Um novo relatório da empresa de pesquisa de mercado BW166 mostra que as vendas de vinho nos Estados Unidos superaram a marca de US$ 115 bilhões em 2025 (R$ 588 bilhões, segundo a cotação atual). O montante inclui todos os vinhos nacionais e importados.
“Os dados mais recentes, divulgados na semana passada, mostram que o gasto total calculado dos consumidores com vinho foi de US$ 115,33 bilhões (cerca de R$ 588,18 bilhões) em comparação com US$ 112,477 bilhões (R$ 573,63 bilhões) no ano passado”, afirmou Jon Moramarco em uma entrevista.
Moramarco é sócio-diretor da BW166 LLC, empresa que utiliza dados governamentais e tributários para elaborar este relatório anual. Com mais de 40 anos de experiência na indústria vinícola, incluindo passagens como CEO da Constellation International, Winebow e Allied Domecq Wines, Moramarco fundou a BW166 em 2009 para fornecer serviços de consultoria e dados ao setor.
Seu relatório mais recente mostra um aumento de 2,5% na receita de vinhos em 2025 em comparação com 2024. O índice reflete aumentos de receita semelhantes registrados em anos anteriores, conforme ilustrado no gráfico de vendas de vinhos nos EUA entre 2018 e 2025.
Ao mesmo tempo, os volumes de vendas de vinho seguiram na direção oposta, caindo de 370,7 milhões de caixas de 9 litros vendidas em 2024 para apenas 361,8 milhões de caixas em 2025. A variação representa um declínio de 2,4%.
Fatores para o aumento de receita e queda no volume
Moramarco esclarece que diversos fatores influenciam esses números. “Observamos quedas nos vinhos de preços mais baixos, enquanto os vinhos de preços mais elevados estão estáveis ou, em alguns casos, aumentando. Isso resulta em um preço médio por garrafa vendida mais alto, o que é um dos fatores que impactam a marca de US$ 115 bilhões”, explicou.
Um segundo fator é o crescimento contínuo dos vinhos de marca própria (private label), em oposição às marcas tradicionais de vinícolas. Esses vinhos são produzidos por uma vinícola, mas vendidos sob o rótulo de outra empresa, modelo que ganhou força em supermercados, restaurantes e grandes varejistas como a Costco, com sua marca de vinhos Kirkland.
“Ao analisar todos os dados, notamos um aumento nos vinhos de marca própria e de controle em relação às marcas tradicionais”, disse Moramarco. “Os varejistas em estabelecimentos de consumo fora do local costumam obter margens mais altas nesses vinhos do que nas marcas tradicionais”.
Moramarco também observou que grande parte do volume de marca própria não é capturada em dados de varredura sindicados de empresas como NIQ ou Circana, mas é reportada ao governo dos EUA. Por isso, a BW166 utiliza fontes de dados federais, incluindo o Bureau of Economic Analysis (BEA) para gastos de consumo e o Tax & Trade Bureau (TTB), que arrecada impostos sobre álcool.
Um terceiro fator é que restaurantes, bares e outros varejistas de consumo no local estão retendo margens sobre bebidas alcoólicas, o que eleva o gasto dos consumidores, mas não flui necessariamente de volta para produtores e importadores.
Em consequência, o gasto geral do consumidor com vinho está subindo, porém, esses ganhos não estão distribuídos de forma equilibrada na indústria. Muitas vinícolas e importadores não veem benefícios proporcionais, o que contribui para reduções de tamanho, fechamentos de empresas, vendas e falências.
A inflação crescente é o quarto fator que impacta não apenas os preços dos vinhos, mas também alimentos, bebidas e outros bens de consumo.
Pontos fortes e desafios do mercado de vinhos

Apesar dos declínios no volume de vendas nos últimos anos, os EUA ainda abrigam o maior mercado de vinhos do mundo em termos de volume e receita. O país é um alvo para a maioria dos grandes exportadores de vinho, com dados recentes indicando que os EUA importam cerca de 37% de seu vinho.
“A boa notícia é que os consumidores continuam a gastar um pouco mais ano após ano com vinho, mas ainda é um mercado difícil e competitivo”, afirmou Moramarco.
Mudanças demográficas também influenciam a queda no consumo. A geração Baby Boomer está envelhecendo e bebendo menos, enquanto os consumidores da Geração Z enfrentam uma gama crescente de opções de bebidas, desde drinques com infusão de THC até hard seltzers e alternativas alcoólicas mais recentes. Tendências mais amplas de saúde e bem-estar, junto com o uso de medicamentos GLP-1, reduzem ainda mais o consumo de álcool.
“A indústria do vinho precisa apelar aos estilos de vida e escolhas culinárias dos consumidores, e tornar os vinhos de preços mais baixos atraentes novamente”, declarou Moramarco.
Ao mesmo tempo, pelos últimos oito anos, a indústria vinícola dos EUA registrou crescimento na receita de vendas, sendo US$ 115,33 bilhões o maior montante alcançado até hoje.
Com a concorrência intensa no espaço de bebidas alcoólicas, a questão é por quanto tempo esse crescimento de receita continuará. Moramarco acredita que é possível, desde que as vinícolas se mantenham competitivas e evoluam conforme as necessidades dos consumidores.
“O setor de vinhos precisa conquistar participação de mercado de outras bebidas. Também precisa apelar para consumidores mais diversos e tornar os vinhos de menor preço interessantes novamente”, disse Moramarco.
Ele acredita que, embora os consumidores comprem vinhos a preços mais altos, muitas marcas respeitadas estão agora fora das possibilidades financeiras de consumidores mais jovens para o consumo regular e responsável.
“A indústria foi muito eficaz na premiumização nos últimos trinta anos, mas quando o preço médio de vinhos de marcas respeitadas é de US$ 3,00 (R$ 15,30) para uma taça no varejo, comparado a uma garrafa de cerveja por US$ 1,40 (R$ 7,14) em casa, o vinho pode estar além dos meios de alguns consumidores”, concluiu.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com