O agronegócio em Mato Grosso enfrenta um período de forte insegurança financeira e operacional. Segundo Ilson José Redivo, presidente do Sindicato Rural de Sinop, a combinação de preços baixos das commodities com a alta nos custos de insumos e maquinários fez com que a conta do produtor parasse de fechar. O cenário compromete diretamente a capacidade de investimento nas propriedades no estado.
A disparidade econômica é visível no poder de compra do agricultor. Redivo aponta que, enquanto em anos anteriores eram necessárias 25 mil sacas de soja para adquirir determinada máquina, hoje o produtor precisa desembolsar 35 mil sacas pelo mesmo equipamento. Esse achatamento da renda é agravado por fatores externos, como conflitos geopolíticos que encarecem fertilizantes e combustíveis.
Somado ao desafio financeiro, o setor convive com o que o presidente classifica como “problemas eternos”: a falta de infraestrutura para o escoamento da produção e a insuficiência de armazéns. Atualmente, Mato Grosso possui capacidade para estocar pouco mais da metade de sua produção de grãos, o que torna o escoamento imediato uma questão de sobrevivência, mas que esbarra em fretes elevados.
Para o líder sindical, a estagnação de projetos vitais, como a Ferrogrão, reflete um cenário de abandono por parte do poder público. “O problema que nós temos no país é falta de vontade política. Enquanto você não tiver vontade política para resolver os gargalos que tem, você nunca vai resolver”, diz Redivo em entrevista ao Estúdio Rural.

Gargalos estruturais e logística
A ausência de ferrovias penaliza o produtor que depende do transporte rodoviário. Redivo exemplifica que o frete de Sinop a Miritituba (PA) custa cerca de R$ 20 por saca, valor que poderia cair pela metade com o modal ferroviário. Para ele, a falta de uma direção clara do governo gera uma instabilidade que coloca em xeque a continuidade da produção em larga escala.
“É essa determinação do governo que nós precisamos, que o governo seja incisivo e nos mostre o caminho que ele quer que a gente siga. Se ele quer que a gente pare de produzir, vamos parar de produzir, por que não?”. Ele ressalta que produzir sem renda é inviável, especialmente para um setor que sustenta parte expressiva do PIB nacional e estadual.
O presidente do Sindicato reforça que é preciso uma postura ativa do governo para solucionar os entraves que travam a produção. Conforme ele, o setor agropecuário responde por um quarto do PIB brasileiro e mais da metade da economia mato-grossense, o que justificaria um apoio mais robusto e estratégico para garantir a segurança nacional através do armazenamento.
Tecnologia e racionalização de custos
Como alternativa para mitigar os custos, muitos produtores têm optado por racionalizar o uso de fertilizantes, aproveitando a reserva de solo construída ao longo de décadas. O dirigente explica que o pacote tecnológico permitiu saltar de uma produtividade média de 25 para 65 sacas por hectare em 50 anos, mas alerta que a tecnologia sozinha não resolve a falta de margem líquida.
A estratégia de “encolher” o investimento em fertilizantes é uma tentativa de se manter na atividade sem comprometer a qualidade fitossanitária da lavoura. Redivo pondera que itens como sementes de qualidade, fungicidas e inseticidas não podem ser negligenciados, sob o risco de inviabilizar a colheita. O produtor, portanto, vive o dilema de reduzir custos onde é tecnicamente possível.
Mesmo com o aumento escalonado da produtividade nas últimas décadas, o cenário financeiro atual é preocupante para o planejamento das próximas safras. O endividamento do produtor rural e a necessidade de renegociar linhas de crédito com juros acessíveis são pautas urgentes para que a ciranda financeira do campo não leve à insolvência de quem produz.

Norte Show como polo de informação
Nesse contexto de desafios, a realização da Norte Show, em Sinop, ganha importância estratégica para o setor produtivo. A feira, que ocorre de 21 a 24 de abril, é vista como um ambiente essencial para que o produtor encontre alternativas de negócio e se atualize sobre inovações tecnológicas e perspectivas geopolíticas.
“A finalidade dela é trazer informação, é trazer conhecimento, trazer novas ideias que são essas pessoas altamente capacitadas que vão passar para gente, que vão dar um direcionamento da nossa situação política, geopolítica, o que nós estamos enfrentando no momento”, destaca Redivo ao programa do Canal Rural Mato Grosso. Para ele, o evento ajuda a projetar Sinop como a capital do Nortão e polo regional de serviços.
A organização da feira foca em uma grade de palestras diversificada, buscando sanar deficiências de gestão e apresentar novos equipamentos com tecnologia embarcada. A expectativa é atrair visitantes de mais de 30 municípios e até do sul do Pará, reforçando o papel do evento em aquecer a economia local e divulgar a cidade internacionalmente.

Importância do setor na economia
O dirigente reforça a necessidade de a sociedade e o governo valorizarem a cadeia produtiva, lembrando que a balança comercial brasileira seria deficitária sem as exportações do campo. Além da produção primária, ele defende o avanço na industrialização local para agregar valor aos produtos de Mato Grosso.
“Tire o setor agropecuário da cadeia produtiva brasileira, o que que seria do Brasil? Quem mora nos grandes centros, reflita. A nossa balança comercial fica deficitária no primeiro ano se parar de exportar. Nós temos um papel preponderante, mas não estamos sendo valorizados por aquilo que somos”, conclui o presidente.
A reflexão proposta por Redivo foca no impacto social do agro, que gera empregos e renda em escala nacional. Para o representante de Sinop, o estado transformou-se em um celeiro mundial em cinco décadas e agora precisa de garantias políticas para continuar operando com sustentabilidade financeira e segurança para as próximas safras.
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