O animal que destrói vinhedos na Toscana, causa acidentes nas estradas europeias e é tratado como invasor nos campos do Texas virou negócio. O mercado global de carne de javali movimentou US$ 1,32 bilhão em 2024 e cresce a um ritmo de 5,8% ao ano. A projeção é chegar a US$ 2,21 bilhões até 2033, segundo relatório da Growth Market Reports.
O quadro geral indica que o javali deixou o nicho das carnes exóticas para entrar no debate mais amplo sobre diversificação proteica e sustentabilidade alimentar. Se o ritmo de crescimento projetado se confirmar, a carne que os romanos serviam em banquetes pode ocupar um espaço mais firme nas prateleiras do século 21.
O motor do crescimento está justamente na confluência entre dois movimentos: o aumento do interesse por proteínas alternativas e saudáveis e a pressão gerada pela superpopulação do animal em várias regiões do mundo, incluindo o Brasil, onde ele é um animal exótico à fauna.
Mas se há um mercado, também há um problema. O fato é que a população global de javalis (Sus scrofa) cresce mais rápido do que os mecanismos de controle conseguem responder. Na Europa, o problema chegou a um patamar crítico. A Itália estima que abriga cerca de dois milhões de animais, que invadem lavouras, destroem vinhedos e provocam acidentes de trânsito nas rodovias. A situação chegou ao ponto de a primeira-ministra Giorgia Meloni autorizar o emprego de 177 soldados para reduzir a população em até 80% ao longo de cinco anos.
O motivo da mobilização vai além do controle de pragas. O javali selvagem é o principal vetor da febre suína africana, doença com mortalidade de 100% entre suínos domésticos. A ameaça à produção de embutidos e presuntos italianos, setor que movimenta € 8,2 bilhões por ano e emprega 50 mil pessoas, transformou o animal num problema de segurança econômica nacional.
Ao mesmo tempo, na Itália, a carne do javali é uma tradição culinária que a coloca entre as mais valorizadas da península. Por isso, o país importa 90% do javali que consome. A desconexão entre abundância no campo e oferta organizada nos mercados mostra um gargalo estrutural que o setor ainda não superou.
O mercado de espécie invasora nos EUA; e o Brasil
Nos Estados Unidos, o javali chegou na bagagem dos colonizadores europeus no século 16 como fonte de alimento. Hoje, classificado como espécie invasora, sua caça é incentivada, especialmente no Texas, que concentra uma das maiores populações do continente. Empresas como Broken Arrow Ranch e D’Artagnan Foods comercializam cortes de javali capturado em vida selvagem, abastecendo restaurantes e consumidores finais por meio de e-commerce. A América do Norte responde por cerca de US$ 220 milhões do mercado global em 2024, segundo a Growth Market Reports.
No Brasil, o javali também é uma espécie sem predador, mas com cadeia produtiva incipiente. O animal chegou ao Brasil na década de 1990, introduzido para produção de carne. Fugiu das criações, cruzou com porcos domésticos e gerou o chamado javaporco. Hoje, o Ibama registra a presença do animal em 15 unidades da federação, do Rio Grande do Sul ao Roraima, e classifica o Sus scrofa como espécie exótica invasora e uma das cem piores do mundo, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza.
Sem predadores naturais no território brasileiro, a expansão é difícil de conter. Uma fêmea produz até duas ninhadas por ano, com média de oito filhotes. Em Santa Catarina, entre 2019 e 2024, mais de 120 mil animais foram abatidos. O estado ainda estima mais de 200 mil javalis espalhados por 236 municípios, segundo levantamento do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) de 2025.

Os animais destroem lavouras de milho, soja e trigo, pisoteiam nascentes e matam filhotes de animais silvestres. Em algumas áreas, as perdas agrícolas chegam a 40% das plantações, segundo o Ministério da Agricultura. A Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) estima que, se doenças como a peste suína africana, a febre aftosa e a leptospirose atingirem os rebanhos comerciais via javali, os danos podem alcançar R$ 50 bilhões anuais.
Desde 2013, a Instrução Normativa 03 do Ibama autoriza o abate como controle populacional, mas exige cadastro, autorização pelo sistema Simaf e, para uso de armas de fogo, registro junto ao Exército. Em 2023, a suspensão temporária das autorizações paralisou o manejo por meses e agravou o problema. A criação em cativeiro está proibida para novos criadouros desde a mesma instrução normativa, salvo exceções para pesquisa científica. A Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados realizou audiência pública sobre o tema em agosto de 2025, ano em que o Mapa abriu a primeira pesquisa nacional para mapear a presença do animal.
O animal que em outros mercados virou proteína premium, no Brasil ainda é um problema não resolvido. A carne de javali chega a restaurantes apenas por meio de criadouros credenciados pelo Ibama anteriores à proibição de 2013. Entre os abatedouros está o Temra, frigorífico de Araçariguama (SP) com mais de três décadas de atuação, que abastece restaurantes da alta gastronomia, entre eles o Barbacoa, na capital.
Ásia emerge como novo polo de consumo
A surpresa no relatório de mercado da Growth Market Reportsvem do Oriente. A região da Ásia-Pacífico é a que cresce mais rápido no consumo de carne de javali, com taxa projetada de 7,2% ao ano até 2033. Em 2024, o mercado regional movimentou US$ 270 milhões.

China, Japão e Coreia do Sul lideram o avanço, impulsionados pela urbanização, aumento de renda e interesse crescente por carnes premium e de origem diferenciada. A expansão do varejo moderno e das plataformas de venda online facilita o acesso a produtos que antes chegavam apenas por canais especializados. Vale registra que a indústria frigorífica brasileira tem Ásia como cliente número um para as suas exportações e o javali ainda não faz parte dessa pauta.
O mercado de carne de javali cresce, mas enfrenta obstáculos estruturais. O animal leva mais tempo para atingir o peso de abate em comparação com o porco doméstico e produz menos carne por carcaça. A sazonalidade da caça dificulta o abastecimento constante.
Um estudo sensorial com 80 avaliadores, conduzido por Karolina Macháčková, Jiří Zelený, Daniel Lang e Zbyněk Vinš, das universidades de Praga, mostrou que a carne de javali não é considerada menos saborosa que a de porco, e que os consumidores demonstraram disposição a pagar valores equivalentes pelos dois produtos. Os grupos focais do mesmo estudo apontaram barreiras relevantes: desconhecimento sobre inspeção sanitária do animal selvagem, rejeição à caça e indisponibilidade nos canais de varejo convencional. A transparência sobre certificação aparece como o principal instrumento para ampliar a base de consumidores.
O setor também aposta na ampliação dos produtos processados como caminho de escala. Salsichas e frios à base de javali têm apelo junto a consumidores que querem experimentar a proteína sem lidar com as exigências de preparo da carne in natura.