05/05/2026

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Tarifaço Americano Ameaça Quebrar Década Dourada do Agro Brasileiro

Ugurhan_Getty

Navio exportador com carga brasileira

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Ainda que desidratado, começa nesta quarta (6), o tarifaço imposto pelo governo dos EUA ao Brasil. Da lista inicial restam para a aplicação da tarifa máxima de 50%, cerca de 3,8 mil produtos, parte deles do agro. É uma bomba comercial prestes a explodir na relação entre Brasil e Estados Unidos, que até agora tem sido postergada. As tarifas impostas pelo presidente Donald Trump sobre produtos agrícolas brasileiros ameaçam destruir uma das parcerias comerciais da última década.

Foram excluídos 694 produtos brasileiros, como suco de laranja, aviões, castanhas, gás natural e fertilizantes. Essas e outras exceções equivalem a 45% dos produtos brasileiros exportados para os EUA, de acordo com os cálculos da Câmara Americana de Comércio no Brasil. Mesmo assim, os números do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) mostram a dimensão do que está em jogo: US$ 81,79 bilhões exportados pelo agronegócio brasileiro para os americanos entre 2015 e 2024.

O que ocorre agora é um feito fora dos planos de crescimento e de conquista de novos mercados, justamente no biênio em que o agronegócio brasileiro atinge seu auge nas exportações para os EUA, com US$ 12,08 bilhões em 2024 – os maiores valores da história –, Trump decide apertar o cerco tarifário. O volume também impressiona: de 5,63 milhões de toneladas para 9,39 milhões de toneladas, um crescimento de 67% em peso.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que o agronegócio deixará de exportar US$ 5,8 bilhões aos Estados Unidos neste ano. “Para muitos setores, essas tarifas tornarão economicamente inviável continuar exportando para o mercado americano”, diz um executivo do setor que preferiu não se identificar. “Estamos falando de produtos que já competem em margens apertadas. Com 50% de tarifa adicional, simplesmente não conseguimos manter a competitividade.”

O timing dessa medida não poderia ser mais crítico. Justamente quando o agronegócio brasileiro consolidava sua posição como fornecedor estratégico dos EUA,  saindo de US$ 6,26 bilhões em 2015 para o patamar histórico de 2024, a tarifa ameaça desmantelar uma parceria comercial que se mostrou resiliente a crises anteriores, incluindo tensões comerciais em 2018 e os impactos da pandemia de Covid-19. Vale registrar que em 2018, uma escalada de guerra comercial entre Estados Unidos e China chegou setembro com tarifas sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses, o que beneficiou os produtores brasileiros na época, principalmente a soja.

Agora, a atual medida encarece os produtos do Brasil no mercado norte-americano, podendo reduzir a competitividade de exportadores brasileiros. O impacto vai além da perda de receitas, forçando o setor a reorientar estratégias comerciais e buscar mercados alternativos em ritmo acelerado.

O governo Lula e o empresariado já estudam formas de reagir à medida, caso ela se efetive. A resposta do país será crucial para determinar se conseguirá diversificar rapidamente sua pauta exportadora ou se enfrentará uma contração significativa no setor. É essa capacidade que determinará se 2025 marcará uma inflexão temporária ou o início de uma nova reconfiguração das relações comerciais agrícolas entre os dois países.

Produtos florestais: liderança de US$ 29 bilhões sob ameaça

O setor florestal, que dominou as exportações brasileiras para os EUA com US$ 29,34 bilhões na última década, enfrenta agora seu maior desafio. Como líder absoluto das exportações agrícolas brasileiras – representando 36% de toda a pauta -, o segmento está diretamente na linha de fogo das novas tarifas.

A consolidação dos produtos florestais brasileiros no mercado americano foi resultado de décadas de investimento em sustentabilidade e qualidade. A indústria americana de construção civil e embalagens encontrou no Brasil um fornecedor confiável, capaz de atender aos rigorosos padrões ambientais. Com a tarifa de 50%, essa parceria estratégica pode ser severamente comprometida.

O setor, que atingiu pico de US$ 4,05 bilhões em 2022 e manteve-se estável em US$ 3,72 bilhões em 2024, agora enfrenta a perspectiva de perder competitividade frente a fornecedores alternativos, principalmente do Canadá e países nórdicos.

Café: renascimento interrompido após crescimento de 137%

O café brasileiro, que protagonizou uma das recuperações mais espetaculares da década, saltando de US$ 871 milhões em 2018 para o recorde de US$ 2,07 bilhões em 2024, agora vê sua trajetória ascendente ameaçada. Os embarques de café não torrado e não descafeinado seriam os menos afetados, com redução prevista de 25% em volume.

Mesmo sendo relativamente menos impactado que outros setores, o café brasileiro perde o momentum de crescimento justamente quando consolidava sua recuperação no mercado americano. Os US$ 12,65 bilhões movimentados na década representam 15,5% de todas as exportações agrícolas, e a tarifa pode interromper investimentos em qualidade e rastreabilidade que vinham fortalecendo a marca do café brasileiro.

Suco de laranja: setor estratégico

O suco de laranja está entre os setores mais relevantes na pauta atual das tarifas. O segmento, que movimentou US$ 5,98 bilhões na década e atingiu US$ 1,19 bilhão em 2024 após superar o vale de US$ 325 milhões em 2020, enfrenta agora perspectiva de retração severa.

A citricultura brasileira, tradicionalmente forte no mercado americano, havia se adaptado às mudanças nos hábitos de consumo americanos, com crescente valorização de produtos naturais e funcionais. Ameaças tarifárias podem interromper essa trajetória de recuperação e forçar o setor a buscar mercados alternativos.

Carnes: crescimento meteórico de 386% sob risco

O setor que registrou o crescimento mais impressionante da década, saltando de apenas US$ 290 milhões em 2015 para US$ 1,41 bilhão em 2024, enfrenta agora o risco de ver esse progresso comprometido. A carne está entre os setores já afetados pela medida, mesmo antes da entrada em vigor.

A expansão das exportações de carne para os EUA representou uma guinada estratégica, com o mercado americano reconhecendo os avanços sanitários brasileiros. Com US$ 6,23 bilhões movimentados na década, as carnes brasileiras representam hoje 7,6% da pauta exportadora agrícola, posição que pode ser severamente impactada pelas novas tarifas.

Complexo sucroalcooleiro: volatilidade ampliada

O complexo sucroalcooleiro, que já navegava em águas turbulentas com alta volatilidade ao longo da década, enfrenta agora desafio adicional. O etanol deve ter quedas expressivas nas exportações aos EUA, com redução prevista em volume de 71%,  impacto que pode ser devastador para o setor.

Com US$ 6,73 bilhões movimentados na década e trajetória de recuperação que culminou em US$ 830 milhões em 2024, o setor sucroalcooleiro via no mercado americano uma oportunidade estratégica na transição energética global. As tarifas podem interromper essa perspectiva de crescimento.

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