08/07/2026

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Trump, a Promessa dos 90 Dias e o Tarifaço Que Se Aproxima do Agro: Quem Ganha, Quem Perde

Sob uma faixa enorme com os dizeres “Lutando pelos agricultores americanos”, aliados próximos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se reuniram em uma fazenda perto de Chippewa Falls, no Wisconsin, para destacar as políticas agrícolas do governo. O evento aconteceu há um mês: foi na sexta-feira, 5 de junho, em um galpão da Custer Farms, fazenda de 2 mil hectares que produz soja e milho. No Wisconsin, cerca de 65% dos grãos colhidos vão para o mercado mercado internacional, com destaque para o Sudeste Asiático.

Naquele dia, Trump fez uma série de promessas aos agricultores. Disse que os custos com fertilizantes e energia cairiam em 90 dias. Também atribuiu ao seu governo alívio tributário, crescimento recorde das exportações agrícolas e falou do volume de US$ 12 bilhões destinados a produtores neste ano, contra os US$ 28 bilhões durante todo o seu primeiro mandato.

Mas o que esse prazo de 90 dias tem a ver com o prazo dado sobre as tarifas ao agro brasileiro, na próxima semana, dia 15 de julho? Passado um mês do evento em Chippewa Falls, na próxima semana o Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) deve decidir se aplica a tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, proposta em 1º de junho com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que dá poder ao governo do país de agir unilateralmente “contra práticas comerciais de outros países consideradas injustificáveis, desarrazoadas ou discriminatórias, e que restrinjam ou prejudiquem o comércio americano”.

Nesta segunda e terça-feira (6 e 7), ocorreu nos EUA uma audiência pública, a etapa final da investigação antes do anúncio do dia 15. A decisão da próxima semana sobre o tarifaço ao Brasil, um parceiro comercial relevante do agronegócio americano, cai bem no meio do período em que o presidente prometeu a um dos setores mais fiéis de sua base eleitoral que os custos das lavouras cairiam, não que subiriam.

O agro é historicamente um dos segmentos de maior apoio a Trump: em 2024 ele venceu em 78% dos 444 condados classificados como dependentes da agricultura. Não por acaso, neste 1º de julho, o Departamento de Agricultura (USDA) anunciou um programa de US$ 500 milhões para expandir a produção doméstica de fertilizantes, batizado de Fields. O mesmo pacote incluiu a suspensão temporária de direitos compensatórios sobre fertilizante fosfatado importado do Marrocos, anunciada por Trump alguns dias antes.

Cerca de 40 entidades e empresas brasileiras e norte-americanas se inscreveram na audiência pública. Do agro estavam Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA); o Conselho Brasileiro de Exportadores de Café (Cecafé); União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica); além representantes de outros setores, como a confederação das indústrias que estimou em US$ 14,9 bilhões o possível impacto das medidas sobre a economia do país.

A participação dos Estados Unidos nas exportações gerais brasileiras tem caído nos últimos anos, mas essa tendência não se repete no agronegócio: a dependência do setor em relação ao mercado americano ficou praticamente estável na última meia década, passando de 6,85% em 2020 (US$ 6,9 bilhões de um total de US$ 100,7 bilhões exportados ao mundo) para 6,74% em 2025 (US$ 11,4 bilhões de um total de US$ 169,1 bilhões), uma variação de apenas 0,11 ponto percentual.

Mas o que de fato importa é a mão dupla dessa equação: quanto maior a fatia que um produto brasileiro representa dentro do total que os Estados Unidos importam daquele mesmo produto, maior o poder de barganha do setor brasileiro. Por exemplo, na celulose e no suco de laranja, a imposição de sobretaxa encareceu o item para o consumidor americano a ponto de Trump recuar da medida ao perceber que a conta acabaria sobrando para o próprio eleitorado dele.

Não por acaso, uma lista de exceções do USTR poupou parte do agronegócio brasileiro da tarifa de 25%, incluindo, além do suco de laranja, a carne bovina, café não solúvel, cacau, castanha-do-pará, castanha de caju e frutas tropicais como abacaxi, manga, mamão e banana. O café solúvel, porém, ficou fora dessa isenção e pode ser taxado em 25%.

Confira os setores de dependência do mercado americano

Sebo bovino (bovino, ovino e caprino, utilizados em sabão, detergente e cosméticos)

  • 96% do que o Brasil exporta vai para os EUA
  • Representa quase 35% do que os EUA importam do produto
  • Risco para os EUA: encarecimento de sabão, detergente e cosméticos

Madeira de coníferas (pinheiro, araucária, que são madeiras macias utilizadas em construção civil e móveis)

  • 97,6% a 98% do que o Brasil exporta desse produto vai para os EUA
  • Isso representa 30% de tudo que os EUA importam dessa madeira
  • Fator de risco para os EUA: mesmo próximos do Canadá (grande produtor de coníferas), não é simples substituir 30% da importação rapidamente

Filé de tilápia

  • 95% do que o Brasil exporta vai para os EUA
  • Representa 28% do que os EUA importam do produto
  • Curiosidade citada no áudio: a tilápia é conhecida como “São Peter” (St. Peter’s fish) em parte dos EUA

Mel natural

  • 84% do mel exportado pelo Brasil vai para os EUA
  • Representa 15% do que os EUA importam do produto
  • Já sujeito a medida antidumping nos EUA (ou seja, já sobretaxado antes desta nova rodada)
  • Cadeia produzida majoritariamente por agricultura familiar, sobretudo no Piauí, um setor sem lobby estruturado em Washington para negociar isenções

Couros

  • Dependência moderada: 14% das exportações do setor vão para os EUA
  • Já em processo de diversificação para China e Itália
  • Máquinas e equipamentos (setor de maior valor agregado)
  • 9,5% das exportações do setor vão para os EUA

Açúcar e etanol

  • Apenas 2,5% das exportações do setor vão para os EUA

Pneus de borracha (para ônibus e caminhões)

  • Quase metade das exportações brasileiras desse item vai para os EUA
  • Mas representa menos de 5% do que os EUA importam do produto. E como são fabricados majoritariamente por multinacionais como a Pirelli, o impacto tende a ser mais diluído.

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