Nascido em Paris e criado na Cidade do México, Laposse se consolidou como uma das vozes mais originais do design contemporâneo colecionável. Formado pela Central Saint Martins, em Londres, ele construiu sua trajetória explorando materiais agrícolas muitas vezes ignorados pela indústria. Cascas de milho, fibras de agave, bucha vegetal, sisal e até cascas de abacate passam por suas mãos para se transformar em móveis e objetos de forte identidade estética e cultural.
Em vez de recorrer a materiais industriais convencionais, o designer trabalha com aquilo que a terra oferece e que agricultores locais cultivam. Essa abordagem conecta diretamente o processo criativo aos ecossistemas e às comunidades rurais.
Um dos exemplos mais emblemáticos de seu trabalho é o Totomoxtle, um biomaterial produzido a partir de palhas de variedades tradicionais de milho mexicano. A técnica transforma resíduos agrícolas em superfícies decorativas ricamente texturizadas, usadas em móveis e revestimentos. Ao mesmo tempo, o projeto contribui para preservar variedades nativas de milho e gera renda para agricultores que as cultivam.
O designer desenvolve seus projetos em colaboração direta com comunidades indígenas, agricultores e artesãos. Segundo ele, essas populações são responsáveis por grande parte do patrimônio cultural do México, mas frequentemente vivem em condições de vulnerabilidade social e econômica. Ao integrar saberes tradicionais ao design contemporâneo, Laposse procura dar visibilidade a esses desafios e valorizar modos de vida ligados à terra.
Sua prática criativa costuma nascer de uma investigação intensa sobre temas ligados à agricultura ou ao meio ambiente. Muitas vezes o ponto de partida é o comércio global de determinado material. A partir daí ele experimenta fisicamente o recurso natural, desenvolve ferramentas próprias e cria processos produtivos no próprio ateliê para transformá-lo em um novo material aplicável ao design de mobiliário.
Essa lógica explica sua escolha por fibras vegetais pouco valorizadas, como henequén, sisal, bucha e folhas de milho. A decisão não é apenas estética.
“É simplesmente o que os agricultores com quem trabalho cultivam”, afirma.
Laposse também desenvolve projetos com marcas internacionais. Em parceria com a maison francesa Perrier-Jouët, por exemplo, criou instalações e peças de edição limitada que exploram o tema da polinização e da biodiversidade.

Entre elas estão as obras da série “The Fleeting Dance”, que evocam a fragilidade da natureza, além de caixas ecológicas e taças de champanhe para as cuvées Blanc de Blancs e Belle Époque 2015. As embalagens utilizam digitalizações de alta resolução de pólen e pigmentos naturais para reproduzir visualmente as explosões de pólen liberadas por flores no início da primavera e do verão.
Seu ateliê na Cidade do México funciona ao mesmo tempo como estúdio de design e espaço de produção. A equipe é formada por oito profissionais de diferentes áreas, do design ao artesanato. Grande parte das peças é produzida internamente, o que permite experimentar materiais e alcançar resultados que dificilmente surgiriam em processos terceirizados.
Com esse modelo, Fernando Laposse vem demonstrando que o design pode atuar como ponte entre criação contemporânea, agricultura e conservação ambiental, transformando resíduos do campo em objetos de alto valor cultural.
