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A agricultura dos Estados Unidos está em um ponto de inflexão. Apesar de produzir uma abundância de alimentos, a maioria dos produtores rurais do país perde dinheiro com a atividade em um ano típico e depende de empregos fora da fazenda para se manter; o USDA estima que a renda agrícola mediana foi negativa em 2023 e 2024.
Ao mesmo tempo, os alertas sobre biodiversidade estão em nível máximo. Avaliações recentes apontam que mais de um quinto dos polinizadores da América do Norte, e cerca de um terço de suas abelhas nativas, enfrentam risco elevado de extinção, o que coloca em perigo os serviços ecológicos dos quais o sistema alimentar depende.
“Se acabarmos com os nossos polinizadores”, diz Elizabeth Whitlow, diretora executiva fundadora e hoje integrante do conselho da Regenerative Organic Alliance (ROA), “vamos ficar com bastante fome.”
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Elizabeth Whitlow, diretora executiva fundadora da ROA
Segundo os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e de análises de mercado, os Estados Unidos ocupam hoje a 3ª posição entre os maiores produtores de alimentos do mundo, atrás de China (1º) e Índia (2º) em valor de produção agroalimentar. O Brasil aparece como 4º maior produtor.
Whitlow ajudou a lançar, em 2018, o padrão Regenerative Organic Certified (ROC) para enfrentar essas crises interligadas de degradação do solo, preocupações com bem-estar animal e precariedade dos trabalhadores rurais, sem fingir que exista uma solução única e milagrosa.
“Os objetivos do programa são aumentar a matéria orgânica do solo ao longo do tempo, sequestrar carbono no solo, garantir tratamento ético e humano dos animais e oferecer condições justas para agricultores e trabalhadores rurais”, diz Whitlow.
O ponto de partida do ROC é deliberado: “Nós sempre exigimos o orgânico como base… estamos construindo sobre 40 anos de contribuições das partes interessadas para chegar a um padrão federal acordado para o orgânico.”
Essa base é importante porque “regenerativo” continua sem definição em muitos mercados; o ROC tenta ancorar o termo em práticas mensuráveis por meio de auditorias credenciadas por terceiros, em vez de romantização ou textos publicitários vazios.
A adoção pelo setor já não é marginal: a ROA e relatórios independentes apontam área certificada ou inscrita acima de 7,3 milhões de hectares e em crescimento, com centenas de marcas incorporando ingredientes ROC em alimentos, têxteis e cuidados pessoais.
Um diferencial central, argumenta Whitlow, é que o ROC “pensa nos seres humanos e em todos os seres vivos de forma muito sistêmica e holística”. O padrão combina práticas e resultados, em vez de ser apenas baseado em práticas, e leva em conta o contexto, sem ser prescritivo.
“Manter o solo coberto é algo comprovado… mas não dizemos aos agricultores exatamente como fazer”, reconhecendo que solos, microclimas e práticas culturais variam de campos de quinoa na Bolívia a arrozais na Califórnia.
Se os princípios do ROC soam como algo que possa ser difícil de implementar, Whitlow insiste que a mecânica é simples. “Nós certificamos as fazendas e licenciamos as marcas”, e apoiamos as fazendas agrupando, sempre que possível, as auditorias orgânicas e regenerativas para eliminar duplicações e reduzir tempo e custo.
As taxas são intencionalmente modestas para os produtores, na ordem de US$ 250 (R$ 1.350 na cotação atual) por ano para qualquer fazenda com receita bruta inferior a US$ 1 milhão (R$ 5,4 milhões), diz ela, com as marcas “abrindo caminho” com taxas de licença para sustentar o programa em vez de “tirar das costas do agricultor”.
O trabalho mais complicado começa depois da colheita. “As teias de suprimento são muito complexas”, observa. “Você traz cacau de Serra Leoa para a Europa, transforma em pó e depois em uma barra. A rastreabilidade é essencial para manter a integridade da alegação, e isso é bem diferente quando se trata de cuidados pessoais, têxteis ou alimentos.”
Para produtos com vários ingredientes, o ROC em geral segue as regras de rotulagem orgânica, por exemplo, conteúdo de 95% ou mais para uma alegação de “orgânico” na parte da frente da embalagem, embora categorias como vinhos e têxteis exijam controles mais profundos, às vezes específicos da região.
Quando se pergunta por que os agricultores simplesmente não fazem a mudança, Whitlow volta aos incentivos. “O seguro agrícola orienta as decisões de plantio”, ao premiar um conjunto limitado de culturas em linha e reforçar a infraestrutura em torno delas, como silos, fábricas de ração e genética.
Análises acadêmicas confirmam isso: o desenho dos subsídios, a forma de calcular prêmios e os modelos de negócio das seguradoras muitas vezes direcionam áreas para milho e soja, o que torna a diversificação mais arriscada no papel, mesmo quando os mercados locais a sustentariam. “É um círculo vicioso de interesses do agronegócio dominante”, diz Whitlow, “e precisamos de políticas que amparem sistemas e infraestruturas pequenos e diversificados.”
Apesar dos obstáculos, ela enxerga impulso. Fundos federais dos EUA para apoiar a transição de volta ao orgânico, recuperados após cortes anteriores, estão ajudando os produtores a experimentar. “Os agricultores olham por cima das cercas uns dos outros”, diz Whitlow. “Quando veem os benefícios, mudam de ideia.”
Esse efeito entre pares está alinhado com os dados: mais operações estão buscando “vias de entrada” para o orgânico regenerativo à medida que a ROA lança programas voltados a ampliar a escala com credibilidade, sem diluir os padrões. A prova está sempre no resultado.
Quando os agricultores veem que seus vizinhos orgânicos e regenerativos prosperarem mais e gastarem menos com insumos caros, eles ficam mais interessados e dispostos a aplicar métodos e soluções antes descartados.
O conselho de Whitlow, quando questionada sobre o que já é aplicável agora, é surpreendentemente simples. “Quando foi a última vez que você puxou uma cenoura da terra? Comeu um tomate cereja direto do pé?” Reconectar-se à sazonalidade recompõe o ciclo de retorno de informação que as cadeias de suprimento modernas romperam.
Para as famílias, isso significa participar de uma CSA ( sigla em inglês para Agricultura Apoiada pela Comunidade), comprar produtos ROC e certificados orgânicos sempre que possível e cozinhar com o que a região produz no momento. A estrela-guia, diz ela, é a humildade: “O que fazemos com o solo, fazemos conosco.”