Às vésperas da COP30 em Belém, o estado aposta em rastreabilidade e coalizões com frigoríficos e produtores para transformar a pecuária em vitrine de sustentabilidade no evento global
A expansão da pecuária na Amazônia sempre esteve no centro das discussões sobre desenvolvimento e preservação. Hoje, em meio a pressões internacionais e compromissos assumidos por governos e empresas, o debate ganha uma nova dimensão: a transformação da atividade em símbolo de sustentabilidade. Mas esse caminho não é simples. Envolve disputas territoriais, modelos de ocupação e o desafio de incorporar milhares de produtores em uma cadeia ainda marcada por contradições. O Pará possui 110 mil propriedades pecuárias, com 26,7 milhões de bovinos, o maior rebanho da região. É o segundo do país, atrás de Mato Grosso com 34 milhões de animais.
Para o titular da Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas), Raul Protázio, compreender a dinâmica que sustenta o desmatamento é essencial para reposicionar o setor.
“O desmatamento em larga escala na Amazônia é um business imobiliário”, diz ele.
“Ninguém (pelo custo) abre dois mil hectares pensando em produzir carne. O gado entra pela sua rusticidade, para ocupar o território e marcar a posse. O objetivo real é valorizar a terra e revendê-la. O boi é apenas sentinela dessa lógica”, afirma. Segudo Protázio, tudo começa por desmontar o “business imobiliário” que alimenta a grilagem de terras e valoriza a floresta derrubada.
Entre agosto de 2024 e julho de 2025, foram identificados 1.325 km² de áreas sob alerta, resultado que representa queda de 21% em comparação com os 1.681 km² registrados no ciclo anterior, sendo este o menor volume de alertas de desmatamento em dez anos, de acordo com o sistema Deter, do Inpe, em levantamento da Semas. Mesmo assim, essa área corresponde a aproximadamente quase toda a cidade de São Paulo (que tem 1.521 km²).
A fala de Protázio sobre os motivos do desmatamento no Estado desloca o foco do debate. A pecuária não é a causa direta da devastação, mas entra como beneficiária de um sistema de apropriação ilegal de terras públicas. “Quando dizemos que a pecuária causa desmatamento, estamos sendo injustos. O problema não é o produtor que investe em tecnologia e produtividade. O problema é um modelo que trata a floresta como especulação. Se não mudarmos essa lógica, qualquer iniciativa de sustentabilidade terá alcance limitado”, diz.
Às vésperas da COP30, que será realizada em Belém em 2025, o Pará tenta consolidar um novo capítulo na relação entre pecuária e meio ambiente. O estado, historicamente associado a altas taxas de desmatamento, assumiu a dianteira com medidas pioneiras para transformar sua imagem e atrair investimentos para uma economia mais limpa. Entre elas está o Programa de Pecuária Sustentável do Pará, que prevê a rastreabilidade individual obrigatória de todo o rebanho bovino estadual. A proposta é inédita em escala mundial para pecuária extensiva. Cada animal terá sua origem vinculada a uma propriedade cadastrada, impedindo que bois de áreas ilegais cheguem ao mercado.
O estado também inovou ao ser o primeiro a vincular o Cadastro Ambiental Rural (CAR) à Guia de Trânsito Animal (GTA). A medida impede que fazendas sem regularização ambiental movimentem animais, fortalecendo o controle da cadeia e dificultando a entrada de gado de áreas desmatadas ilegalmente. Outro exemplo é o programa de requalificação de produtores. Em vez de excluir definitivamente aqueles que apresentam irregularidades, a estratégia é incluí-los em processos de adequação, garantindo assistência técnica e abertura para a legalidade. “Não podemos tratar o pecuarista como vilão. Ele precisa estar no centro da solução, porque é quem de fato implementa as mudanças na propriedade”, afirma.
Mas, segundo o secretário, essas ações não se sustentam sem o engajamento de outros atores. O governo estadual cobra a participação de frigoríficos, bancos, varejo e sociedade civil em uma coalizão ampla, capaz de dar escala às iniciativas. O exemplo da China, que ao exigir animais abatidos com menos de 36 meses provocou rápida transformação na pecuária paraense, é usado por Protázio para mostrar que pressões de mercado têm o poder de induzir mudanças estruturais.