Secas, chuvas fora de época e ventos intensos afetaram os rendimentos nas principais regiões produtoras de cacau do mundo nos últimos anos. Embora os preços da commodity tenham recuado um pouco após a forte escassez observada em 2024, os preços do chocolate continuam elevados, refletindo uma pressão estrutural sobre o mercado.
Ao mesmo tempo, as marcas de chocolate estão tentando melhorar a transparência ao dar mais atenção à sustentabilidade, ao fornecimento ético e à rastreabilidade. Isso ocorre especialmente porque mais consumidores passaram a se preocupar com práticas trabalhistas mais justas e com a responsabilização das empresas em diferentes setores.
Isso criou uma incompatibilidade importante no mercado global de chocolate: enquanto a imagem de sustentabilidade melhora, as cadeias de suprimento continuam voláteis devido aos fatores climáticos.
Países da África Ocidental e Central, como Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões, os dois maiores produtores globais e seus vizinhos, poderão perder até 50% das áreas adequadas ao cultivo de cacau até 2050 em razão das mudanças climáticas, segundo um estudo publicado em março de 2025 pela revista Agricultural and Forest Meteorology.
À medida que o cacau se torna mais vulnerável às mudanças climáticas, o chocolate sustentável já não é suficiente para estabilizar o setor e enfrentar o problema climático em sua origem. A prioridade deve ser a resiliência.
Como a pressão climática afeta o cacau
O cacau é uma das culturas agrícolas mais sensíveis ao clima do mundo. Ele pode ser fortemente afetado por padrões irregulares de chuva, calor extremo ou alterações nas condições de vento.
A cultura é produzida em escala comercial principalmente em países em desenvolvimento próximos à linha do Equador, conhecidos como o “cinturão do cacau”, como Costa do Marfim, Gana e Equador, além de Brasil. Ela exige uma faixa muito estreita e específica de condições, incluindo temperaturas constantes entre 18°C e 30°C, solo fértil e chuvas bem distribuídas ao longo do ano.
Entretanto, várias dessas regiões enfrentaram episódios climáticos extremos com maior frequência nos últimos anos.
Em 2023, grandes produtores de cacau da África Ocidental, como Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões, registraram níveis muito elevados de chuva e enchentes. Isso resultou no apodrecimento das vagens e em surtos generalizados de doenças como o Vírus do Inchaço dos Ramos do Cacaueiro (Cocoa Swollen Stem Virus) e a podridão-parda (black pod), devido ao encharcamento dos solos.
Para completar esse quadro, no início de 2024, secas extremas agravadas pelo El Niño e ondas de calor sem precedentes atingiram essas regiões. Isso provocou murchamento das plantas, crescimento reduzido, morte de árvores e menor produtividade, além de elevar ainda mais os preços globais do cacau.
Chuvas extremas, incêndios florestais e calor intenso também foram registrados na Indonésia, Peru e México no final de 2024 e durante 2025, afetando severamente sobretudo as plantações de pequenos produtores.
As mudanças nos padrões climáticos, especialmente o aumento das temperaturas, também podem afetar os pequenos insetos polinizadores dos quais os cacaueiros dependem, reduzindo a polinização e os rendimentos.
“Para os produtores, a mudança climática já não é um risco futuro; ela está afetando diretamente a produtividade e os meios de subsistência dos agricultores. Colheitas menores e desafios pós-colheita tornam o abastecimento sustentável mais difícil e mais urgente”, afirmou Julia Ocampo, vice-presidente de Abastecimento de Cacau e Sustentabilidade da Luker Chocolate, com sede em Bogotá, na Colômbia.
Isso é especialmente relevante porque a resiliência e os impactos das mudanças climáticas variam entre as principais regiões produtoras de cacau da África e da América Latina.
“Onde os sistemas agrícolas estão mais preparados para se adaptar, a produção está se mantendo ou crescendo. Onde não estão, os agricultores ficam mais expostos à volatilidade e às perdas”, acrescentou Ocampo.
Como o chocolate está se tornando mais sustentável
Apesar dos desafios climáticos, várias marcas de chocolate estão tentando se tornar mais sustentáveis. Uma das principais iniciativas é o mapeamento das cadeias de suprimento da fazenda até a barra de chocolate para apoiar a transparência.
Empresas como Barry Callebaut e Cargill utilizam mapeamento por polígonos GPS, que emprega satélites para acompanhar sacas de cacau desde fazendas individuais até os armazéns de processamento.
Isso reduz significativamente as chances de “chocolatewashing” ou greenwashing dentro da indústria do chocolate, permitindo que as marcas verifiquem eletronicamente onde o cacau foi cultivado e distribuam os prêmios de sustentabilidade de forma adequada.

Também ajuda a garantir que as empresas comprem apenas de fornecedores que não participam de desmatamento, por meio do mapeamento dos limites das propriedades rurais.
A Tony’s Chocolonely, sediada em Amsterdã, na Holanda, vem pagando aos agricultores uma renda considerada digna, tentando reduzir a diferença entre os preços de mercado e o Preço de Referência para Renda Digna (Living Income Reference Price).
Da mesma forma, a Nestlé possui um Programa de Aceleração de Renda (Income Accelerator Programme) voltado a incentivar financeiramente agricultores que adotam práticas sustentáveis, ao mesmo tempo em que estimula a permanência das crianças na escola.
As grandes marcas globais de chocolate também adotam certificações independentes e programas internos de sustentabilidade. Esses programas dependem fortemente de auditorias realizadas por entidades externas verificadas, como a Rainforest Alliance, para avaliar as cadeias de suprimento e garantir que cumpram padrões ambientais e sociais, como a proibição do trabalho infantil e o combate ao desmatamento.
Empresas como a Mondelēz International, proprietária de marcas como Cadbury e Toblerone, também estão aprimorando iniciativas de embalagens sustentáveis. Isso ocorre principalmente por meio da eliminação gradual de plásticos descartáveis e camadas desnecessárias de embalagem, além da utilização de elevados percentuais de plástico reciclado e papelão totalmente reciclável.
Embora essas iniciativas tenham contribuído significativamente para melhorar a transparência, a justiça nos preços e a satisfação dos consumidores, elas não tiveram o mesmo sucesso em absorver a volatilidade climática fundamental enfrentada pela maioria dos produtores de cacau.
Onde o atual modelo do cacau apresenta falhas sob pressão climática
Embora a evolução do chocolate sustentável represente um avanço positivo, os produtores de cacau, especialmente os pequenos agricultores, continuam enfrentando forte pressão climática, algo que não é adequadamente tratado pelo modelo atual da indústria.
Isso ocorre principalmente porque a degradação climática sistêmica continua sendo tratada como um problema temporário de “má colheita”, em vez de uma crise econômica estrutural.
Muitas iniciativas de sustentabilidade tratam apenas problemas visíveis, como o desmatamento, sem reconhecer que eles são sintomas de questões muito maiores e mais profundamente enraizadas, como pobreza crônica dos agricultores, vulnerabilidade climática e estruturas de incentivos fundamentalmente inadequadas.
Muitos pequenos produtores da África Ocidental não conseguem arcar nem mesmo com insumos básicos e alimentação por causa da pobreza extrema, quanto mais com investimentos relevantes em sustentabilidade ou agricultura regenerativa, como árvores de sombra, irrigação ou mudança de localização das propriedades.
Em diversos casos, os prêmios pagos por certificações são pequenos demais para combater efetivamente a pobreza. Assim, os agricultores podem ser levados a derrubar áreas significativas de floresta para obter terras férteis simplesmente para sobreviver.

“Também existe um desafio geracional crescente. A idade média de um produtor de cacau é superior a 55 anos. Em muitas regiões produtoras, os jovens relutam em permanecer na atividade agrícola, pois a consideram fisicamente exigente, mal remunerada e pouco atraente”, diz Ocampo.
À medida que as gerações mais jovens se afastam da atividade, habilidades, conhecimento e produção correm o risco de diminuir ao longo do tempo.
Mesmo para aqueles que conseguem investir em sustentabilidade e receber incentivos financeiros, os prêmios não garantem estabilidade de produção nem reduzem os impactos climáticos associados a enchentes, secas ou doenças das lavouras.
Além disso, podem ser necessários vários anos para que os resultados apareçam quando ocorre a transição da produção tradicional para sistemas sustentáveis, o que significa que os agricultores assumem riscos consideráveis para manter seu sustento nesse período.
“Quando os preços do cacau sobem e caem de forma acentuada, torna-se mais difícil planejar, administrar custos e garantir produtos consistentes nas prateleiras”, afirmou Ocampo.
À medida que essas pressões percorrem a cadeia de suprimento até as comunidades agrícolas, os produtores podem enfrentar forte incerteza de renda.
Da mesma forma, embora a rastreabilidade e as certificações possam ajudar a confirmar a origem dos grãos de cacau, muitas vezes elas operam em um sistema de “balanço de massa” (mass balance). Isso significa que grãos certificados são misturados a grãos não certificados ao longo da cadeia de suprimento, especialmente durante o transporte e a fabricação.
Normalmente, as empresas precisam garantir que o volume exato de cacau sustentável adquirido corresponda ao volume vendido nos produtos finais. Contudo, isso não pode ser rastreado até barras individuais de chocolate, o que pode comprometer a confiança e a transparência junto aos consumidores que acreditam estar apoiando práticas éticas por meio de suas compras.
Como o setor global do cacau precisa se adaptar agora
Cerca de 99,9% de todo o cacau é produzido em países com baixa preparação para enfrentar as mudanças climáticas, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).
À medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes nos principais países produtores de cacau, cresce a necessidade de sistemas agrícolas resilientes ao clima.
Isso inclui ampliar a adoção de sistemas agroflorestais, substituindo gradualmente monocultivos sem sombreamento. Os cacaueiros devem ser plantados sob a copa de árvores nativas maiores e produtoras de frutos. Dessa forma, os agricultores podem estimular a biodiversidade local e os polinizadores, recuperar os solos e aumentar a resistência das propriedades ao calor.

Da mesma forma, a diversificação por meio do cultivo consorciado do cacau com culturas como banana-da-terra e banana pode contribuir significativamente para criar uma segunda fonte de renda para os agricultores e ampliar a segurança alimentar em caso de perda de safra.
O fortalecimento da polinização natural, que por sua vez pode elevar a produtividade, também é um fator importante. Isso pode ser alcançado principalmente por meio da preservação dos habitats dos polinizadores. Deixar folhas secas e cascas de vagens no solo ajuda a reprodução dos principais polinizadores do cacau, os pequenos mosquitos mordedores (biting midges). A redução do uso de inseticidas sintéticos também evita a eliminação de insetos benéficos.
As empresas de chocolate também precisam apoiar agricultores de regiões vulneráveis ao clima na adoção de variedades híbridas de cacau mais resistentes à seca.
Mais importante ainda, adaptação e resiliência verdadeiras significam enfrentar a causa fundamental da pobreza dos agricultores por meio da criação de contratos justos e de longo prazo.
Esses contratos devem ir além de prêmios temporários e imprevisíveis, priorizando uma colaboração genuína que combine conhecimento local com direcionamento estratégico, em vez de depender predominantemente de um modelo de cima para baixo.
Nas próximas décadas, a produção de cacau poderá migrar mais para países como Camarões e Nigéria, que devem enfrentar impactos climáticos menos severos do que países da África Ocidental como Costa do Marfim e Gana.
Por isso, uma forma importante de as empresas de chocolate protegerem suas cadeias de suprimento para o futuro é ajudar os produtores mais vulneráveis a transferirem suas propriedades desde já, em vez de esperar. Isso também ajudará a preservar os meios de subsistência e manter os agricultores mais jovens na atividade.
Da sustentabilidade para a resiliência
A aceleração das mudanças climáticas mostrou que o chocolate pode ser obtido de forma ética e, ainda assim, permanecer profundamente vulnerável do ponto de vista estrutural.
As empresas de chocolate precisam ir além das iniciativas de sustentabilidade que priorizam principalmente transparência e ética, direcionando investimentos para resiliência, com foco na sobrevivência climática e na estabilidade agrícola.
“Em um mercado pressionado pelo clima, o abastecimento sustentável não se resume ao cumprimento de exigências. Trata-se de construir as bases econômicas, ambientais e sociais que permitam ao cacau prosperar por gerações”, destacou Ocampo.
Dessa forma, as cadeias globais de suprimento de cacau precisam continuar se expandindo, diversificando-se e adaptando-se continuamente aos riscos climáticos. Ao mesmo tempo, a realidade agrícola no campo deve ocupar posição central nas estratégias corporativas relacionadas ao clima, para impulsionar soluções sistêmicas, e não apenas um posicionamento de marca mais eficiente.
Publicada originalmente em forbes.com