A economia brasileira enfrenta um momento de incerteza provocado pela combinação de conflitos internacionais e desequilíbrios fiscais internos. O alerta é de José Eustáquio, economista e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que aponta riscos severos para a logística, o preço da energia e os custos globais.
O cenário de instabilidade no Oriente Médio, especialmente entre Irã e Israel, atinge diretamente o Estreito de Ormuz, por onde passa 21% do petróleo mundial. Segundo o pesquisador, mesmo sem um fechamento total da via, o aumento no valor dos fretes e dos seguros de navegação encarece insumos fundamentais para a agricultura, como o diesel e os fertilizantes.
Internamente, a mudança na política fiscal brasileira agrava o quadro. O economista explica que o atual governo priorizou o ajuste pelo lado das receitas, e não pela redução de despesas, o que pressiona os índices inflacionários e obriga o Banco Central a manter a taxa de juros em patamares elevados para conter os preços.
Essa dinâmica prejudica o investimento produtivo, frisa, uma vez que o crédito se torna proibitivo para o produtor rural. “O agricultor que precisa comprar uma colheitadeira, uma máquina, fica inviável, porque o custo é muito grande. Ou ele compra à vista ou ele não compra”, analisa Eustáquio em entrevista ao programa Direto ao Ponto.

Desafios do cenário fiscal
A transição do teto de gastos para o novo arcabouço fiscal é apontada como um divisor de águas para a dinâmica econômica recente. De acordo com o economista, a lógica atual de sustentar o crescimento via aumento de gastos públicos tende a gerar resultados apenas no curto prazo, resultando em inflação e necessidade de juros altos logo em seguida.
Eustáquio recorda que, durante a pandemia, o Brasil adotou uma política de redução de despesas e incentivo ao setor privado, o que permitiu uma recuperação rápida em formato de “V”. Ele pondera que, nos últimos três anos, o cenário mudou porque “o governo já vinha gastando mais do que podia. Eu costumo falar o seguinte: nós, como cidadão ou mesmo governo, não podemos dar o passo maior do que as pernas”.
Outro ponto crítico levantado pelo pesquisador é o impacto no Plano Safra. Embora os valores anunciados pelo governo sejam vultosos, o economista ressalta que grande parte dos recursos depende do mercado privado. Com indicadores negativos e juros na casa dos 14,75%, a oferta de crédito diminui, afetando diretamente a capacidade produtiva de médio e longo prazo.
No que tange aos combustíveis, a margem de manobra do governo para reduzir preços é considerada baixa. Com a Petrobras respondendo por 40% da composição do preço do diesel e os impostos federais representando apenas 5%, Eustáquio defende que medidas pontuais de subvenção não resolvem o problema estrutural e podem distorcer o mercado.
A solução, segundo o especialista do Ipea, passa por reformas que aumentem a produtividade e incentivem a desoneração permanente. “Redução de imposto, fazer uma política pró-mercado, ou seja, aumento produtividade”, conclui.
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