A gigante italiana de confeitaria Ferrero utiliza mais de 30.000 receitas todos os anos em produtos que incluem Nutella e chocolates Kinder, e essa complexidade pode dificultar mudanças. Então, após a alta dos preços do cacau em 2024, a Ferrero começou a trabalhar com a NotCo, uma empresa de tecnologia alimentar baseada em São Francisco, nos EUA, enquanto a startup demonstrava como seu software pode ajudar a reduzir a volatilidade e identificar ingredientes alternativos sem impactar sabor, textura ou características sensoriais.
“Se você muda uma coisa, muda todo o resto”, explica Matias Muchnick, fundador e CEO da NotCo. “Um problema computacional não é um problema linear.”
Chileno de 37 anos que vive entre São Francisco e Santiago, Muchnick se tornou o solucionador da indústria de alimentos. Usando uma plataforma de inteligência artificial que vem desenvolvendo desde 2015, fundada um dia antes da OpenAI, sua empresa cria alternativas vegetais para produtos normalmente feitos com leite e carne. Nos últimos quatro anos, por exemplo, a NotCo desenvolveu 30 novos produtos para a Kraft Heinz por meio de uma joint venture, incluindo Mac & Cheese, Kraft Singles e salsichas Oscar Mayer.
“Nos tornamos o Better Call Saul para todos os problemas mais complexos que as maiores marcas da indústria de alimentos têm”, afirma Muchnick.
Com apoio de Jeff Bezos, Roger Federer, Tiger Global, L Catterton, Kaszek Ventures e outros investidores, a NotCo é a maior empresa de IA no setor de alimentos. Seu negócio baseado em IA cresceu 300% no último ano, com receita anual estimada em US$ 75 milhões (R$ 375 milhões na cotação atual).
A empresa levantou mais de US$ 425 milhões (R$ 2,1 bilhões), o que lhe deu uma avaliação de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,5 bilhões). Muchnick projeta que não precisará captar recursos novamente por alguns anos, mas, se o fizer, a avaliação seria muito maior por causa do avanço da IA. Nas taxas atuais de mercado, com base na receita, a NotCo poderia ser avaliada em múltiplos bem acima de 20 vezes as vendas.
Muchnick continua sendo o maior acionista individual e mantém uma participação estimada de 20%, avaliada em pelo menos US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão).
O negócio da NotCo foi dividido em duas divisões formais há dois anos: uma lucrativa para o software empresarial de IA, com margem bruta estimada em 70%, e outra atualmente não lucrativa para sua linha própria de produtos alimentícios, incluindo leite e maionese veganos, que serve para demonstrar o que a IA da empresa é capaz de fazer.
A divisão voltada ao consumidor está próxima da lucratividade e cresce cerca de 30% ao ano, com 130 produtos diferentes. Seus produtos são vendidos principalmente em países da América Latina, incluindo Brasil, México, Chile e Argentina. Os clientes podem encontrar NotBurger, NotChicken Nuggets e NotChicken Burger em unidades do Burger King em sete países da região. Os produtos mais vendidos são o leite vegetal NotMilk, barras proteicas sem açúcar ou com alto teor de proteína e diversas alternativas à carne.
“É uma tempestade perfeita para grandes empresas de bens de consumo. As preferências dos consumidores estão mudando como nunca antes”, diz Muchnick.
“E há disrupções na cadeia de suprimentos, como cacau e suco de laranja, escassez de avelãs e muitos outros fatores. A dependência de ingredientes está realmente impactando as margens das grandes empresas.”
Nos últimos três anos, a maioria das empresas de alimentos teve desempenho inferior ao S&P 500, e Muchnick afirma que “muito disso tem a ver com a capacidade dessas grandes empresas de se adaptarem ao novo mundo em transformação”.
Segundo um relatório da consultoria holandesa Bright Green Partners, o mercado de IA no processamento de alimentos deve crescer de US$ 15 bilhões em 2025 (R$ 75 bilhões) para US$ 140 bilhões até 2034 (R$ 700 bilhões), à medida que conglomerados buscam alternativas sem origem animal e ingredientes mais baratos.
É aí que entra Giuseppe. Muchnick nomeou seu modelo de IA em homenagem ao pintor renascentista italiano do século 16, Giuseppe Arcimboldo, que criava retratos surrealistas de rostos humanos compostos por frutas, vegetais, flores e plantas, elementos que ninguém imaginava poderem ser combinados para gerar retratos tão realistas.
“Assim como o artista usava uma paleta de vegetais para reconstruir a aparência humana”, diz Muchnick, “a IA usa um enorme banco de dados molecular para reconstruir novos produtos com combinações inesperadas de ingredientes que ninguém imaginava que poderiam funcionar juntas.”
Giuseppe também acessa 10 anos de dados privados sobre consumidores e formulações, além de experiência e pesquisa científica, juntamente com bases de dados como as de conformidade regulatória, que nunca haviam sido analisadas com inteligência artificial. “É uma indústria que não quer compartilhar nada com ninguém. A vantagem competitiva está profundamente nos detalhes da formulação”, afirma Muchnick. “Trabalhando por dentro, eles têm as chaves, têm as ferramentas e podem operar sem nossa ajuda.”
“A única forma de fazer isso é mostrando o valor que você gera”, acrescenta Muchnick. “Para nós, trata-se de execução comercial.”
Muchnick cresceu em Santiago, sendo o filho do meio de três irmãos, com pai banqueiro e mãe fotógrafa. Após se formar na Universidade do Chile, tentou gamificar o bem-estar com um aplicativo patrocinado pelo governo chileno chamado Chooz. A startup incentivava hábitos saudáveis oferecendo prêmios reais quando os usuários atingiam metas de exercício, dieta ou meditação.
Quando o projeto terminou em 2012, Muchnick fundou a primeira empresa de alimentos vegetais do Chile, a Eggless. Após conquistar espaço em grandes redes varejistas chilenas, incluindo Walmart, Jumbo e Unimarc, sua maionese sem ovos se tornou a alternativa mais vendida no país em dezembro de 2014. Muchnick vendeu a empresa no ano seguinte em uma operação pequena, que lhe rendeu recursos que ele afirma terem sido “vitais, fornecendo o capital inicial” necessário para lançar a NotCo.
A ideia da NotCo surgiu de sua experiência na Eggless. Ao frequentar laboratórios de ciência de alimentos com clientes, Muchnick percebeu que “estávamos indo em direção a um beco sem saída”. Ao buscar ingredientes alternativos, percebeu que equilibrar custo, experiência sensorial, nutrição, viabilidade industrial e conformidade entre trilhões de combinações “simplesmente não pode ser feito apenas com intuição humana”. Muchnick começou com cerca de US$ 250.000 (R$ 1,25 milhão). Nos primeiros dois anos, financiou o negócio por conta própria.
“A formulação de alimentos é uma das disciplinas intelectualmente mais exigentes da ciência aplicada”, afirma Muchnick, comparando a complexidade a jogar xadrez vendado. “Existe uma parábola na ciência cognitiva sobre grandes mestres de xadrez. Um grande mestre jogando vendado é uma das demonstrações mais impressionantes da cognição humana já observadas, mantendo estados completos do tabuleiro na memória e calculando sequências profundas sem ver nenhuma peça. É algo extraordinário. É bonito. E é exatamente a forma errada de jogar xadrez em um mundo onde o adversário tem o programa Stockfish. A indústria de bens de consumo em 2015, e na maioria dos casos em 2026, era uma sala cheia de grandes mestres vendados. Talento extraordinário. Ferramentas erradas.”
Então Muchnick se mudou para Nova York para construir as ferramentas certas. No início, focou na marca de supermercado da NotCo, com maioneses, leites e outros produtos veganos, todos formulados com a plataforma de IA que ele desenvolvia simultaneamente. “Os dados do consumidor estavam completamente desconectados da formulação”, relembra.
Muchnick conseguiu seu primeiro grande investidor em 2018, quando a Kaszek Ventures, do Brasil, liderou uma rodada de US$ 3 milhões (R$ 15 milhões).
Depois disso, os aportes aumentaram rapidamente. Em 2019, levantou US$ 30 milhões (R$ 150 milhões) na rodada série B, incluindo investimentos da The Craftory e Bezos Expeditions. No ano seguinte, durante a pandemia, captou US$ 85 milhões (R$ 425 milhões), com mais recursos de Bezos e novos investidores com histórico no setor de alimentos, incluindo a L Catterton.
Com uma mentalidade de formação de caixa dominando o setor de proteínas alternativas, a NotCo competia nas prateleiras com marcas como Oatly, Impossible Foods e Beyond Meat, e Muchnick continuou captando. Em 2021, garantiu mais dois aportes: um de US$ 10 milhões (R$ 50 milhões) da Enlightened Hospitality, afiliada ao Union Square Hospitality Group de Danny Meyer, e outro da série D de US$ 235 milhões (R$ 1,175 bilhão). Foi nessa rodada que a avaliação da NotCo ultrapassou US$ 1 bilhão pela primeira vez, liderada pela Tiger Global Management.
“Precisávamos continuar desenvolvendo nossa IA e não investir todo o dinheiro na marca de consumo”, relembra.
Além da capacidade de captar recursos, a principal conquista de Muchnick é que seu modelo de IA agora permite que alimentos sejam formulados inteiramente por um computador pela primeira vez, o que representa “uma mudança de paradigma” que “define uma nova categoria”, segundo Jonathan Levav, professor da Stanford Business School e conselheiro de Muchnick desde os primeiros dias da empresa.
Atualmente, a NotCo possui 31 patentes, incluindo 13 relacionadas à sua tecnologia de IA nos Estados Unidos. Mas sua principal vantagem competitiva está no avanço do modelo Giuseppe em relação a novos concorrentes e nos anos de dados já acumulados por meio de clientes privados e pesquisas internas.
O próximo passo é aplicar esses dados em mais grandes empresas de alimentos, a NotCo já trabalha com sete das 20 maiores do mundo, além de expandir o que faz com clientes atuais.
“Construímos modelos capazes de criar conexões entre áreas completamente desconectadas nos fluxos de trabalho fundamentais, da inovação ao marketing, às vendas e à cadeia de suprimentos”, diz Muchnick. “Este é um sistema operacional que pode centralizar a maioria das decisões tomadas.”