Almagrino/Divulg
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Em uma área de 160 hectares no município de Campo Verde, em Mato Grosso, a empresa Almagrino se prepara para colher o que chama de “plantação de camisetas”. A lavoura foi desenhada para dar origem a peças de vestuário, com controle total do processo – da escolha da semente até a confecção final – e com foco em qualidade premium, rastreabilidade e sustentabilidade. A colheita deve ser concluída na primeira quinzena de agosto, marcando uma entrega fora do ritmo tradicional da safra no estado.
“Chamamos essa lavoura de plantação de camisetas. A colheita dessa pluma ficou para o mês de agosto por alguns motivos. Como o plantio da soja atrasou no ano passado, por conta das primeiras chuvas, isso empurrou o plantio do algodão para o final da janela, postergando também o prazo de colheita”, diz Pedro Sávio, sócio-fundador da Almagrino. “Além disso, houve um diferencial climático neste período, e as variedades que escolhemos para o cultivo são de ciclo mais longo.”
A Almagrino é uma marca de moda originária de Cuiabá (MT), especializada em vestuário feito com algodão brasileiro sustentável. Segundo a empresa, a produtividade esperada é superior a 300 arrobas por hectare, com foco em fibras longas, com comprimento mínimo de 33 milímetros. O padrão será avaliado por meio do High Volume Instrument (HVI), tecnologia que identifica os principais parâmetros da pluma no mercado global. A empresa pretende selecionar apenas os melhores fardos para a produção de roupas. Parte do volume será estocado para abastecer a cadeia de forma controlada até a próxima safra.
De acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA), até o início de agosto, pouco mais de 18% da área total plantada com algodão havia sido colhida em Mato Grosso, o que representa um atraso de quase 16 pontos percentuais em comparação com a safra anterior. A principal causa foi o período chuvoso prolongado, que provocou a maturação tardia das plantas.
A lavoura da Almagrino não é irrigada. Toda a condução é feita com água da chuva, o que elimina a necessidade de fontes artificiais e reduz o impacto ambiental. Também são aplicados princípios da agricultura regenerativa, como o plantio direto, técnica que evita o revolvimento do solo e amplia a capacidade de sequestro de carbono. “Aproximadamente 30% dos insumos utilizados são biológicos”, afirma Sávio.
Com base nesses critérios, a empresa estabeleceu um plano de medição e compensação de emissões. A Almagrino concluiu recentemente uma análise de ciclo de vida (ACV) de seus produtos, desenvolvida em parceria com a Future Climate. A ferramenta mede com precisão a pegada de carbono de toda a cadeia produtiva. A partir desses dados, a meta da companhia é neutralizar as emissões da produção anual e alcançar, até a COP30, o status de marca com roupas de algodão rastreável e carbono neutro.
Na safra 2024/25, Mato Grosso cultivou cerca de 1,5 milhão de hectares com algodão, o que representa 75% da área plantada no Brasil. A liderança nacional do estado combina escala produtiva e iniciativas voltadas à agregação de valor, como o projeto da Almagrino, que integra agricultura, moda e rastreabilidade em um modelo verticalizado.
Em 2024, a empresa produziu mais de 30 mil peças de roupa certificadas com fibra rastreada. A meta para 2025 é mais ambiciosa: 50 mil peças. Para sustentar o avanço, o plano inclui a expansão da área plantada dedicada exclusivamente à pluma especial. “Pretendemos dobrar a produção de peças até o próximo ano, acompanhando o crescimento do varejo. Isso significa também expandir proporcionalmente a nossa área de plantio em Campo Verde”, diz Sávio.
Brasil como referência global em algodão sustentável e rastreável
A evolução da cadeia produtiva do algodão no Brasil não se limita ao campo. Nos últimos anos, o país ampliou sua posição no mercado internacional combinando escala, tecnologia, rigor ambiental e integração com a indústria têxtil. O movimento vai além da produção de pluma: envolve certificações reconhecidas globalmente, rastreabilidade digital e uma articulação entre produtores, marcas e consumidores.
A safra 2024/25 consolidou esse avanço. A área plantada ultrapassou os 2 milhões de hectares, com crescimento estimado entre 7% e 10% em relação ao ciclo anterior, segundo dados da Conab e da Abrapa. A produção total de pluma deverá ficar entre 3,9 e 4 milhões de toneladas, mantendo o Brasil entre os maiores produtores mundiais. Apesar do aumento no volume, a produtividade média apresentou ligeira retração, variando de 1.880 quilos por hectare a 299,4 arrobas por hectare, de acordo com as mesmas fontes.
No comércio exterior, o país atingiu 14% da produção global e passou a liderar as exportações mundiais da fibra, com 30,5% do total comercializado. De agosto de 2024 a abril de 2025, o Brasil exportou 2,35 milhões de toneladas de algodão, o que reforça sua relevância nas cadeias globais de abastecimento. Ainda assim, o ritmo da colheita foi mais gradual nesta temporada: em meados de junho, apenas 4% da área havia sido colhida.
Além da escala e dos resultados no campo, a produção brasileira se destaca por seu perfil técnico e sustentável. Cerca de 93% da lavoura nacional é conduzida em regime de sequeiro, sem uso de irrigação. O Cerrado, com regime de chuvas concentrado, permite o cultivo com eficiência hídrica e menor impacto ambiental. O uso de sementes melhoradas, técnicas de manejo de precisão e equipamentos de alta performance também contribui para manter a competitividade da cultura.
Esse desempenho está amparado por sistemas de controle e certificação. O programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), coordenado pela Abrapa, estabelece critérios sociais, ambientais e legais validados por auditorias externas. A iniciativa opera em alinhamento com a Better Cotton Initiative (BCI), principal referência internacional em sustentabilidade na cultura do algodão. Em 2023/24, mais de 80% da produção brasileira foi certificada simultaneamente pelos dois programas.
Para garantir a qualidade da fibra, o país adota o Standard Brasil HVI (SBRHVI), padrão que utiliza equipamentos de análise por alto volume e permite a classificação técnica da pluma segundo parâmetros internacionais. Os dados coletados são processados em uma rede nacional de laboratórios e centralizados em um sistema integrado. Já o SAI (Sistema Abrapa de Informações) conecta toda a cadeia produtiva e permite rastrear cada fardo colhido, da lavoura até o beneficiamento.
Esses instrumentos viabilizam um novo modelo de transparência, que vem sendo levado ao consumidor por meio do movimento Sou de Algodão, criado em 2016 pela Abrapa. A iniciativa aproxima marcas, estilistas, varejistas e produtores, promovendo o consumo responsável de uma fibra cultivada com critérios técnicos e ambientais. O movimento já participou de edições do São Paulo Fashion Week, ações educativas e parcerias com centenas de marcas em todo o país.