínua para a sustentabilidade da empresa.
Cinco anos depois, foi promovido a vice-presidente e diretor de relações com acionistas, além de cofundar o conselho de governança familiar. Os integrantes da família também constituíram uma estrutura para centralizar seus investimentos, uma empresa de confiança privada (private trust company), na qual Everett atua como membro do conselho fundador e presidente do comitê de investimentos.
“É preciso uma participação ativa, não necessariamente por meio do emprego direto, mas por meio da governança”, afirma o executivo. “Dedicamos os últimos 17 anos para estabelecer uma estrutura familiar sólida.”
Everett projeta a continuidade dos negócios. “Meu desejo é que esta empresa permaneça na família até a sétima, oitava, nona e décima gerações.”
Para atingir a meta, a expansão comercial é prioridade. O executivo prepara a Bush Brothers para novas etapas de crescimento. A empresa testou linhas de pastas de feijão (bean dips) e homus, mas descontinuou os produtos.
Na última década, o foco estevve na ampliação da linha de feijões orgânicos, estratégia que resultou na aquisição da marca Westbrae Natural Organics em 2022. Atualmente, Everett analisa potenciais aquisições para diversificar o portfólio da holding familiar.
“Se as pessoas não comem feijão em todas as refeições, há uma oportunidade de crescer”, conclui Everett.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com