O atraso no plantio do milho segunda safra em Mato Grosso já começa a mostrar reflexos severos no campo. Em diversas regiões do estado, a falta de chuvas regulares compromete o desenvolvimento das lavouras, enquanto o aumento expressivo dos custos de produção e a queda nos preços de mercado elevam a preocupação. A combinação desses fatores acende um alerta para a produtividade final e também para o planejamento financeiro da próxima temporada.
Talhões desuniformes, falhas no estande de plantas e um grande número de espigas mal desenvolvidas refletem a falta de umidade em solo mato-grossense. Essa realidade castiga especialmente os milharais cultivados fora da janela considerada ideal em propriedades de Nova Mutum, no médio-norte do estado. Segundo o Sindicato Rural local, o atraso foi motivado pelo excesso de chuvas durante a colheita da soja, que postergou a entrada das máquinas.
Dados do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) indicam que mais de 1 milhão de hectares de milho foram plantados fora do período recomendado em Mato Grosso. Esse volume de área em risco pode impactar diretamente a oferta do grão e elevar as incertezas para a safra 2025/26. A situação é agravada pela desvalorização do cereal no mercado físico, o que aumenta a apreensão entre os agricultores que já iniciaram o ciclo com margens apertadas.
O alto custo de produção e a desvalorização do grão no mercado, diante do atraso na janela de plantio, aumentam a apreensão na região. Esse cenário já impacta diretamente o planejamento de investimentos para a próxima temporada, forçando o produtor a rever estratégias de tecnologia e insumos para garantir a viabilidade do negócio no médio prazo.
Quebra de produtividade e clima
O presidente do Sindicato Rural de Nova Mutum, Paulo Zen, explica que cerca de 40% do plantio da região está fora da janela ideal e enfrenta desafios hídricos imediatos. Segundo ele, o setor agora depende de chuvas generalizadas para evitar perdas maiores, já que existem lavouras em estágios completamente diferentes dentro de uma mesma localidade, o que dificulta o manejo.
Zen destaca que a região precisaria de mais 15 dias de chuvas para salvar as áreas mais tardias. “Em Nova Mutum a gente está com 35%, beirando 40% de milho fora da janela, a gente vê isso como um desafio. São aqueles chamados bolsões que a gente tem aí, onde chovia chove, e onde não chovia para de chover mais cedo”, detalha o dirigente ao projeto Mais Milho. Ele pontua que as perdas já são estimadas entre 6 a 7 sacas por hectare devido ao atraso.
O agricultor Marcos Vinícius Costa Beber, que cultiva 1,6 mil hectares, confirma que o cenário é crítico para quem plantou entre meados e o fim de fevereiro. Ele relata que quase metade de sua área está sob risco e os prejuízos já aparecem no monitoramento. A ausência de previsões otimistas para o fechamento de abril aumenta a pressão sobre o resultado final do talhão.
O produtor estima que a quebra pode atingir 10% da área caso o clima não ajude nos próximos dias. “Precisaríamos de pelo menos duas chuvas até o fim de abril, e a previsão não tem indicado isso. Temos aproximadamente 30% a 40% plantado fora da janela, entre meados e o fim de fevereiro, ainda necessitando de boas chuvas, mas o clima não tem ajudado”, afirma Beber.

Desafios do mercado e custos
Além da questão climática, o cenário comercial é considerado um dos mais desafiadores dos últimos anos para o produtor mato-grossense. Com o preço da saca orbitando os R$ 43 para entrega em junho e julho, o setor enfrenta dificuldades para fechar a conta do custo de produção. A desvalorização ocorre em um momento de baixa liquidez nas exportações, o que deixa o estado dependente da demanda interna.
Neste contexto, as usinas de etanol surgem como um suporte fundamental para o escoamento da produção e manutenção de preços mínimos. Marcos Vinícius observa que, sem a forte demanda das indústrias de biocombustíveis, a rentabilidade estaria ainda mais comprometida. Ele destaca que o mercado interno para ração animal sozinho não seria suficiente para absorver o excedente de uma safra cheia.
Beber ressalta que as usinas têm ajudado muito com o fechamento de contratos antecipados, garantindo alguma renda. “Se não fossem eles o cenário estaria pior ainda, com certeza. Os produtores não teriam mais renda porque se você só dependesse só de mercado interno para ração estaria difícil. A exportação hoje mesmo está parada, não tem nada”, avalia o produtor à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
Para a próxima temporada, a tendência é a redução de investimentos em tecnologia para equilibrar o caixa das propriedades. Beber projeta que o alto custo de produção forçará o uso de uma tecnologia média ou baixa para garantir fôlego financeiro. “O custo de produção está muito alto o ano que vem. Você vai trabalhar com uma média baixa para poder dar mais um giro e pegar um fôlego na próxima”, explica.
Planejamento e novas demandas
A sustentabilidade financeira no campo passa pelo sucesso da segunda safra, mas os custos com fertilizantes nitrogenados subiram consideravelmente, tornando-se um entrave. Paulo Zen reforça que o adubo foi o item que mais encareceu para os ciclos futuros. O dirigente defende que o país precisa implementar novas estratégias urgentes para aumentar o consumo interno do que é produzido.
O presidente do sindicato acredita que é preciso melhorar leis e a qualidade do biodiesel para aproveitar a produção local. “A gente precisa investir muito em consumir a produção agora, porque para trás não tem como voltar mais. O que se produz em pequena escala hoje talvez é o que está dando maior rendimento porque a parte que está tudo no macro está difícil”, reflete Zen.
O dirigente conclui que a cadeia produtiva brasileira precisa de meios que consumam essa produção para não tornar a atividade inviável. Conforme ele, o setor investiu muito em tecnologia para produzir em escala, mas agora carece de uma demanda proporcional. O foco, a partir de agora, deve ser o fortalecimento do consumo doméstico para dar vazão ao volume colhido no estado.

+Confira mais notícias do projeto Mais Milho no site do Canal Rural
+Confira mais notícias do projeto Mais Milho no YouTube
Clique aqui, entre em nosso canal no WhatsApp do Canal Rural Mato Grosso e receba notícias em tempo real.
O post Clima e mercado pressionam milho fora da janela e elevam risco da safra em MT apareceu primeiro em Canal Rural Mato Grosso.