A aposta no apelo da proteína que por anos ficou concentrada em suplementos, bebidas e barras agora aparece também em pães, queijos e chocolates. Companhias com escala, como Bimbo e Vigor, estão usando a proteína para renovar categorias tradicionais. Marcas menores, como a Luckau, veem no mesmo apelo uma forma de ganhar espaço em chocolates funcionais e snacks voltados ao bem-estar.
Bebidas, iogurtes e barras proteicas abriram caminho para essa expansão. Segundo a Euromonitor, os produtos com proteína adicionada devem fechar 2026 com crescimento de cerca de 50%, enquanto as barras de proteína acumulam projeção de alta de 26% entre 2022 e 2026. Nas bebidas lácteas, a Nielsen Scantrack, em parceria com a dunnhumby, registrou aumento de 41% no consumo de versões UHT proteicas.
O salto mais recente aparece nos dados da Scanntech em parceria com a McKinsey. Entre janeiro e outubro de 2025, o whey protein cresceu 124% no varejo brasileiro, enquanto a creatina avançou 89%. Também houve alta em cereais proteicos, iogurtes proteicos, produtos pré e pós-treino e leites saborizados com proteína.
São esses números que mostram por que a indústria passou a levar proteína como chamariz para mais produtos de compra recorrente. Em vez de depender apenas do consumidor que já compra suplementos, as empresas tentam inserir o atributo em refeições e lanches do dia a dia.
Bimbo leva proteína para o pão
Na Bimbo Brasil, dona de marcas como Pullman, Plusvita, Seven Boys, Artesano, Ana Maria e Wickbold, a aposta aparece no lançamento do Pullman/Plusvita Vital Sabor Mais Proteína. O produto entrega 12 gramas de proteína a cada duas fatias e tem teor de fibras duas vezes maior que a versão tradicional de pão.
A escolha do pão dá escala à estratégia. O produto está no café da manhã, nos lanches intermediários e na rotina das famílias. Para uma companhia líder em panificação, adicionar proteína à categoria é uma forma de renovar um item básico sem afastá-lo do consumo cotidiano.
“Estamos ampliando a nossa atuação para responder, também, a uma nova demanda do consumidor, diz André Ramello, vice-presidente de Marketing, Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento da Bimbo Brasil. A ideia, diz ele, é construir um portfólio capaz de atender diferentes necessidades de consumo sem abrir mão do sabor, da conveniência e dos hábitos já consolidados no dia a dia. “As pessoas buscam maneiras mais práticas e acessíveis de incorporar fibras e proteínas à alimentação”, afirma.
Para o executivo, o desafio é aproximar uma marca tradicional de um território mais ligado à nutrição sem perder alcance. “Nosso papel não é transformar o pão em um produto de nicho ou restrito ao universo fitness, mas ampliar sua entrega de valor dentro de uma alimentação equilibrada e democrática. Considerando que o pão representa cerca de 9% a 10% da ingestão energética diária do brasileiro, cada inovação nesse segmento tem potencial de gerar impacto em larga escala e contribuir para escolhas mais equilibradas na rotina alimentar.”
O lançamento se conecta à estratégia da Bimbo no Brasil. O grupo lidera há mais de duas décadas o segmento de panificação no país, conta com mais de 5 mil colaboradores e 14 unidades fabris, que abastecem mais de 190 mil pontos de venda. A incorporação da Wickbold reforçou a presença da companhia em categorias associadas a produtos saudáveis e integrais.
No primeiro trimestre de 2026, o Grupo Bimbo reportou receita líquida de 100,3 bilhões de pesos mexicanos. Sem os efeitos cambiais, o faturamento avançou 4,8%. O lucro líquido chegou a 2,36 bilhões de pesos mexicanos, ou US$ 134,8 milhões, alta de 32,3% em relação ao mesmo período de 2025. Na América Latina, excluindo o México, a receita cresceu 5,9%, ou 15,1% em base comparável, também sem efeitos cambiais.
O Brasil tem papel relevante na estratégia global da Bimbo, segundo Rafael Lopez, diretor da Bimbo Brasil. O executivo afirma que a operação brasileira combina capilaridade, capacidade de execução e marcas fortes, fatores que ajudam o grupo a acompanhar as mudanças de consumo e sustentar o crescimento no país. “O Brasil é um mercado absolutamente estratégico para o Grupo Bimbo”, afirma..
Vigor faz do parmesão um snack proteico
Na Vigor, a aposta no apelo da quantidade de proteína vem pela Faixa Azul, marca com mais de 80 anos no segmento de queijos especiais. A empresa entrou no mercado de snacks com os Chips de Parmesão Faixa Azul, feitos com 100% de queijo parmesão, assados ao forno e vendidos nos sabores Parmesão, Cebola & Salsa e Pimenta & Salsa.
O produto chegou ao mercado no fim de 2025. Em janeiro de 2026, com a expansão das vendas para todo o Brasil, o faturamento da linha quadruplicou, segundo a companhia. A meta agora é dobrar o volume comercializado até agosto.
Segundo Cesar de Los Santos LLamas, CEO da Vigor Alimentos, os chips de parmesão foram criados para ampliar as ocasiões de consumo da Faixa Azul e levar os queijos especiais da marca para o formato de snack. “Levamos ao consumidor toda a qualidade de um parmesão brasileiro reconhecido mundialmente, para o formato de um snack forneado, unindo sabor, conveniência e praticidade”, afirma.
Cada pacote de 35 gramas tem 16 gramas de proteína. O produto também é zero lactose e sem glúten, atributos que a companhia vê como cada vez mais valorizados por consumidores que buscam sabor, bem-estar e funcionalidade.
“Seguindo a tradição de inovação que faz parte da história de Faixa Azul, apresentamos o novo formato garantindo alinhamento às demandas do consumidor atual. É um produto com alto aporte proteico (16g de proteína por pacote de 35g), zero lactose e sem glúten, atributos cada vez mais valorizados por quem busca sabor aliado a bem-estar e funcionalidade”, diz o CEO.
Com o snack, a Vigor tenta levar o parmesão para momentos em que a Faixa Azul ainda não estava presente. O queijo, antes mais associado à mesa, às receitas e à finalização de pratos, passa a disputar o intervalo entre refeições, a mochila da academia e a gaveta do escritório.
Karina Dal Sasso, diretora de Marketing da Vigor Alimentos, afirma que o consumidor brasileiro passou a enxergar proteína não como suplemento, mas como um macronutriente desejável nos alimentos do dia a dia. “É um produto que nasce da escuta do que o consumidor já estava pedindo. Parmesão, que tem alta concentração de proteína, em formato prático para consumo ao longo do dia”, afirma.
O resultado inicial deu força à aposta da Vigor. Desde a expansão dos chips de parmesão para todo o Brasil, em janeiro, o faturamento da linha quadruplicou, segundo Cesar de Los Santos LLamas, CEO da Vigor Alimentos. A meta agora é dobrar o volume comercializado até agosto e consolidar o produto como uma alavanca de crescimento para a Faixa Azul. “A resposta do mercado reforça que estamos no caminho certo”, afirma.
Luckau mira chocolates funcionais
A Luckau, marca brasileira de chocolate saudável, é mais uma empresa que tem ampliado seu portfólio de olho no público fitness, em consumidores de produtos funcionais e em usuários de canetas emagrecedoras.
Na Naturaltech, a empresa apresentou a linha Wake Up, com snacks funcionais, incluindo a Creatina Bar, descrita pela marca como o primeiro bombom de chocolate com creatina do mundo. Cada unidade entrega 3 gramas de creatina monohidratada. A linha também inclui bombons proteicos com até 5,6 gramas de proteína por porção.
Os produtos mantêm o posicionamento da marca, com formulações sem adição de açúcar, zero lactose e zero glúten. A empresa tenta aproximar o consumo de chocolate de atributos buscados por quem compra produtos ligados a bem-estar, conveniência e suplementação.
Em 2025, a Luckau faturou R$ 16 milhões. Hoje, a receita mensal supera R$ 2 milhões. Com a nova linha, a expectativa da empresa é crescer 50% neste ano, segundo Raoni Costa, CEO da Luckau.
O caso da Luckau mostra o outro lado dessa corrida. Enquanto Bimbo e Vigor usam distribuição, escala e marcas consolidadas para levar proteína a produtos de maior alcance, empresas menores tentam ocupar espaços mais específicos, com lançamentos funcionais e comunicação voltada a nichos de consumo.