04/05/2026

04/05/2026

Search
Close this search box.

Com R$ 13,2 Milhões, Cannabis Encabeça Nova Agenda “Agrofarma” da Embrapa

A Embrapa, estatal que é a maior instituição de pesquisa do agro no Brasil, está prestes a dar início a uma agenda inédita dentro do agronegócio brasileiro, ao estruturar um programa de pesquisa com cannabis voltado ao desenvolvimento de insumos farmacêuticos ativos (IFAs).

Com um orçamento aprovado de R$ 13,2 milhões, pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a iniciativa marca a entrada definitiva da cultura canábica no portfólio científico da estatal e inaugura uma nova fronteira de integração entre agricultura e indústria farmacêutica, através da linha de pesquisa Agrofarma.

“O Brasil importa 95% dos insumos farmacêuticos que usa”, diz a pesquisadora Beatriz Marti Emygdio, da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas (RS). “Estou exatamente nesse momento fazendo esses estudos pra gente definir quais serão essas espécies que vão entrar no nosso programa Agrofarma.”

Pioneira na defesa da cannabis no Brasil, desde 1996, Beatriz participou na definição de linhas de pesquisa e na estruturação do Programa de Pesquisa com Cannabis da Embrapa e, desde 2024, é presidente do Comitê Permanente de Assessoramento Estratégico em Cannabis (CPCAN).

Para a bióloga, mestre melhoramento genético de plantas e doutora em ciência e tecnologia de sementes, mais do que a cannabis, este movimento apresentado com exclusividade à Forbes Agro, abre caminho para uma agenda mais ampla de agrofármacos.

Na lista preliminar de Beatriz estão guaraná, eucalipto, jaborandi, menta e matérias-primas de origem animal que podem ter um uso valioso pela indústria farmacêutica.

“Nossa ideia é começar a fazer toda uma articulação nesse sentido para ver o que vale a pena desenvolvermos internamente”, diz a pesquisadora.

A bandeira do estudo da cannabis de Beatriz iniciou cerca de três décadas antes, quando ela era estudante de pós-graduação na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), após voltar de uma viagem aos Estados Unidos e ver o desenvolvimento inicial da planta como método terapêutico por lá.

“Eu nunca imaginei que em algum momento da história isso ia entrar no portfólio de pesquisa da Embrapa”, diz.

O poder dos futuros agrofármacos brasileiros

Confira quais são os potenciais da lista preliminar da Embrapa:

  • Cafeína de grau farmacêutico: o programa avalia o uso do guaraná, que registra concentração de 6% de cafeína, patamar três vezes superior aos 2% encontrados no café. Atualmente, o Brasil gasta cerca de US$ 30 milhões (R$ 153 milhões) anuais na importação desse insumo, segundo Beatriz.
  • Heparina: anticoagulante estratégico extraído da mucosa intestinal de bovinos e suínos. O Brasil possui liderança mundial nessas cadeias pecuárias, mas descarta o subproduto ou exporta sem o processamento de química fina necessário para a indústria farmacêutica.
  • Eucaliptol: ativo utilizado em larga escala pela indústria, hoje importado apesar da força da silvicultura brasileira. A Embrapa trabalha com melhoramento genético e edição gênica para elevar os teores da molécula em espécies específicas.
  • Pilocarpina: substância extraída do jaborandi, essencial para tratamentos oftalmológicos. A meta é transitar do extrativismo atual para um sistema de produção agrícola controlado e de alta produtividade.
  • Espinheira-santa: Planta nativa indicada para o tratamento de problemas gástricos, sendo uma das fortes candidatas ao cultivo em larga escala dentro do Agrofarma.
  • Mentol: O Brasil tenta retomar a produção perdida nas décadas de 1970 e 1980 para a Índia, por meio de novos programas de melhoramento genético da menta.

Cannabis, a semente da agenda Agrofarma

Divulgação/Verdecom360Flor da cannabis vista por uma pequena lupa

A semente de tudo isso foi certamente a cannabis, que teve seu primeiro projeto aprovado através de uma concorrência que nenhum outro estudo teve, segundo a pesquisadora, dentro da própria Embrapa.

“Não foi um edital fácil. A concorrência era com centros de saúde, hospitais, gente muito forte nessa área. Então, aprovar esse projeto foi uma conquista importante,” diz.

Foram necessários vários meses até o envio da proposta ao edital da Finep. Tudo para garantir os recursos necessários para o estudo.

“Se nós não estruturássemos um projeto robusto, seria muito difícil começar. A gente precisava de um recurso que desse base para essa agenda dentro da Embrapa”, afirma a pesquisadora que só está à espera da efetiva liberação da verba.

Mercado potencial: uma nova bioeconomia em formação

O avanço da cannabis no Brasil ocorre em paralelo a um mercado global em rápida expansão. Estimativas internacionais indicam que o setor de cannabis medicinal pode superar globalmente US$ 50 bilhões (R$ 250 bilhões) ao longo da próxima década, impulsionado pela ampliação das regulações e pela demanda por terapias alternativas.

No Brasil, mesmo sob restrições regulatórias, o mercado brasileiro de cannabis medicinal encerrou 2025 com um volume de negócios estimado em R$ 970,9 milhões, 14% a mais em comparação com 2024, segundo a consultoria Kaya Mind.

A Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace), sediada em João Pessoa (PB), é uma das instituições pioneiras no cultivo para fins medicinais com habeas corpus desde 2017 e que atende cerca de 55 mil pacientes e movimenta aproximadamente R$ 9 milhões por mês com a produção em apenas quatro hectares.

“Olha o potencial de agregação de valor para a agricultura que é a cannabis”, afirma Beatriz.

Entre o agro e a saúde

Divulgação/Verdecom360Beatriz faz a avaliação de plantas cultivadas pela Abrace, em João Pessoa (PB)

A entrada da cannabis no portfólio da Embrapa ocorre em um momento de transformação do agronegócio brasileiro, que busca novas fontes de valor além das commodities tradicionais.

Internamente, o tema já ganhou respaldo. Levantamentos indicam que mais de 70% dos pesquisadores da estatal apoiam a inclusão da cultura na agenda científica da instituição.

Mais do que uma nova cultura agrícola, a cannabis representa o ponto de partida de uma cadeia híbrida, que conecta genética, produção, processamento e indústria farmacêutica e que pode se expandir para outras espécies e aplicações nos próximos anos.

“É uma oportunidade de posicionar o Brasil em uma nova fronteira. Não é só agricultura, é saúde, é indústria, é tecnologia”, afirma Beatriz.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Devolução de R$ 550 mi duplica 3 trechos de rodovias em Goiás

Infraestrutura Presidente do Legislativo vai anunciar repasse na próxima terça-feira na presença do governador de…

a Feira Bilionária Dirigida por um Presidente de Honra de 83 Anos

Na manhã de primeiro de maio, o último dia da 31ª Agrishow nesta sexta-feira, enquanto…

Mato Grosso concentra 15% do faturamento agropecuário nacional

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso Mato Grosso deve faturar R$ 206 bilhões com a…