A agtech brasileira Solinftec anuncia nesta terça-feira (5), nos Estados Unidos, uma nova concepção de comercialização de tecnologia agrícola batizada de “freedom per acre” (liberdade por hectare, em tradução livre). A iniciativa parte de um diagnóstico construído ao longo de três anos de operação com o robô Solix no campo americano: o produtor rural não adota tecnologia a partir de apresentações ou argumentos comerciais, mas de experiências concretas vividas na própria lavoura. A agtech, que em 2026 estima uma receita de R$ 500 milhões, atua no desenvolvimento de tecnologia de inteligência artificial e robótica para o agronegócio em fazendas de 14 países, cobrindo cerca de 15 milhões de hectares.
O lançamento ocorre durante o Southeastern Specialty Crop Technology Conference and Show, evento inaugural promovido pelo College of Agricultural and Environmental Sciences da Universidade da Geórgia, em Tifton, que reúne produtores, pesquisadores e líderes de agtech de todo o Sudeste dos Estados Unidos para demonstrações ao vivo de pulverizadores com inteligência artificial, robótica de colheita, drones para detecção de plantas daninhas e ferramentas de agricultura digital. A Solinftec figura entre os patrocinadores, ao lado de John Deere, Carbon Robotics, Verdant Robotics e Ecorobotix. A empresa aproveitou a presença já programada no evento para tornar pública o projeto que estava em desenvolvimento na empresa há seis meses.
“Isso é um marco que vai dividir entre o que é modelo de negócio e a liberdade de um produtor”, disse Leonardo Carvalho, CGSO (Chief Global Strategy Officer ou Diretor de Estratégia Global) da Solinftec, em entrevista exclusiva à Forbes. “O produtor vai começar a ter uma liberdade, ou vislumbrar uma liberdade que ele não tinha para tomar decisões sobre tecnologias.” O executivo é enfático em dizer que a empresa “não depende desta iniciativa para vender seus robôs”, mas que ela deve se tornar um marco na relação do emprego de robótica nas lavouras.
A proposta do “freedom per acre” é simples na forma e ambiciosa no alcance: uma equipe de dois profissionais (um agrônomo e um especialista em tecnologia) vai até uma propriedade e instala um robô da companhia, que permanece por uma semana em campo, traduzindo em tempo real cada movimento da máquina em dados de produtividad, redução de custo., entre outros.
“As perguntas se o robô vai economizar insumos, se vai cobrir toda a área, entre outras, são respondidas com o que será visto no campo. Se houver uma possível aquisição ela será baseada na experiência”, explica Carvalho. A diferença em relação a um fabricante tradicional é que ele leva o produtor até a máquina (em feiras, fazendas demonstrativas ou eventos) ou empresta o equipamento dentro de um calendário de lançamento.
Dez produtores, três estados e por que os EUA
Para 2026, a Solinftec mapeou dez produtores nos estados de Indiana, Iowa e Illinois (o chamado Corn Belt americano) para receber a experiência. Os nomes não serão divulgados, por ora. O critério de seleção priorizou produtores com perfil de adoção tecnológica e influência regional, capazes de irradiar o modelo para o entorno. Por exemplo, em Indiana, a empresa já opera com um produtor de porte médio, com cerca de 2 mil acres (800 hectares), que funciona como referência na própria região.
Atualmente, a Solinftec opera 150 robôs nos Estados Unidos e 100 no Brasil. Carvalho estima que os 150 robôs americanos cobrem cerca de 40 mil hectares. No mercado americano, a empresa concentra a expansão da robótica, enquanto no Brasil a maior parte da base instalada se divide entre cana-de-açúcar, grãos e culturas perenes.
A escolha pelos Estados Unidos como ponto de partida não é casual. O produtor americano convive com um problema estrutural de produtividade estagnada há anos, opera em um mercado subsidiado e enfrenta escassez crescente de mão de obra. Ao mesmo tempo, a estrutura de distribuição agrícola americana depende fortemente de dealers e cooperativas (retailers), o que cria uma camada de intermediação entre a tecnologia e quem de fato a usa.
“Quando olho a cadeia inteira do agronegócio americano e brasileiro, o produtor não toma três decisões no dia, na safra, baseadas nas mesmas coisas”, analisa Carvalho. Para ele, é a dependência de intermediários que mantém o produtor distante da terra e das decisões que impactam sua margem.
Não por acaso, o paralelo que o executivo usa para descrever o modelo é justamente o do Uber. “Hoje existe a escolha de pegar um táxi ou um Uber. Quando havia só táxi, não havia outra possibilidade”, diz ele. Assim como o aplicativo eliminou camadas de intermediação no transporte e foi direto ao usuário, a Solinftec pretende atingir o produtor sem passar por revendedores. A diferença é que, no agronegócio, a resistência cultural é maior. O produtor americano, assim como o brasileiro, tende a ser fiel a marcas históricas de máquinas, a ponto de, em alguns casos nos EUA, tatuá-las no corpo.
A superação dessa barreira, segundo Carvalho, passa pela experiência física e mensurável. “Agronegócio não tem payback. Quando um produtor compra uma máquina, compra por uma necessidade. Na tecnologia é diferente, por isso a ideia de ir para dentro da casa do produtor”, afirma.
Um dos argumentos da Solinftec para justificar a robótica agrícola em escala é justamente a diferença entre cobrir área e cuidar de área. Segundo o executivo, as máquinas convencionais cobrem grandes extensões em pouco tempo, mas “não retornam ao mesmo ponto com a frequência que a biologia vegetal exige”. O robô, que opera em ciclos de cinco dias na mesma área, permite monitorar e agir sobre variações que equipamentos tradicionais não identificam.
O modelo “freedom per acre” será trazido ao Brasil no segundo semestre de 2026, com início na cana-de-açúcar. A Solinftec planeja realizar a experiência com cinco usinas, escolha justificada pela estrutura corporativa já consolidada desse segmento. “Temos 90% do mercado, então esse processo vai ser glamuroso para a cana”, afirma Carvalho. Para grãos, a expansão no modelo está prevista para 2027, com dinâmica mais próxima da que será testada nos EUA. “Uma empresa de tecnologia que não se dispõe a mudar o próprio modelo, a entender o que está acontecendo e se reinventar, morre.”