Na manhã de primeiro de maio, o último dia da 31ª Agrishow nesta sexta-feira, enquanto o Parque de Exposições de Ribeirão Preto ainda enchia de gente e o sol já prometia os mais de 30 graus que varreram a semana inteira, Maurílio Biagi Filho chegou cedo ao estúdio da Rádio Agrishow para comentar ao vivo o que acontecia nos estandes e nos cerca de 30 km de ruas e avenidas do parque.
Tinha, na cabeça, o assunto do programa: um cachorro que virou personagem da feira nas redes sociais, um pedido de casamento no meio da multidão e uma cerveja de palmito que alguém estava lançando por ali. “Falei que era de quiabo e aí me corrigiram. Mas já tinha falado que o pedido de casamento foi regado a cerveja de palmito”, contou, rindo, em entrevista exclusiva à Forbes Brasil, pouco antes da coletiva de encerramento da feira.
Mas ele estava alí para muito mais do que as descontrações que seu cargo exige: ele é o presidente de honra da Agrishow da maior feira agrícola da América Latina. Aos 83 anos de idade, Maurílio Biagi Filho vai à Agrishow todos os dias e chega muito cedo, antes da abertura ao fechamento dos portões, porque gosta. É a explicação que ele dá. No abraço que recebeu de João Carlos Marchesan, no final da coletiva na tarde de 1º de maio, estava a confirmação. “Ele é o cara”, disse Marchesan se dirigindo à Forbes e depois a Biagi Filho, acrescentou: “Obrigada presidente por mais um ano; e vamos juntos para 2027.”
Realizada anualmente desde 1994, a Agrishow é organizada por um conjunto de entidades do setor agropecuário, entre elas a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e a Sociedade Rural Brasileira (SRB). A feira deste ano, que começou em 27 de abril, registrou R$ 11,4 bilhões em intenções de negócios, queda de 22% em relação a 2025.
“O agro é uma montanha-russa e há dois anos estamos em uma fase de baixa, com exceção para café e carnes. Antes, você vendia a saca de soja pelo dobro do que é hoje. Fora isso, os custos de insumos e mão de obra também aumentaram. É uma tempestade perfeita, somada ao maior juro do mundo, que é reconhecida e festejada.”
Para entender o peso da presença de Biagi Filho na Agrishow, é preciso voltar ao começo. Quando os primeiros barracões foram armados naquele terreno às margens do Anel Viário de Ribeirão Preto, ele conta que um dia em que passava pela estrada viu a movimentação e entrou por curiosidade. Ali encontrou Ney Bittencourt, o agrônomo que trouxe dos Estados Unidos o conceito de uma feira de máquinas agrícolas em campo aberto, em uma época na qual o vocabulário do setor ainda não conhecia palavras como agronegócio, ou agribusiness.
“O Ney Bittencourt (mentor da criação da feira) era um sujeito muito evoluído, esse nome ele tinha trazido dos Estados Unidos. Não tinha agronegócio, tinha lavoura, agricultura”, lembrou. Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e uma das figuras centrais na consolidação da feira, é outro nome que Biagi Filho cita com admiração constante. Desde aquela primeira edição, esteve em todas as que vieram.
Vale registrar que o título de presidente de honra não é protocolar na Agrishow. Ele institui uma função específica que Biagi Filho segue à risca: manter viva a memória de quem ajudou a construir o evento, emprestar autoridade moral à sua trajetória e oferecer à diretoria atual a experiência de quem atravessou todas as fases da feira, das primeiras edições precárias à consolidação como o maior evento agrícola da América Latina. E vai além, participando das discussões sobre cenário econômico, produção e geopolítica. É o que Biagi Filho faz, sem voto nas decisões, sem cargo executivo, mas com presença diária e acesso irrestrito.
“Quando se faz um apoio você não apoia a Agrishow, você apoia as pessoas que fazem a Agrishow”, disse. A distinção, para ele, é essencial.
“Eu gosto muito de ouvir gente”, completou, numa frase que, dita por quem tem 83 anos e seis décadas de agronegócio nas costas, soa menos como humildade e mais como método.
Por exemplo, o alerta que Biagi Filho carrega para 2026 vai além da queda nos negócios da Agrishow. O que ele descreve é um problema de outra escala: conjuntural, ideológico, geopolítico e financeiro, tudo ao mesmo tempo e sem o recorte localizado que caracterizou outras crises do setor ao longo de sua trajetória. Ele fala do tempo, lá no final dos anos 1980, quando o preço do álcool despencou, mas o problema era específico e circunscrito. O que vê agora é diferente.
“Nunca houve um problema conjuntural da extensão e da profundidade atual, que inclui ideologia no meio disso tudo. E inclui radicalismos. Detesto radicalismo”, afirmou. O risco que ele aponta não está na oscilação de commodity, mas na velocidade com que décadas de construção institucional e tecnológica podem se desfazer. “Para construir um negócio desse (se referindo ao agro), foi preciso fazer uma Embrapa e o país demorou 60 anos para construir o que está aí hoje. Mas para desmanchar é muito rápido, é um desmoronamento”, disse.
Nascido em Ribeirão Preto e filho do empresário Maurílio Biagi, um dos articuladores do Proálcool, Biagi Filho começou sua carreira em 1956 como estagiário na Usina Santa Elisa, em Sertãozinho, a poucos quilômetros de Ribeirão. Passou por todos os cargos até a direção-executiva. Foi com a morte do pai, em 1978, que assumiu o controle do grupo. Sob sua gestão, a Santa Elisa saiu de uma moagem de 118 mil toneladas de cana por safra para o recorde de 7 milhões de toneladas, chegando à liderança do setor em 1998. Presidiu também a Zanini Equipamentos Pesados, controlou as Bebidas Ipiranga, fabricante e distribuidora da Coca-Cola, e em 2002 criou o Grupo Maubisa, holding familiar com participações em imóveis, agronegócio e startups, que tem hoje como CEO seu filho, Rodrigo Amorim Biagi. De origem italiana, foi a família que deu a Ribeirão Preto o apelido de “Califórnia brasileira” nos anos de ouro do setor sucroenergético.
A defesa do etanol atravessa essa trajetória com a constância de quem nunca precisou rever a convicção. Em 1975, na elaboração do Proálcool, programa lançado pelo governo federal para desenvolver o etanol como alternativa ao petróleo, Biagi Filho esteve nas reuniões, levou o projeto aos usineiros e participou da cerimônia de assinatura. Na época, a Santa Elisa comprou centenas de caminhões a álcool e serviu de laboratório para as quase 40 joint ventures que a Zanini fechou com parceiros internacionais.
Mas a época mais memorável que ele puxa da história, quando questionado sobre qual a melhor lembrança que tem da Agrishow, a resposta vem de imediato. Nos anos de 2012 e 2013 ele presidiu a Agrishow, o único ribeirão-pretano a ocupar o cargo. Segundo Biagi Filho, a gestão deixou dois marcos concretos. O Prêmio Brasil Agrociência, eleição conduzida com uma equipe da Embrapa para reconhecer pesquisadores e projetos de destaque, estabeleceu uma dimensão que ia além do negócio. E a concessão da área pelo Governo do Estado de São Paulo, por 30 anos, resolveu um problema que se repetia a cada edição. “Todo ano tinha que fazer o pedido de uso do espaço, era um trabalho danado com a Secretaria da Agricultura, uma novela. A cada Agrishow era um contrato novo”, descreveu.
Com o acordo, os investimentos em infraestrutura ganharam previsibilidade e o evento consolidou sua posição permanente naquele território. Não por acaso, foi ao final de seu mandato que as entidades organizadoras o nomearam presidente de honra. Perguntado sobre o convite, respondeu com economia de palavras: “Percebi muita sinceridade no convite. Se eu tivesse percebido isso, eu não teria aceito.”
Para a Agrishow e o futuro da feira, especificamente, sua leitura é cíclica. A feira existe enquanto existir o negócio do agro, e o negócio do agro, na sua perspectiva, vai ter um novo ápice em um cenário não muito distante.
Já uma possível volta ao cargo de presidente, Biagi responde sem hesitar: “Não, porque não tenho mais idade para isso”. No entanto, o que ele não tira de sua agenda é que no próximo 2 de março, quando completará 84 anos e faltando 55 dias para a 32ª edição da Agrishow, o que provavelmente estará fazendo é se preparar para aparecer, circular, ouvir, comentar no rádio, conceder entrevista, participar de jantares, reuniões e emprestar a uma feira de máquinas, tratores e inovações algo que nenhum estande oferece: a memória de quem estava lá quando os primeiros barracões foram montados.