14/04/2026

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Com R$ 2,1 Bi, Delair Bolis Lidera Virada da MSD com Foco em Dados

“O dia em que o produtor ou o tutor de um pet não lembrar da MSD para controlar doenças, nós deixamos de existir; mas hoje queremos ser reconhecidos por usar a inteligência de dados para ‘conversar’ com os animais.”

A frase de Delair Angelo Bolis, durante uma entrevista exclusiva à Forbes Agro, sintetiza uma mudança estrutural que vai além do discurso corporativo.

Nos últimos seis anos, sob sua liderança, a MSD Saúde Animal no Brasil dobrou de tamanho e ultrapassou R$ 2,1 bilhões em faturamento, reposicionando-se de uma indústria farmacêutica tradicional para uma empresa orientada por tecnologia e inteligência de dados.

O movimento acompanha uma transformação mais ampla do próprio agronegócio, cada vez mais dependente de precisão, rastreabilidade e eficiência produtiva, mas, no caso da MSD, ganha contornos estratégicos.

A companhia faz parte da americana Merck & Co. que em 2025 faturou globalmente US$ 65 bilhões (R$ 325 bilhões, segundo a cotação atual). O Brasil se tornou o segundo maior mercado global da companhia, atrás apenas dos Estados Unidos, e passou a operar como um laboratório de inovação em escala.

A virada: de medicamentos para dados

Erich Sacco/Getty ImagesBovinos de corte em área de pasto

A trajetória de crescimento da operação brasileira está diretamente ligada à redefinição do que a empresa entende como seu próprio negócio.

“Fomos uma empresa reconhecida para controlar doenças. Isso continua sendo essencial. Mas o mais importante é quem queremos ser”, afirma Bolis.

Esse “queremos ser” desloca o eixo da companhia para a tecnologia. Sensores, softwares e algoritmos passam a ocupar o centro da estratégia, criando uma nova camada de valor sobre a biofarmacêutica tradicional.

Globalmente, cerca de US$ 700 milhões (R$ 3,5 bilhões) já vêm de soluções tecnológicas. No Brasil, esse segmento supera R$ 100 milhões, ainda uma fração da receita, mas com papel crescente na expansão do negócio.

O efeito escala em um mercado bilionário

O crescimento da MSD acontece dentro de um setor que também se expande rapidamente. O mercado de saúde animal no Brasil deve alcançar cerca de R$ 12 bilhões em 2025, praticamente o dobro das estimativas mais restritas ao segmento de bovinos.

Mesmo um setor concentrado, adicionando empresas como as americanas Zoetis e Elanco, a alemã Boehringer Ingelheim, a francesa Vetoquinol, e a brasileira Ourofino, o setor ainda apresenta lacunas importantes de penetração tecnológica.

“Em aves e suínos, mais de 80% dos produtores já usam alta tecnologia. Na pecuária de corte e leite, menos de 30% utilizam soluções avançadas”, diz o executivo.

Essa assimetria abre espaço para crescimento acelerado, especialmente em um país que combina escala produtiva com baixa eficiência relativa em alguns segmentos.

A lógica do “animal individual”

Jacob Wackerhausen/Getty ImagesPecuarista com tablet na mão conferindo informações de seu rebanho

Parte relevante da expansão da MSD está associada a uma mudança silenciosa, mas decisiva, na lógica produtiva do campo.

“O valor econômico do animal mudou. Hoje, uma vaca pode valer até R$ 100 mil”, afirma Bolis.

Esse novo patamar de valor inviabiliza o modelo tradicional de gestão por rebanho e exige monitoramento individualizado. É nesse ponto que a tecnologia se torna central.

Dispositivos instalados nos animais, como colares e brincos, capturam dados de comportamento, alimentação e saúde. Esses dados alimentam algoritmos que antecipam doenças e orientam decisões com maior precisão.

“O dado traz uma assertividade tamanha que, se o sistema aponta uma alteração e o tratador não percebe, o produtor confia no dado e trata o animal”, afirma Bolis.

Na prática, o modelo reduz perdas, aumenta produtividade e diminui o uso de medicamentos. Estas três variáveis estão diretamente ligadas ao resultado econômico do produtor.

Novo modelo de negócio: assinatura no campo

Se a tecnologia explica parte da expansão, o modelo comercial ajuda a destravar escala.

A MSD deixou de vender equipamentos e passou a operar em formato de subscrição, diluindo o investimento ao longo do tempo, no caso dos colares de monitoramento.

“Adaptamos nosso modelo ao estilo Netflix. Financiamos o equipamento em mensalidades para democratizar o acesso”, afirma Bolis.

O impacto foi imediato. O número de vacas monitoradas saltou de cerca de 30 mil para 165 mil em um ano, com expectativa de superar 200 mil.

A estratégia reduz a barreira de entrada e acelera a adoção, um movimento típico de empresas de tecnologia, mas ainda pouco explorado no agronegócio.

Brasil como ativo estratégico

A relevância da operação brasileira dentro da multinacional está diretamente ligada às características do país.

“O Brasil é o supermercado do mundo”, afirma Bolis. “Em 45 minutos, produz proteína animal suficiente para alimentar uma cidade de 97 mil habitantes durante um ano.”

Ao mesmo tempo, o país apresenta desafios estruturais que reforçam o potencial de ganho de eficiência. Um exemplo está na pecuária leiteira: o Brasil possui cerca de 12% das vacas do mundo, mas responde por apenas 4% da produção global de leite.

Esse descompasso reforça a tese de investimento da companhia: há espaço relevante para ganhos de produtividade via tecnologia.

Cultura e risco como motores de crescimento

A expansão da MSD no Brasil também passa por uma agenda interna. A empresa destina cerca de 20% do faturamento à inovação, cerca de R$ 400 milhões, com foco em soluções capazes de substituir modelos existentes.

“Buscamos inovação que torne obsoleto o que já existe”, afirma o executivo.

A estratégia inclui incentivo ao risco, diversidade de pensamento e desenvolvimento individual. Um exemplo simbólico citado por Bolis é o de um colaborador com deficiência visual que atingiu R$ 6 milhões em vendas mensais por canais digitais.

A operação brasileira hoje reúne cerca de mil colaboradores e constantemente traz renovações constantes aos trabalhadores através de um programa de treinamentos e cursos dentro da própria companhia, iniciativa conhecida como Universidade MSD.

O próximo salto: rastreabilidade e confiança

O avanço tecnológico converge para uma agenda mais ampla no agronegócio, com a rastreabilidade individual de bovinos, garantindo maior transparência à pecuária brasileira com seu rebanho de cerca de 238 milhões de animais, segundo o IBGE.

O Plano Nacional de Identificação Bovina, do governo federal, prevê identificar 100% de todo este rebanho até 2032, criando uma base de dados robusta sobre origem, sanidade e histórico dos animais.

Para a MSD, esse movimento reforça a importância de suas soluções.

“A tecnologia permite registrar toda a vida do animal. Isso aumenta a confiança do consumidor e abre mercados”, afirma Bolis.

Entre indústria e tecnologia

Ao dobrar sua receita no Brasil, a MSD não apenas cresceu, ela mudou de natureza.

A biofarmacêutica segue como base do negócio, mas a tecnologia avança como vetor de diferenciação e expansão. No modelo descrito por Bolis, trata-se de uma operação “ambidestra”: enquanto o core sustenta a receita, a inovação redefine o futuro.

“Não vendemos apenas medicamentos. Vendemos prevenção, bem-estar e produtividade”, diz.

A frase resume o reposicionamento e ajuda a explicar por que a companhia conseguiu crescer acima da média em um dos setores mais competitivos do agronegócio.

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