18/06/2026

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O Choque de 2,9 Gigawatts Que Pode Redefinir o Agro Baiano

“Hoje, o que é muito comum se ver por aqui: o produtor tem a outorga governamental, a gente tem a terra e tem o crédito. A única coisa que a gente não tem hoje é energia.”

Quando Cristina Gross diz isso, ela não está falando de um projeto isolado. A produtora rural e diretora financeira da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) está descrevendo uma realidade que se repete em uma das regiões agrícolas que mais cresceram no Brasil nas últimas décadas.

No Oeste da Bahia, a conta que passou a preocupar produtores, empresas e investidores não está relacionada ao preço da soja, do algodão ou do milho. O desafio agora é outro: garantir energia suficiente para sustentar o próximo ciclo de expansão da região.

O tema ganhou força durante a Bahia Farm Show, realizada entre os dias 8 e 12 junho, em Luís Eduardo Magalhães. Na feira, a Aiba apresentou um estudo que procura dimensionar uma demanda que cresce ano após ano.

O levantamento aponta a necessidade de 1,8 gigawatt adicional para a expansão da agricultura irrigada. Quando entram na conta agroindústrias, armazenagem, processamento e outros segmentos produtivos, o número sobe para 2,9 gigawatts.

Os números ainda não representam obras contratadas nem investimentos assegurados. Eles servem como base para o planejamento energético regional e foram encaminhados à Empresa de Pesquisa Energética (EPE), responsável pelos estudos que orientam a expansão da infraestrutura elétrica nacional.

Para entender melhor esta nova jornada para a agropecuária baiana, a Forbes Agro, também ouviu Fabiana Lopes, diretora-presidente da Neoenergia Coelba e Cláudio Candido Lima, CEO da Lindsay no Brasil e vice-presidente de Irrigação da companhia para a América Latina, que estavam presentes na feira.

O que está em jogo é a capacidade de uma das regiões mais produtivas do país continuar crescendo. Depois de décadas transformando solo, genética, máquinas e tecnologia em produtividade, o Oeste da Bahia se depara com um novo desafio: garantir que a energia acompanhe a velocidade do agronegócio.

Se isso acontecer, os 2,9 gigawatts apontados pelo estudo poderão representar muito mais do que eletricidade. Poderão definir o tamanho do próximo capítulo da agricultura baiana.

Uma potência que continua crescendo

Divulgação/LindsayPivô central de irrigação em área de cultivo de grãos

Para quem acompanha o avanço do Oeste baiano, a preocupação faz sentido.

A região ajudou a transformar a Bahia em uma das maiores potências agropecuárias do país. O estado deve superar 14 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26.

A soja responde por mais de 9,5 milhões de toneladas, enquanto algodão, com 2 milhões de toneladas, e milho, 3,7 milhões de toneladas, colocam os produtores baianos entre os principais protagonistas do agronegócio nacional.

O valor da produção agropecuária do Estado é de R$ 57,3 bilhões, o oitavo maior entre as unidades da federação do país. Mas o crescimento da produção não aconteceu por acaso.

Ao longo dos anos, os produtores investiram em correção de solo, tecnologia embarcada, sementes, defensivos, mecanização e sistemas de manejo que elevaram a produtividade a patamares acima da média brasileira.

“Na soja, por exemplo, enquanto a média nacional ficou entre 60 e 62 sacas por hectare, nós conseguimos 71 sacas por hectare”, afirma Cristina.

A dirigente da Aiba, no entanto, acredita que existe um novo salto possível. E ele passa pela irrigação.

“Enquanto a minha média geral no sequeiro foi de 70 sacas por hectare, minha média geral no irrigado foi de 95 sacas por hectare.”

A diferença ajuda a explicar por que a irrigação se tornou um dos principais vetores de crescimento da região.

Hoje, o Oeste baiano concentra mais de 330 mil hectares irrigados e responde por cerca de 82% da área irrigada do estado. A região se consolidou como o maior polo de irrigação do Brasil, apoiada pela combinação entre disponibilidade hídrica, relevo favorável à mecanização e adoção crescente de tecnologia no campo.

Mesmo assim, o potencial está longe de ser totalmente explorado.

Quando a energia vira gargalo

Divulgação/NeoenergiaFabiana Lopes, diretora-presidente da Neoenergia Coelba

“O que está travando o desenvolvimento da região hoje é a energia”, afirma Cristina. “Eu tenho indústrias, tenho fazendas irrigadas, tenho coisas que precisam crescer, mas já tivemos investimentos deixados de lado por falta de energia.”

A avaliação é compartilhada pela Neoenergia Coelba, empresa responsável pela distribuição de energia elétrica em praticamente todo o estado da Bahia, e é subsidiária do grupo Neoenergia e do grupo espanhol Iberdrola.

Durante a Bahia Farm Show, a concessionária anunciou um plano de R$ 25 bilhões em investimentos na Bahia até 2030. Desse total, R$ 3,2 bilhões serão direcionados ao Oeste baiano.

“Anunciamos R$ 25 bilhões de investimentos até 2030. Vale lembrar que é uma continuidade dos investimentos de R$ 13 bilhões anunciados há três anos”, afirma Fabiana Lopes, diretora-presidente da Neoenergia Coelba.

Segundo a executiva, o plano inclui a construção de novas subestações, ampliação de estruturas já existentes e reforço da rede elétrica regional.

Mas existe uma etapa anterior.

“A energia que é gerada não é carimbada. Nós precisamos de capilaridade de transmissão para que a energia gerada em qualquer lugar do país possa circular e atender às demandas de cada uma das regiões”, explica.

“Isso aí simplesmente vai criar várias subestações novas e ampliar outras, o que vai melhorar a nossa quantidade e qualidade de energia”, diz Cristina. “No entanto, isso é insuficiente”.

É justamente nesse ponto que o estudo apresentado pela Aiba ganha relevância. A expectativa do setor é que os dados sirvam de base para futuras expansões da infraestrutura de transmissão e para novos pontos de suprimento na região.

“Se o estudo passar, for para o Ministério de Minas e Energia e for leiloado, nós vamos ter pontos de transmissão que vão poder atingir essa demanda energética que hoje está deficitária para a irrigação e para a agroindústria”, diz a produtora rural.

A irrigação como seguro de produtividade

Divulgação/LindsayCláudio Candido Lima: “O Brasil tem hoje irrigado em torno de 8% da área agricultável, e é muito pouco”

Do outro lado da cadeia, quem fornece tecnologia para irrigação acompanha esse movimento de perto.

Para Cláudio Candido Lima, vice-presidente de Irrigação da Lindsay para a América Latina e CEO da companhia no Brasil, o país ainda está distante de atingir seu potencial.

“O Brasil tem hoje irrigado em torno de 8% da área agricultável, e é muito pouco. Há em torno de 35 mil pivôs instalados no país. Então, nós temos uma capacidade de crescimento muito grande.”

Para ele, a irrigação deixou de ser apenas uma ferramenta para aumentar produtividade. A soja irrigada, por exemplo, pode ter aumento de produção de 40% a 50%, o milho pode chegar a 130% de aumento de produtividade. Desta forma, a irrigação tornou-se uma estratégia para reduzir riscos em um cenário de maior instabilidade climática.

“A irrigação faz uma coisa: ela tira a incerteza do produtor se vai chover ou não vai chover. O que os produtores têm falado é que a irrigação é uma espécie de seguro de que vai ter a colheita.”

A Lindsay em todo o mundo faturou US$ 568 milhões em 2025 na área da irrigação, 11% a mais que 2024. Apenas na parte da irrigação internacional (sem os EUA), a empresa cresceu 39% e faturou US$ 294,2 milhões.

Ou seja, boa parte do crescimento da empresa se deveu ao crescimento internacional, especialmente por causa do Brasil, que é o principal país de atuação da empresa fora dos Estados Unidos.

Mas para conquistar este mercado, o executivo analisa os desafios de infraestrutura energética, além do peso e relevância da região. “O Oeste baiano, para a gente, é fundamental. O Brasil inteiro é importante, mas o Oeste baiano é uma região que olhamos muito de perto.”

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