Café e chocolate, duas das commodities mais consumidas e negociadas do mundo, registraram forte valorização, enquanto investidores demonstravam preocupação de que o padrão climático El Niño possa comprometer as colheitas no Brasil e na África Ocidental. Analistas alertaram que o café se aproximou de um “território de ações meme”.
Contratos futuros de café Arábica negociados na ICE Futures U.S., a bolsa de futuros da Intercontinental Exchange (ICE), sediada nos Estados Unidos, avançaram para um “meme-stock territory” após registrarem a maior variação diária em décadas, segundo analistas. O termo “meme-stock territory” não tem tradução no português, ele é uma metáfora para ativos que sobem ou caem de forma exagerada por causa da especulação, e não apenas pelos fundamentos do mercado.
Principais informações
Os contratos futuros de café subiram até 18,5% na nesta segunda-feira (6), alcançando US$ 3,57 por libra-peso (R$ 19,50 por 0,454 kg, na cotação atual), na maior alta intradiária da commodity desde 2000. O movimento ampliou uma valorização de 48% desde 10 de junho, antes de os contratos recuarem mais de 7% nas primeiras negociações desta terça-feira (7)
A “sessão histórica” de segunda-feira levou os contratos futuros de café ao “território de ações meme”, segundo o grupo de serviços financeiros StoneX. A empresa informou que compras agressivas por investidores institucionais e fundos que utilizam negociações automatizadas por computador superaram o forte volume de vendas realizado por países produtores de café.
As preocupações com o clima aumentaram porque operadores do mercado passaram a considerar possíveis prejuízos às colheitas provocados pelo fenômeno El Niño. Além disso, a oferta de café Arábica de qualidade superior permanece restrita, informou a StoneX. Ainda assim, analistas afirmaram que “não há nenhum problema climático efetivo” afetando as lavouras brasileiras e que “a qualidade continua sendo a principal preocupação”.
O El Niño se formou no Oceano Pacífico no início deste mês. De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), esse padrão climático normalmente exerce um impacto “significativo” sobre os países do Hemisfério Norte durante o inverno, deverá atingir seu pico entre novembro e janeiro e provocar temperaturas acima da média, além de chuvas mais irregulares.
Os contratos futuros de cacau avançaram 13% na segunda-feira, atingindo o maior nível desde janeiro, impulsionados principalmente pelas chuvas persistentes na África Ocidental, o que ampliou as preocupações com a oferta, segundo Ole Hansen, chefe de estratégia para commodities do Saxo.
O que observar
O mercado acompanhará se a Intercontinental Exchange (ICE), onde são negociados os contratos futuros de café Arábica, aumentará as exigências de margem. Isso obrigaria os participantes do mercado futuro a aportar mais recursos financeiros para manter suas posições. Essa medida poderá interromper a valorização do café. Ao mesmo tempo, a possível redução dos estoques de café aprovados pela bolsa representa um “grande risco estrutural que se aproxima do mercado”, alertou a StoneX.
Dado surpreendente
O custo médio de 0,454 kg de café nos Estados Unidos atingiu um recorde histórico em abril, chegando a pouco mais de US$ 9,72 (R$ 53,10), antes de recuar ligeiramente para US$ 9,51 (R$ 52,00) em maio, segundo dados do Federal Reserve.
O contexto
Os preços do café atingiram níveis elevados nos últimos anos porque condições climáticas desfavoráveis em grandes países produtores, como Brasil e Vietnã, reduziram a oferta global. Segundo a StoneX, em relatório divulgado no início deste mês, os custos mais altos de produção ainda não reduziram a demanda, enquanto o consumo mundial de café alcançou um recorde neste ano.
Analistas citaram um relatório segundo o qual o café continua sendo a bebida mais consumida nos Estados Unidos, com 66% dos adultos informando que haviam consumido café no dia anterior, superando tanto a água engarrafada quanto a água da torneira.
A commodity também foi afetada pela forte inflação dos últimos anos. Segundo estimativas da Forbes, o preço médio de uma embalagem de café aumentou 115% entre junho de 2020 e abril de 2026.
Publicado originalmente em Forbes EUA