Para quem circula no agro, Armac pode até ser um nome desconhecido. Mas o mesmo não ocorre do lado de lá. A empresa que fez IPO na B3 em 2021 e hoje fatura R$ 2 bilhões por ano está de olho no setor que já tem 30% de seus negócios movidos pelo agro. O que ela faz? Aluga equipamentos. Até cinco anos atrás, o agro era irrisório para a empresa criada em 1994 para serviços de terraplanagem.
O cenário mudou com velocidade. No intervalo de um ano, entre a Agrishow de 2024 e a edição de 2025, a receita gerada pelo agronegócio cresceu 28%. A frota atual, a maior do Brasil segundo a própria companhia, conta com 12 mil ativos, dos quais 3.600, o que significa os 30% da frota, estão alocados ao agro. Mais da metade, estima Mairon Karr, head de Negócios e Operações da Armac, é aplicável às diversas etapas da cadeia agropecuária, das fazendas aos portos.
Karr tem 34 anos, está há três anos e meio na Armac e carrega na bagagem 14 anos na John Deere. É ele quem conduz a estratégia de aproximação com o campo. Antes disso, a Armac já tinha presença relevante em mineração, construção civil e infraestrutura, com clientes como Andrade Gutierrez, VLI, Hidrovias do Brasil, Vale, entre outras.
O Brasil reúne cerca de 50 mil empresas de locação, das quais 60% atuam na construção civil. De acordo um estudo de março deste ano, o Rental Market Report, feito pela KPMG em parceria com a Associação Brasileira dos Sindicatos e Associações Representantes dos Locadores de Equipamentos, Máquinas e Ferramentas (Analoc) e a Associação Brasileira de Tecnologia e Gestão de Equipamentos (Sobratema), esse mercado brasileiro deve alcançar R$ 52,9 bilhões em 2026, crescimento de 7% em relação a 2025, quando atingiu R$ 49,4 bilhões. Nos últimos cinco anos, o setor cresceu na média de 10% ao ano.
No caso da Armac, o agro foi chegando por osmose: quem aluga uma escavadeira para obra de estrada percebe rápido que o produtor também precisa de motoniveladoras para manutenção de carreadores, de pás carregadeiras para movimentar grãos nos armazéns, de caminhões e empilhadeiras dentro das agroindústrias. “Estamos presentes nos produtores, ou seja, dentro das fazendas, nas usinas, sejam elas de cana ou de etanol de milho, nas agroindústrias, em toda a cadeia logística, dos terminais ferroviários e rodoviários até os portos que fazem o escoamento da produção e, na via contrária, recebem insumos e fertilizantes”, diz Karr.
Linha amarela no campo
O portfólio da Armac não inclui colheitadeiras nem pulverizadores. A frota é composta majoritariamente por máquinas de apoio, o que o setor chama de linha amarela: motoniveladoras, escavadeiras hidráulicas, retroescavadeiras, pás carregadeiras, caminhões e empilhadeiras.
Dentro das fazendas, essas máquinas trabalham na manutenção de acessos agrícolas, abertura de carreadores, sistematização e preparo do solo. Nas agroindústrias, fazem toda a movimentação de grãos, biomassa, insumos e coprodutos. Nos terminais e portos, integram a logística de exportação e importação.
É uma fatia do agronegócio que costuma ficar fora do noticiário, mas que sustenta boa parte da operação. Uma usina de etanol parada por falta de pá carregadeira ou um armazém com gargalo na movimentação de grãos tem impacto direto nos resultados.
“A todo momento, até na época de vacas gordas, a alocação se mostra como uma via de aumento de eficiência operacional para todo e qualquer tipo de empresa. E no agronegócio não é diferente”, afirma Karr.
O modelo que a crise ajudou a explicar
A lógica do aluguel de máquinas não é nova no Brasil. Em mineração e construção civil já é uma realidade consolidada. No agro, o avanço tardio tem explicação histórica: por anos, faltaram empresas com capilaridade e músculo financeiro para manter uma frota ampla e distribuída no território nacional. A Armac foi construindo esse posicionamento, especialmente após o IPO de 2021, quando o crescimento ganhou velocidade.
O juro alto e a pressão sobre o custo operacional que marcaram os últimos anos trouxeram um acelerador não planejado. Comprar um equipamento de linha amarela exige capital elevado, compromete o balanço e gera um passivo de manutenção imprevisível.
“A empresa não se descapitaliza, não se endivida”, afirma Karr. No contrato de locação, a responsabilidade pela manutenção e pela disponibilidade do equipamento é da locadora. Se a máquina quebra, o problema é da Armac, não do produtor.
Há ainda um benefício que os produtores maiores, mais profissionalizados, aprenderam a contabilizar: a recuperação de tributos. O aluguel de equipamentos permite aproveitamento fiscal que a compra própria não garante. Somam-se a isso a previsibilidade de custos mensais e a possibilidade de renovar a frota sem carregar equipamento obsoleto até a exaustão. “Clientes que tomam a decisão de mudar a estratégia de propriedade de máquinas e equipamentos para alocação geralmente não voltam”, diz Karr.
Grandes primeiro, médios e pequenos no horizonte
O perfil atual dos clientes da Armac no agro é, predominantemente, o de grandes empresas. Grupos com frotas próprias extensas, como Mosaic, Yara Fertilizantes, Louis Dreyfus Commodities, Citrosuco e Usina Santa Adélia, já entendem a locação como parte da gestão de ativos. Empresas nesse porte conseguem mapear todos os benefícios, do custo financeiro à eficiência operacional.
Os produtores médios e pequenos ainda chegam mais devagar. “Clientes menores, muitas vezes menos profissionalizados, não conseguem vislumbrar todos os benefícios que a locação traz”, reconhece Karr.
O obstáculo não é técnico, é de percepção. Quando o produtor compara o gasto mensal do contrato de locação com a parcela do financiamento da máquina própria, sem contabilizar manutenção, seguro, depreciação e o custo do tempo parado, a conta parece desvantajosa. “Ao primeiro olhar, parece que a alocação não vale a pena. Mas quando o cliente consegue enxergar todos os benefícios, do início ao fim, aí sim a alocação se torna vantajosa”, afirma ele.
A Armac trabalha com modelos de contrato variados para atender diferentes perfis. Nos acordos de longo prazo, de dois a quatro anos, a locadora entrega a máquina com equipe de manutenção dedicada. Há ainda contratos com operadores incluídos: a Armac fornece o equipamento e o profissional que o opera. Para demandas sazonais, existem contratos de curto e médio prazo, nos quais o cliente retira a máquina para o período de safra e a devolve na entressafra.
A remuneração pode ser por valor fixo mensal ou, em alguns contratos de maior complexidade, por KPIs de produtividade: o pagamento é calculado conforme o número de toneladas movimentadas no mês. Uma escavadeira, por exemplo, é locada com franquia de 200 horas mensais. O modelo lembra o aluguel de um veículo: o cliente paga pelo uso, a locadora cuida do ativo.
A distância que impede e o antídoto
Mas umm gargalo real do modelo é o frete. Transportar uma máquina de linha amarela em território nacional é caro, logisticamente complexo e sujeito às limitações da malha rodoviária brasileira. Para contratos longos, de dois anos ou mais, o custo do frete no início e no fim do contrato se dilui no tempo e perde relevância. Para contratos de 15 dias ou um mês, deslocar a máquina centenas de quilômetros pode inviabilizar economicamente a operação para os dois lados.
A resposta da Armac é territorial para estar mais próximo dos polos de demanda. Hoje a empresa opera 18 lojas distribuídas pelo Brasil, em cidades como Ribeirão Preto (SP), Uberlândia (MG), Campo Grande (MS), Cuiabá (MT), Feira de Santana (BA) e Cravinhos (SP). Até o final de 2026, a meta é chegar a 30 unidades.
As novas lojas planejadas apontam para polos agrícolas e industriais: Cascavel (PR), São José do Rio Preto (SP), Presidente Prudente (SP), Lucas do Rio Verde (MT) e Rio Verde (GO), no recorte do agronegócio, além de cidades com perfil mais industrial ou de mineração, como São José dos Campos (SP) e Parauapebas (PA).
“A expansão não é apenas para cidades com base agrícola. A gente acompanha todos os setores. Mas o agro não fica de lado”, diz Karr.
Por exemplo, com estoque de máquinas em Lucas do Rio Verde ou em Rio Verde, um produtor local pode contratar uma locação de 15 dias ou um mês sem que o frete comprometa a equação. A proximidade, na prática, é o que abre o mercado de médios e pequenos produtores para a locação.
Para quem ainda associa o aluguel de máquinas a uma solução de emergência ou a um recurso de mercados mais desenvolvidos, o recado de Karr é o seguinte: o modelo não é produto da crise. Segundo o executivo, a crise apenas acelerou a percepção de algo que já fazia sentido antes.
“Quando a gente chega num momento como esse no agronegócio, de juro alto, escassez de crédito e pressão nos custos operacionais, a alocação começa a ganhar mais destaque pelos benefícios que ela traz.” Os benefícios, no entanto, existiam antes do juro subir e, segundo ele, vão continuar existindo quando o ciclo mudar.