A inteligência artificial deixou de ser promessa para se tornar uma força concreta que reorganiza a sociedade. Na educação brasileira, ela chega cercada de expectativas, como a personalização do ensino, mas também de riscos que vão da superficialidade do aprendizado, sobretudo entre os mais jovens, a impactos diretos no mercado de trabalho.
O tema educação ganhou ainda mais centralidade com a renovação do Plano Nacional de Educação (PNE).
Nesse contexto, o uso de inteligência artificial em escolas e universidades passou a ser debatido, inclusive recentemente, pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), que discute diretrizes para orientar sua aplicação no ensino.
A tecnologia como meio, não como fim
Enquanto a discussão busca estabelecer um filtro ético e pedagógico, nota-se que a revolução tecnológica nas salas de aula já começou. Ferramentas que geram textos, resolvem problemas matemáticos e sugerem estratégias pedagógicas estão no cotidiano escolar. Mas há um equívoco perigoso: confundir acesso à tecnologia com avanço educacional.
O Brasil ainda enfrenta déficits básicos de aprendizagem. Sem resolver essas lacunas, a inovação pode criar apenas uma “modernização de superfície”.
Esse desafio se estende também aos professores, que demandam atualização constante para acompanhar uma geração mais digitalizada, conectando conhecimento e prática em sala de aula. O desafio é duplo: garantir competências fundamentais e, ao mesmo tempo, preparar alunos para um mundo em transformação.
A personalização do ensino, uma das grandes promessas dessas ferramentas disruptivas, também tem limites. Ela só funciona com uma base sólida de aprendizagem; sem isso, pode mascarar deficiências em vez de resolvê-las.
Em um ambiente de abundância informacional, o pensamento crítico e o letramento digital tornam-se centrais. A tecnologia é uma oportunidade histórica, mas também expõe fragilidades: sem intenção pedagógica e investimento consistente, pode aprofundar desigualdades.
Estudo de Daniel Duque (FGV Ibre) mostra que a IA generativa reduziu em cerca de 5% as chances de emprego de jovens entre 18 e 29 anos em áreas tecnológicas, além de provocar uma queda de 7% na renda desde 2022.
Os recém-formados, porta de entrada do mercado, são os mais afetados ao disputar espaço com sistemas capazes de executar tarefas iniciais.
Outros relatórios recentes, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em parceria com o Banco Mundial, afirmam que cerca de 40% dos empregos em todo o mundo podem ser afetados pela Inteligência Artificial (IA).
Na América Latina e no Caribe, estima-se que até 38% dos postos de trabalho sofram essa influência, com 14% vendo um aumento de produtividade e 5% correndo risco real de eliminação.
Esse ponto de inflexão não impacta apenas as perspectivas dos novos profissionais; os mais experientes também precisarão se adaptar rapidamente, sob risco de perder relevância frente a gerações mais familiarizadas com essas ferramentas.
O resultado é um desalinhamento geracional que pode comprometer trajetórias inteiras, com efeitos duradouros sobre renda e produtividade.
A ponte necessária entre escola e setor produtivo
Esse cenário escancara um problema antigo: o distanciamento entre escola e mercado. Aproximar a educação da vida real deixa de ser opção e passa a ser necessidade estratégica.
Setores como agronegócio, indústria automotiva, aeronáutica, farmacêutica e energia, dentre os mais inovadores hoje, já demonstram como a tecnologia transforma rapidamente as dinâmicas produtivas.
Intensificar a aproximação desses setores com a educação é fundamental para reduzir a distância entre o que se ensina e o que se exige na prática. O envolvimento dessas e de diversas outras frentes precisa ser ampliado de forma consistente, consolidando uma conexão ainda mais efetiva entre formação e realidade produtiva.
Como representante de uma associação da sociedade civil que atua na conexão entre educação e setor produtivo, reforço o convite para um engajamento mais ativo de empresários e lideranças. Não faltam iniciativas capazes de aproximar esses dois mundos. Precisamos garantir o “brilho nos olhos” dos jovens, despertando interesse, propósito e perspectiva de crescimento.
Esse movimento começa na sala de aula, com professores preparados e valorizados em um novo modelo de formação pedagógica, modelo este que estamos prontos para apresentar ao setor produtivo, promovendo uma interação mais efetiva entre educação e mercado.
Trata-se de formar talentos, mas também de resgatar perspectivas de realização, bem-estar e propósito de vida, dimensões que vêm se perdendo nas novas gerações.
Em um cenário cada vez mais influenciado por tecnologias disruptivas, o desafio é claro: encontrar o equilíbrio entre inovação, desenvolvimento humano e sentido de futuro.
*Leticia Jacintho é produtora rural e presidente da associação De Olho no Material Escolar. Também é formada em administração de empresas. Atuou no mercado financeiro, na área de captação e fundos, e, no Agronegócio, e integra o Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias de São Paulo (Cosag/Fiesp).
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