Quando o preço da cesta básica caiu ao longo de 2025 e o consumo de alimentos da baixa renda recuou junto, a Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço (ABAAS) passou a investigar para onde foi a renda que deveria ter chegado às gôndolas. Construída a partir de dados transacionais e entrevistas com consumidores, a resposta chegou nesta segunda-feira (4), diretamente ao vice-presidente Geraldo Alckmin: apostas online e endividamento estão comprometendo o orçamento das famílias de menor renda antes de qualquer decisão de compra de alimentos, em um momento em que o Brasil registra pleno emprego e crescimento da renda formal.
“A renda aumentou, o salário aumentou, mas o que está acontecendo? Não está sobrando”, disse Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), nesta terça-feira (5), durante reunião na sede da entidade. Do encontro com Geraldo Alckmin participaram também Belmiro Gomes, presidente do Conselho da ABAAS e CEO do Assaí Atacadista, e Renato Costa, presidente do conselho da Abiec e presidente da Friboi/JBS.
O atacarejo responde por 52% do varejo alimentar moderno no Brasil e movimentou R$ 369,5 bilhões em faturamento das 24 redes associadas à ABAAS em 2025, o que coloca a associação na posição de identificar, antes das estatísticas oficiais, as alterações no orçamento das famílias. Vale registrar o caso do próprio Assaí. Com 40 milhões de clientes por mês em 313 lojas e 90 mil colaboradores, a empresa funciona como termômetro da classe trabalhadora: na folha de abril de 2026, um em cada quatro funcionários da rede ficou com salário zerado por consignado em uma única competência.
Dados do NielsenIQ Retail Index relativos ao quarto trimestre de 2025 mostram o problema em números: no varejo moderno, canal da alta renda, o volume de compras cresceu 4,0% em relação ao mesmo período do ano anterior; no pequeno varejo, canal da baixa renda, a queda chegou a 9,6%. A distância entre os dois segmentos, chamada de “efeito K” pela ABAAS, alcançou 13,6 pontos percentuais no quarto trimestre, contra 11,0 pontos no terceiro. Em um único trimestre, o fosso se ampliou 2,6 pontos percentuais.
“O rico está comprando mais e o pobre está comprando menos. Por isso a sensação das pessoas de que não está bom, mesmo tendo aumentado a renda”, afirmou Perosa.
O argumento da ABAAS para esse descompasso está na combinação entre queda de preços e queda de consumo. Em 2025, segundo o IPCA/IBGE, o arroz recuou 37,1%; o leite, 16,1%; o açúcar, 11,1%; o feijão, 10,2%. Ou seja, quando o preço de um alimento cai e o consumo das famílias cai junto, a renda está comprometida antes de chegar ao mercado. A investigação sobre onde essa renda foi parar chegou às apostas online e ao crédito mal dimensionado.
Que a indústria de carnes e o atacarejo integrem essa agenda não é circunstancial. As duas pontas da cadeia têm o mesmo consumidor final e compartilham o mesmo problema quando ele para de comprar. “A gente podia estar expandindo o consumo de carne. Mas não está e o impacto no setor não está descartado”, diz Perosa. “Queremos estar nesse movimento de entender e ajudar a solucionar, porque as pessoas estão gastando dinheiro com outra coisa”, afirmou Perosa. O Brasil produz proteína animal em volumes crescentes e as exportações batem recordes, mas o mercado interno não cresce na proporção que o ambiente macroeconômico permitiria.
O caminho do dinheiro
Combinando dados transacionais com declarações dos próprios consumidores, a metodologia do documento entregue ao governo federal rastreou o destino da renda que deixou de ser gasta no atacarejo. “Nas conversas para entender esse cenário, os pesquisadores foram perguntando, até que uma hora a pessoa tem coragem de falar. Porque muita gente esconde por vergonha que está jogando, apostando online”, diz Perosa.
O Brasil concentra entre 22% e 25% do tráfego mundial em sites de apostas, segundo o SimilarWeb, registrando 2,7 bilhões de acessos mensais, volume que supera, somados, YouTube, WhatsApp e TikTok no tráfego nacional. O mercado regulado faturou R$ 37 bilhões em receita bruta ajustada em 2025, com R$ 9,95 bilhões em tributos federais, segundo balanço da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA).
Por trás desse mercado formal, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) admite que mais de 50% do setor opera na informalidade, e estimativa da LCA Consultoria aponta que o mercado ilegal pode movimentar até R$ 78 bilhões por ano. Isso no ano passado. Para 2026, ano de Copa do Mundo, a estimativa é de um mercado que pode beirar R$ 600 bilhões entre bets legais e ilegais.
Segundo a pesquisa, o Banco Central também registrou entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões em transações via Pix destinadas a plataformas de apostas por mês em 2024, projetando entre R$ 216 bilhões e R$ 252 bilhões anuais saindo do bolso dos apostadores, dos quais 5 milhões são beneficiários do Bolsa Família, que movimentaram R$ 3 bilhões em apostas só em agosto de 2024. A percepção das apostas como fonte de renda extra, disseminada por influenciadores digitais, explica por que a redução no consumo de alimentos não é percebida como sacrifício. “Para mim a Bet é uma fonte de renda extra”, descreveu Perosa, sintetizando o argumento que ouve de apostadores.
Outro dado da apresentação contraria a narrativa de que as bets são, sobretudo, apostas esportivas: 80% da receita das plataformas vem do cassino online, não das apostas em partidas. “Eles te convidam para o chamariz do esporte, e a hora que você entra dentro da plataforma, é cassino. É a roleta, é o blackjack”, afirma Perosa. O esporte funciona como porta de entrada para jogos contínuos, sem a limitação de calendário que as partidas impõem.
O endividamento das famílias aprofunda esse quadro: em fevereiro deste ano, 49,9% das famílias brasileiras estavam endividadas, recorde da série do Banco Central iniciada em 2005, e o Serasa registrava 81,3 milhões de adultos negativados, o equivalente a 50% da população adulta do país.
Quatro pedidos ao governo
Na reunião com Alckmin, o grupo apresentou quatro medidas. A primeira é a aceleração do bloqueio de URLs de sites ilegais pela Anatel, que em 2025 identificou 25 mil endereços irregulares, mas leva entre seis meses e um ano para bloqueá-los, com pedido de aplicação do precedente técnico da operação Gatonet.
A segunda é o bloqueio de chaves Pix vinculadas a plataformas ilegais, com encerramento automático das contas e bloqueio do Pix de programas sociais para CNPJs do setor. A terceira é a responsabilização solidária de Meta, Google e TikTok por anúncios de bets ilegais. A quarta é a separação, dentro das plataformas legais, entre apostas esportivas e cassino online, preservando o patrocínio a clubes mas proibindo jogos de slot, crash e roleta nos mesmos aplicativos.
Um alívio para as famílias pode vir do Desenrola 2.0, lançado também nesta segunda (4), prevê descontos de 30% a 90% sobre dívidas e bloqueio de acesso a bets por um ano para quem aderir ao programa. A ABAAS reconhece o avanço, mas aponta o limite: projetando entre 15 e 20 milhões de adesões, os outros 140 milhões de adultos brasileiros seguem sem proteção estrutural.
Para o horizonte de longo prazo, a ABAAS propõe um modelo nos moldes da política antitabaco: em 1989, 34,8% da população adulta fumava; em 2023, esse percentual havia caído para 9,1%, redução de 74% em 35 anos segundo o Vigitel, resultado que atravessou sete mandatos e combinou restrição de publicidade, impostos progressivos e tratamento pelo SUS.
A recepção no governo foi descrita por Perosa como positiva, ainda que a tensão entre arrecadação e regulação persista: o Ministério da Fazenda pondera os bilhões em tributos que o setor regulado gerou em 2025. “A gente tem que tentar equilibrar todos esses pratos, mas mostrando os problemas”, disse Perosa. O que não vai para a gôndola não volta para a fazenda, e esse argumento é o que o agronegócio passou a levar diretamente ao governo.