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Com a adaptação ocupando o centro das negociações climáticas no Brasil, durante esta COP30, os dados mais recentes do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) mostram queda no financiamento para adaptação em meio a pressões geopolíticas e econômicas crescentes. Isso ocorre em um momento em que os choques climáticos se tornam impossíveis de ignorar e especialistas alertam que a estrutura financeira mundial não foi construída para lidar com o que vem pela frente.
No lançamento do Adaptation Gap Report 2025: Running on Empty, a diretora executiva Inger Andersen afirmou que “todas as nações estão enfrentando impactos climáticos”. O relatório estima que os países em desenvolvimento precisarão de US$ 310 a US$ 365 bilhões por ano até 2035, valor equivalente entre R$ 1,89 trilhão e R$ 2,22 trilhões. Enquanto isso, os fluxos internacionais públicos reais caíram de US$ 28 bilhões em 2022 (R$ 171 bilhões) para US$ 26 bilhões em 2023 (R$ 159 bilhões).
Os choques físicos deixaram de ser eventos isolados e passam a se sobrepor entre estações e regiões. O calor intensifica a seca, a seca eleva o risco de incêndios e tempestades atingem infraestruturas fragilizadas. Por uma década, a adaptação foi tratada principalmente como agenda de equidade ou imperativo humanitário. Mas os dados deste ano e a visão cada vez mais sistêmica apresentada por especialistas sugerem que o mundo está subfinanciando os sistemas que sustentam a estabilidade macroeconômica e financeira.
Um Risco Sistêmico Ainda Invisível para o Sistema Financeiro
Em um documento apresentado na COP30, o economista climático Delton Chen descreve os danos climáticos como uma forma de “externalidade sistêmica”, em que choques físicos se propagam por balanços e cadeias de suprimentos mais rápido do que os modelos convencionais conseguem captar. Ele argumenta que os impactos climáticos se comportam mais como contágio financeiro transfronteiriço do que como riscos localizados.
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Delton Chen, economista climático
Pesquisas de Nicola Ranger, da London School of Economics, reforçam essa visão. Ela e a coautora Emma O’Donnell afirmam que florestas, bacias hidrográficas e outros ecossistemas são infraestrutura macrocrítica que, se degradada, pode desencadear “choques econômicos globais em cascata maiores do que a crise financeira global de 2008”. A proposta delas, a criação dos Global Systemically Important Natural Systems (G-SINS), espelha a forma como reguladores tratam bancos considerados grandes demais para falhar.
As implicações para o financiamento da adaptação são transparentes. Subfinanciar resiliência constitui uma falha de gestão de risco sistêmico, não um problema orçamentário.
Por Que a Adaptação é Penalizada pela Arquitetura Financeira Atual
Natalie Unterstell, presidente do instituto brasileiro de políticas climáticas Talanoa, afirma que o problema central é estrutural. “Ainda estamos administrando riscos climáticos do século 21 com uma tubulação financeira do século 20”, disse ela em Belém.
Países que investem em resiliência podem enfrentar condições de mercado mais duras. Ela afirma que eles podem ser “penalizados em termos de custos de empréstimos mais altos, limites mais rígidos de sustentabilidade da dívida ou menor confiança dos investidores”. Para muitos países em desenvolvimento, essas dinâmicas se chocam com finanças públicas já pressionadas. As perdas climáticas crescentes competem diretamente com os orçamentos de saúde, educação e infraestrutura, impondo escolhas difíceis que enfraquecem a resiliência de longo prazo.
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Natalie Unterstell, presidente do instituto brasileiro Talanoa
Natalie cita duas reformas de impacto imediato. Redefinir a adequação de capital dos bancos multilaterais para que investimentos em resiliência sejam tratados como redutores de risco, liberando “dezenas de bilhões em espaço”, e criar “facilidades de garantias agrupadas e estabilização cambial” para evitar que a adaptação aprofunde o endividamento.
A preocupação dela está alinhada ao alerta do Adaptation Gap Report de que a meta do Pacto Climático de Glasgow de US$ 40 bilhões por ano até 2025 (R$ 244 bilhões) não será cumprida, nem a meta mais recente de pelo menos US$ 300 bilhões por ano até 2035 (R$ 1,83 trilhão) para mitigação e adaptação. Inger Andersen foi direta ao dizer que “nenhuma dessas metas está sequer perto do suficiente”. O Pnuma estima que o setor privado poderia contribuir com até US$ 50 bilhões por ano (R$ 305 bilhões), dez vezes sua contribuição atual.
Um Plano para Reorganizar o Sistema Financeiro
O Baku to Belém Roadmap afirma que a resiliência deve ser integrada ao fluxo global de capitais, não tratada como nicho de financiamento ao desenvolvimento. Ele descreve cinco áreas de reforma, incluindo espaço fiscal, redesenho de instrumentos, regras prudenciais, coordenação e capital concessionário, e sugere que levantar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 (R$ 7,96 trilhões) é viável com um redesenho sistêmico.
Isso se alinha à visão de Natalie de que “até que a resiliência apareça nos balanços, a ‘consciência’ não moverá capital”. Ela lembra que bancos centrais e supervisores “ainda estão na fase de diagnóstico”.
O roteiro também destaca instrumentos não relacionados à dívida como prioridade. Unterstell vê convergência dizendo que “há uma boa oportunidade se o Roadmap for transformado em plano de implementação, e não apenas relatório”. Mas o sucesso dependerá de articulação política. “Se o Brasil transformar a COP30 em uma coalizão pela arquitetura, e não por promessas, terá mudado o jogo”, afirmou.
Fundos e Recursos Públicos: Essenciais, mas Insuficientes
Uma análise recente da ClimateWorks Foundation mostra que o financiamento filantrópico atingiu o recorde histórico de US$ 873 milhões (R$ 5,32 bilhões), mas permanece distante do necessário. O número de fundações que financiam adaptação cresceu 55%, mas isso não corrige uma falha estrutural de mercado. O financiamento público climático continua pressionado, o que torna instituições como o Green Climate Fund (GCF) essenciais para reduzir a lacuna.
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Henry Gonzalez, diretor de investimentos do GCF
Como explica Henry Gonzalez, diretor de investimentos do GCF, “embora haja progresso, o financiamento da adaptação ainda fica aquém. É exatamente por isso que o Green Climate Fund existe, para assumir esses riscos, investir onde outros não investem e tornar a resiliência climática uma oportunidade investível”.
O GCF comprometeu US$ 2,2 bilhões em 2024 (R$ 13,4 bilhões), cerca de 8% do financiamento público global para adaptação, e hoje administra um portfólio de US$ 19 bilhões (R$ 115 bilhões). Mesmo assim, esse ritmo é insuficiente diante da escala do risco físico. “A dimensão da crise exige muito mais”, afirmou Gonzalez.
Por Que o Mercado Sozinho Não Fechará a Lacuna
Como explica Claire Habron, diretora executiva da Howden Foundation, “o caso econômico para investir em adaptação e resiliência está bem definido. Um relatório recente do WRI calcula que cada dólar investido em adaptação gera retorno de 10 dólares”. Ela afirma que barreiras estruturais ainda limitam o investimento privado, entre elas o fato de que benefícios de longo prazo raramente aparecem na taxa interna de retorno de projetos, prêmios de percepção de risco elevam custos de empréstimos e poucas instituições financeiras têm mandatos que valorizam perdas físicas evitadas ou os benefícios potenciais da adaptação.
Como resultado, muitos investimentos de alta rentabilidade permanecem subvalorizados. Natalie é direta sobre esse desafio. “Precisamos parar de tratar isso apenas como questão de equidade. Agora é um problema de estabilidade macroeconômica.”
O Sucessor Ausente de Glasgow
Uma das preocupações mais marcantes do relatório do Pnuma é a ausência de um mecanismo pós-2025 para adaptação. “Agora estamos à beira do precipício do financiamento da adaptação”, disse Natalie. “Com o término da promessa, não há mecanismo sucessor, nem fluxo previsível, nem estrutura que impeça os países de retroceder ao ciclo de entrega insuficiente.”
Um sucessor é essencial porque a adaptação opera em horizontes longos. “Mesmo com orçamentos apertados e prioridades concorrentes, a escolha inteligente é investir em adaptação agora”, disse Andersen. “É pagar agora ou pagar muito mais depois.”
O Imperativo Econômico da Ação Urgente
Choques físicos já contribuem para volatilidade inflacionária, estresse nos mercados de seguros, rebaixamentos de crédito soberano e interrupções de cadeias de suprimentos. A perda de segurabilidade transfere risco climático de volta para famílias e governos, ampliando a exposição fiscal e a fragilidade macrofinanceira. Pesquisas citadas por Ranger e O’Donnell mostram que a degradação da natureza pode impor perdas de PIB comparáveis às de grandes crises financeiras.
Os mesmos investimentos que reduzem esses choques também criam oportunidades. Natalie destaca medidas que “conectam mitigação e adaptação como inseparáveis, como eficiência de resfriamento, controle de enchentes baseado na natureza e agricultura inteligente para o clima”. Essas medidas geram dividendos de resiliência enquanto apoiam reduções de emissões, uma combinação cada vez mais buscada por investidores.
Harald Heubaum, da SOAS University of London, um dos coautores do estudo do WRI, afirmou que a resiliência “é um motor quantificável de crescimento e prosperidade compartilhada, não apenas uma proteção contra perdas decorrentes das mudanças climáticas”.
Um Ponto de Inflexão Financeiro
Com as negociações em andamento em Belém, o financiamento da adaptação passa de preocupação periférica para pilar central da estabilidade global. O apelo de Andersen é direto. “Precisamos de um esforço global para abastecer o tanque de financiamento da adaptação com recursos públicos e privados.”
Os custos do atraso aumentam, os riscos se acumulam e a arquitetura que rege os fluxos globais de capital já não atende ao momento. Hoje, a adaptação se torna um dos temas macrofinanceiros mais importantes da década.