O setor de carne bovina foi diretamente atingido pela nova tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Mesmo após tentativas de negociação, a sobretaxa entrou em vigor, afetando um dos principais mercados da proteína nacional e gerando estimativas de prejuízos bilionários para os exportadores.
Antes mesmo da nova alíquota ser oficialmente aplicada, os primeiros impactos foram sentidos no campo. Segundo o Agro Estadão, pecuaristas viram os preços da arroba do boi gordo despencarem abaixo de R$ 300 em algumas regiões. Embora o mercado já comece a dar sinais de recuperação, ainda há incertezas no ar: quem sairá mais prejudicado com o tarifaço norte-americano? A indústria, os produtores ou o consumidor dos EUA?

Indústria sente primeiro impacto e busca novos mercados
De acordo com Fernando Iglesias, coordenador de mercados da consultoria Safras & Mercado, o principal impacto inicial recai sobre a indústria frigorífica. Com a nova tarifa, o preço da carne brasileira nos EUA salta para US$ 8.400 por tonelada — valor superior ao praticado por concorrentes como Austrália, Uruguai e Argentina, que devem ganhar espaço no mercado norte-americano.
Antes da medida, o preço médio pago pelos EUA à carne brasileira era de US$ 6.100 por tonelada, ainda abaixo da carne australiana, que chega a ser comprada por até US$ 7.100. Agora, com a perda de competitividade, os frigoríficos brasileiros precisarão redirecionar seus embarques para outros mercados que paguem bem e absorvam grandes volumes.
“A perda não será necessariamente em volume, mas em rentabilidade”, explica Iglesias. “O Brasil não vai perder dinheiro, mas vai deixar de ganhar. O desafio será substituir o mercado americano sem perder margem.”
Vácuo nos EUA pode abrir portas para o Brasil em outros mercados
Apesar do revés, a indústria brasileira pode encontrar oportunidades. Iglesias aponta que os países que devem ocupar o espaço da carne brasileira nos EUA — como Austrália e Uruguai — terão de remanejar suas exportações, abrindo lacunas em outros mercados.
“É o que chamamos de cobertor curto. Ao priorizarem os EUA, esses países deixarão de atender outras regiões. E aí é que entra o Brasil, com sua capacidade única de abastecer vários mercados simultaneamente”, destaca o analista.
Pecuária começa a se recuperar
Mesmo tendo sido o primeiro elo afetado, o setor pecuário começa a mostrar sinais de recuperação. Para Iglesias, o pior já passou e a tendência é de valorização da arroba nos próximos meses, impulsionada por dois fatores: exportações ainda firmes e aumento do consumo interno no último quadrimestre do ano.
“O mercado do boi deve iniciar uma trajetória de alta mais consistente, com espaço para novos reajustes”, afirma. O período de fim de ano, com 13º salário, férias e contratações temporárias, tende a aquecer o consumo de carne e fortalecer o varejo.
Consumidor dos EUA também pode pagar a conta
Do outro lado da balança, o consumidor norte-americano também deve sentir os efeitos do tarifaço. Com a saída da carne brasileira, os EUA dependerão de fornecedores mais caros — e com isso, os preços tendem a subir.
No Brasil, a arroba do boi gordo custa entre US$ 50 e US$ 55, enquanto nos EUA o valor gira entre US$ 120 e US$ 130. “Até há fornecedores alternativos, mas a um custo muito superior ao que o Brasil vinha oferecendo”, destaca Iglesias.
O cenário é agravado pela situação da pecuária nos próprios Estados Unidos, que enfrenta o menor rebanho bovino desde a década de 1960. Isso limita a capacidade de aumentar rapidamente a produção interna, o que reforça a pressão inflacionária sobre os preços das proteínas no país.