Casos surgiram dez dias após a aplicação da vacina contra clostridiose; laboratório Dechra disse que recolheu o imunizante;
Mais de 500 animais, entre bovinos, ovinos e caprinos, podem ter morrido após terem sido imunizados contra clostridiose no mês passado, no Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Maranhão e Ceará. Todos receberam a vacina Excell 10, do laboratório Dechra Brasil. As informações são do secretário de Desenvolvimento Rural de Simões (PI), Rosenalvo Coelho dos Reis. Desde o mês passado, o município registrou mais de 150 mortes.
Nessa quarta-feira, 20, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) suspendeu o uso e a comercialização dos lotes 016/2024 e 018/2024, conforme ofício enviado pela pasta aos estados. A Dechra Brasil afirmou, por meio de nota enviada nesta quinta-feira, 21, que tomou conhecimento de relatos de reações adversas, principalmente em cabras, ovelhas e bovinos, após a administração da vacina Excell 10, que suspendeu as vendas e que recolheu os produtos existentes dos lotes mencionados — acatando a decisão do Mapa.
Uma investigação dos casos foi iniciada, a fim de identificar a causa dos óbitos e se há relação com a aplicação do imunizante. “As equipes técnicas e de qualidade da Dechra estão a investigar ativamente a situação em estreita colaboração com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Embora as reações adversas possam estar associadas à administração da vacina, a causa exata ainda está a ser determinada”, informou a empresa.
Porém em nota emitida na noite dessa quinta-feira, 21, o Ministério da Agricultura explica que a primeira notificação de casos adversos à vacina foi feita pela Agência de Defesa Agropecuária do estado do Piauí (ADAPI) em 12 de agosto. No dia seguinte, segundo a nota, foi aberta uma investigação e, no dia 15 de agosto, “emitida ordem de apreensão cautelar das frações dos lotes 016/2024 e 018/2024 da vacina EXCELL 10 na distribuidora que comercializou as unidades da vacina associadas à notificação da ADAPI”. O Mapa ainda reitera que, na mesma data, a empresa encaminhou comunicado aos distribuidores e lojistas de todo país para que fossem interrompidas as vendas dos lotes.
Até o momento, segundo a mesma nota, o MAPA diz ter recebido a notificação de óbitos de 194 ovinos, 4 caprinos e 1 bovino. Também informa que as ações de fiscalização e investigação estão em curso e que a conclusão do processo se dará em 60 dias.
Ao Agro Estadão, o secretário de Desenvolvimento Rural de Simões explicou que os relatos de óbitos estão sendo reunidos — como no caso Nutratta — em um grupo de WhatsApp. “No Brasil, passa de 500 animais. Essa base, a gente tem um grupo de criadores que tiveram perdas. À medida que vão surgindo criadores, a gente vai adicionando a esse grupo”, explica.
De acordo com o secretário piauiense, as agências estaduais de defesa agropecuária estão apoiando a investigação, fazendo necropsias e coleta de materiais, como sangue e tecidos dos animais mortos, para análise. “A gente está enviando para a Universidade Federal do Piauí, para a Universidade Estadual do Ceará, e também enviamos algumas amostras para São Paulo”, conta.
Casos surgiram dez dias após imunização
Os relatos de mortes começaram cerca de dez dias após as aplicações. Um dos principais sinais, anteriores às mortes, foi o inchaço no local. “Quando começou a mortalidade, os criadores até pensavam que tinha sido outra coisa, abelhas… Mas, quando veio o óbito de mais de dois, três animais com os mesmos sintomas, aí foi que a gente começou a investigar”, disse o secretário de Simões.
Segundo Reis, a taxa de mortalidade observada é de quase 100%. “Numa faixa de 100 animais, eu diria que 1% conseguiu escapar. Quando aparece um inchaço, dá algum infarto nos animais, eles perdem os rins, aí não tem como salvar”.
No município, a maioria dos produtores são agricultores familiares. Um deles perdeu 18 dos 35 animais do rebanho. “Tem criador até chorando, se lamentando por conta dessas perdas, porque eles usam esses animais para fazer o sustento familiar, seja para vender, para comprar os seus alimentos ou até mesmo para a alimentação durante a semana da família. Então, é muito triste ver essa situação”, lamenta o secretário.
Para apoiar os produtores rurais, o governo municipal está prestando apoio veterinário e assistência psicológica. O gestor informou ainda que a secretaria pretende oferecer assessoria jurídica aos pecuaristas interessados após a conclusão da análise dos materiais coletados.
Um deles é José de Brito Júnior. O pequeno produtor rural perdeu 11 das 33 ovelhas que vacinou com o lote nº 016/2024 — quatro delas eram matrizes. Um prejuízo estimado em seis mil reais só com os animais, sem contabilizar despesas veterinárias. Apenas cinco ovelhas do rebanho não foram imunizadas com a Excell 10. A criação de caprinos é o ganha-pão da família. “Depois da seca, agora vem essa vacina. Eu plantei quase 50 tarefas de milho e perdi tudo por causa da seca. Mais esse prejuízo”, lamenta.
Criadores vizinhos utilizaram o mesmo produto, porém de lotes diferentes, e não tiveram problemas. Mas muitos outros tiveram perdas e os relatos sobre a doença prejudicam o comércio de maneira geral. “As pessoas aqui estão apreensivas, ficam com medo, né? A gente tá consumindo a carne porque o povo tem receio de comprar, essas coisas. O comércio não está querendo comprar”.
O criador aguarda os resultados das amostras colhidas pela Agência de Defesa Agropecuária para ter a confirmação sobre a causa das mortes, mas acredita que a vacina, de fato, seja a responsável. E espera, minimamente, um ressarcimento financeiro. “Eu compro ração, gasto muito dinheiro com meus animais, pra ver eles com um peso bom. É muito triste também ver eles sofrendo”.
Fonte: https://agro.estadao.com.br/pecuaria/ministerio-da-agricultura-suspende-vacina-apos-morte-de-centenas-animais-em-cinco-estados