O agronegócio brasileiro enfrenta um dos momentos mais desafiadores das últimas décadas. Depois de um ciclo positivo entre 2020 e 2022, impulsionado por dólar elevado e commodities agrícolas em alta, o setor agora opera em um ambiente estruturalmente desafiador.
Taxas de juros elevadas, crédito mais restrito, desaceleração global, queda de preços das commodities e pressão nos custos de produção colocam empresas e produtores à prova.
O novo cenário macroeconômico
O ambiente macroeconômico deixou de ser um aliado. A combinação de dólar mais fraco, preços internacionais de grãos em queda e taxas de juros elevadas reduz a rentabilidade das operações.
Ao mesmo tempo, fatores geopolíticos continuam pressionando os custos. As tensões no Oriente Médio e os riscos sobre importantes rotas comerciais elevam o custo de insumos essenciais, como fertilizantes.
Os mais afetados são justamente aqueles que cresceram de forma mais agressiva durante os anos de bonança.
Produtores e empresas que se alavancaram excessivamente, arrendaram terras a preços elevados, adquiriram propriedades em valores recordes ou aceleraram investimentos sem a devida disciplina financeira sentem agora o peso de um ambiente menos favorável.
O reflexo financeiro e a pressão nas margens
Essa realidade já aparece nos números do sistema financeiro. Um dos principais sinais de alerta é o aumento da inadimplência no crédito rural. Instituições financeiras com forte exposição ao agronegócio vêm reportando crescimento relevante dos atrasos, reflexo direto da compressão das margens no campo.
E margem é justamente a palavra que define o desafio atual. Embora o agronegócio tenha alcançado participação recorde na economia brasileira, representando cerca de um quarto do PIB, quase um terço das ocupações do país e aproximadamente metade das exportações brasileiras, a realidade dentro da porteira é outra.
A soja, principal cultura do país, opera hoje com uma das menores margens da série histórica para o produtor rural.
O perigo dos cortes estratégicos
Neste contexto, muitas empresas recorrem imediatamente à redução de investimentos. Mas esse pode ser um erro estratégico.
Cortar gastos que impactam diretamente a produtividade, como manejo de solo, fertilidade, tecnologia agronômica ou práticas que sustentam a produção no longo prazo, pode comprometer os resultados dos próximos anos, dificultando ainda mais o pagamento de dívidas contraídas a juros elevados.
A resposta mais inteligente está em outro lugar: no ganho de eficiência.
O momento atual não representa uma ruptura do agronegócio brasileiro. Trata-se muito mais de um período de consolidação após uma fase de expansão acelerada.
O agro brasileiro vive uma transição importante. Se nos últimos anos o desafio era crescer, agora o desafio é rentabilizar o crescimento conquistado.
Caminhos para a rentabilidade
Há espaço para melhorar a rentabilidade por meio da reestruturação administrativa, da revisão de despesas comerciais, da racionalização de processos, da profissionalização da governança e do uso mais inteligente dos dados para a tomada de decisão.
Historicamente, períodos de crise costumam abrir espaço para a aquisição de ativos a preços mais atrativos, consolidação de mercados e ganho de participação pelos agentes mais preparados.
O cenário é heterogêneo: haverá produtores crescendo, outros pouco afetados e alguns enfrentando dificuldades relevantes. Mas, sem dúvida, a diferença entre eles estará fortemente relacionada à qualidade da gestão e da disciplina financeira.
Fundamentos de longo prazo e maturidade
O Brasil continua reunindo vantagens competitivas extraordinárias no agronegócio. A demanda global por alimentos segue crescente, o país possui disponibilidade de terras, clima favorável e capacidade produtiva reconhecida mundialmente.
Os desafios estruturais existem, dependência de fertilizantes importados, baixa irrigação e gargalos logísticos ainda retiram competitividade do setor, mas não alteram os fundamentos positivos de longo prazo.
O que muda é que o novo ciclo exigirá mais gestão do que expansão. Depois de anos em que o mercado premiava o crescimento, com fortes ganhos de escala, entramos em uma fase em que serão premiadas a eficiência, a disciplina financeira e a capacidade de gerar resultado com os recursos já disponíveis.
O agro brasileiro não está diante de uma crise de produção. Está diante de uma prova de profissionalização da gestão e de maturidade empresarial. E aqueles que entenderem isso primeiro serão os que sairão mais fortes quando o próximo ciclo de crescimento chegar.
*Luiza Fatorelli é graduada em International Business, Finance and Economics pela University of Manchester e mestre em Agronegócio pela FGV, Embrapa e USP. Atua há 10 anos à frente das operações da Fazenda SJ Margarida, em Bela Vista (MS).
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