24/06/2026

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Campo Limpo Mira R$ 1 Bilhão e Ganha Peso em Sistema de R$ 400 Milhões por Ano no Agro

“Na próxima década, podemos atingir R$ 1 bilhão de receita.” A projeção apresentada por Marcelo Okamura, presidente da Campo Limpo e do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), durante coletiva nesta terça-feira (23), ajuda a dimensionar o tamanho de um negócio que nasceu da reciclagem de embalagens vazias de defensivos agrícolas, mas hoje cumpre uma função mais ampla: ajudar a financiar um sistema de logística reversa que custa cerca de R$ 400 milhões por ano ao setor.

A conta ajuda a explicar o peso da empresa nessa engrenagem. O orçamento anual do inpEV, responsável por coordenar a rede nacional de recebimento, transporte e destinação das embalagens, gira em torno de R$ 250 milhões.

A maior parte desse custo é bancada diretamente pela indústria de defensivos, porque a logística reversa é uma obrigação legal do fabricante. Nesse arranjo, a Campo Limpo passou a ter papel estratégico: o faturamento gerado com a venda de embalagens recicladas, tampas, resinas e outros produtos ajuda a reduzir a conta que recai sobre as indústrias.

A empresa fechou 2025 com faturamento líquido recorde de R$ 506 milhões e projeta crescer entre 10% e 12% em 2026. Se a estimativa se confirmar, a receita pode se aproximar de R$ 567 milhões neste ano.

“A Campo Limpo vem ganhando musculatura para sustentar esse crescimento”, afirmou Okamura. “Hoje, além de cumprir um papel dentro do sistema, a empresa já ajuda a compensar parte dos custos da logística reversa.”

O avanço da companhia acompanha a perspectiva de expansão do agronegócio brasileiro na próxima década. Segundo projeções do Ministério da Agricultura, a área plantada de grãos deve passar de cerca de 83,5 milhões para 92,2 milhões de hectares até a safra 2033/34, enquanto a produção pode sair de 358,6 milhões para 379 milhões de toneladas.

É nesse contexto que a meta bilionária de receita ganha significado. Não se trata apenas do crescimento de uma recicladora, mas da expansão de uma empresa que ajuda a financiar um dos maiores programas de logística reversa do agronegócio brasileiro.

“Quanto mais a Campo Limpo cresce, mais ela ajuda o sistema a se sustentar”, resumiu Okamura.

Receita para abater a conta

A Campo Limpo é o braço industrial do Sistema Campo Limpo, programa nacional de logística reversa coordenado pelo inpEV. É ela quem transforma parte das embalagens pós-consumo em novas embalagens para defensivos, tampas, resinas e outros artefatos plásticos. Na prática, faz a ponte entre a destinação ambientalmente correta e a monetização desse material.

Sem essa receita, o custo da logística reversa dependeria ainda mais de aportes diretos das fabricantes de defensivos. Como a lei determina que a indústria é responsável pela destinação das embalagens, o faturamento da Campo Limpo funciona como compensação financeira dentro da operação.

“A obrigação legal de financiar a logística reversa é da indústria”, disse Okamura. “O que a Campo Limpo faz é ajudar o sistema a se sustentar.”

O processo começa no campo. Depois de usar o produto, o agricultor faz a tríplice lavagem da embalagem lavável, armazena o material e o devolve em um posto ou central de recebimento. A partir daí, a rede coordenada pelo inpEV recebe, separa, prensa, transporta e encaminha as embalagens para reciclagem ou incineração, conforme o tipo de material e a possibilidade de reaproveitamento.

Só em 2025, a operação logística envolveu 18.809 caminhões, que percorreram 7,98 milhões de quilômetros para destinar as embalagens, distância equivalente a cerca de 200 voltas ao redor da Terra.

Escala industrial

Divulgação/Campo LimpoTrabalhador durante o processo de reciclagem de embalagens na Campo Limpo

Criada para fechar o ciclo da reciclagem, a Campo Limpo deixou de ser apenas uma solução de destinação ambiental e virou uma operação industrial. Em 2025, registrou o melhor resultado de sua história.

Fundada em 2008, a empresa reúne duas operações: a Campo Limpo Reciclagem e Transformação de Plásticos S.A., com unidade industrial em Taubaté (SP) e nova fábrica em Ribeirão Preto (SP), e a Campo Limpo Tampas e Resinas Plásticas Ltda., também em Taubaté. A companhia tem 25 acionistas, entre fabricantes de defensivos como BASF, Bayer, Corteva, Ihara, Syngenta e UPL do Brasil.

Hoje, o principal negócio continua sendo a produção de embalagens plásticas para defensivos agrícolas. Segundo Okamura, a empresa opera com a produção praticamente em capacidade plena, o que levou a novos investimentos em sopradoras e na ampliação da estrutura industrial.

“Estamos praticamente no limite da capacidade”, afirmou. “A demanda por embalagens recicladas cresceu e o mercado passou a confiar mais nesse produto.”

Cerca de R$ 350 milhões do faturamento de 2025 vieram da produção de embalagens, enquanto aproximadamente R$ 150 milhões tiveram origem nas operações de resinas recicladas e no sistema de tampas e vedações.

Competitividade e novos mercados

A estratégia da Campo Limpo para crescer passa por ampliar capacidade, reduzir custos industriais e diversificar mercados. Hoje, mais de 90% do que a empresa produz ainda é absorvido pelo agronegócio, mas a companhia já fornece embalagens para a indústria de lubrificantes e mira também o segmento de combustíveis.

“Nosso foco é ser cada vez mais competitivo”, disse Okamura. “Isso passa por produtividade, por redução de custo e também por buscar novos mercados além do defensivo agrícola.”

Segundo ele, a empresa investiu em equipamentos importados da Alemanha para triturar e separar tampas pós-consumo por cor, o que reduziu entre 5% e 10% o custo final desses materiais.

A companhia também começou a preparar sua liderança para aplicações futuras de inteligência artificial nas áreas de captação de materiais, produção e controle de qualidade.

Um sistema raro no mundo

O Sistema Campo Limpo se consolidou como referência internacional porque combina escala, respaldo legal e reaproveitamento industrial. Em 2025, destinou corretamente cerca de 76 mil toneladas de embalagens vazias de defensivos agrícolas, um crescimento de 11% em relação a 2024, com 92% do material encaminhado para reciclagem.

Além da Campo Limpo, outras nove empresas participam da força-tarefa de reciclagem dos diferentes materiais recebidos pelo sistema. A estrutura ainda conta com 424 unidades de recebimento em 25 estados e no Distrito Federal, além de 4.795 recebimentos itinerantes.

Desse total, 65 mil toneladas foram especificamente de plásticos de embalagens de defensivos agrícolas. Segundo Okamura, o volume representa algo próximo da metade de tudo o que é reciclado desse material no mundo.

“Segundo dados de mercado, o mundo recicla 120 mil toneladas de plástico de embalagens de defensivos. Nós, aqui no Brasil, vamos reciclar 65 mil toneladas neste ano. Proporcionalmente, isso representa algo próximo da metade de todo o plástico de embalagem de defensivo agrícola reciclado no mundo”, afirmou.

Mesmo assim, para Okamura, o diferencial não está apenas em recolher embalagens. Está em transformá-las em novos produtos, inclusive em novas embalagens para o próprio setor.

“Não é só um sistema de coleta”, disse Okamura. “É um modelo que consegue dar destinação correta e ainda gerar valor econômico a partir desse material.”

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