07/06/2026

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Quem Ganha, Quais São as Assimetrias e os Impactos

A entrada em vigor provisória do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia abre um novo paradigma econômico para a Argentina. Mais do que a tradicional exportação de bens, o tratado redefine o mapa dos investimentos, o papel dos serviços profissionais e expõe as profundas assimetrias setoriais entre os dois blocos.

Para Marcelo Elizondo, especialista em comércio exterior, o benefício real para as pequenas e médias empresas locais não é o convencional “exportar mais”, mas sim a integração: “Vejo oportunidades de investimento e alianças entre empresas europeias e argentinas que fortaleçam as PMEs argentinas, formando ecossistemas de atuação conjunta”.

Isso é especialmente relevante para um bloco historicamente fechado: a Argentina possui uma relação entre exportações e PIB de 16%, ante a média mundial de 30%. Segundo Elizondo, o acordo representa uma oportunidade de ingressar em um mercado “altamente importador” por meio da desburocratização e da convergência regulatória.

Horacio Pereira, pesquisador do Centro de Estratégias Internacionais de Governos e Organizações da Universidade Austral, complementa essa visão: “A oportunidade não está apenas em exportar mais, mas em atrair investimentos, produzir melhor e avançar na cadeia de valor”.

Da mesma forma, Gabriel Gamarra, diretor de Impostos e Assuntos Jurídicos da KPMG Argentina, destaca o impacto institucional do texto em áreas como desenvolvimento sustentável e inclusão social: “A convergência regulatória pode se transformar em um fator de melhoria da qualidade institucional, ao promover maior transparência, coerência normativa e estabilidade nas políticas públicas”.

Serviços profissionais: a estrada para a consultoria intercultural

Enquanto alguns setores industriais observam o processo com cautela, o setor de serviços enxerga uma oportunidade imediata para orientar empresas europeias que pretendem se estabelecer no país.

Natalia Facciolo, presidente da Mujeres Empresarias da FEBA, CEO da LUDMARC, líder comunitária da LATAM eTrade for Women e vice-presidente da Convergência Empresarial de Mulheres, destaca o papel das redes empresariais locais como porta de entrada para novos investimentos:

“Essa missão comercial nos permitiu ampliar nossa visão…desenvolver uma inteligência intercultural para receber empresas interessadas em se instalar em nosso país com o apoio de um parceiro estratégico… A FEBA reúne mais de 250 câmaras empresariais da província de Buenos Aires… e conta com a estrutura necessária para acompanhar uma empresa europeia que queira se estabelecer aqui com conhecimento real do território.”

Na área jurídica, Jimena Martin, advogada e empresária do setor metalúrgico, cofundadora e CEO da Baires Group, explica como o conhecimento regulatório se torna um ativo de alto valor:

“Como advogada, meu foco está em traduzir a complexidade normativa local em estruturas compreensíveis e previsíveis para investidores estrangeiros… O acordo União Europeia-Mercosul já é uma realidade. E, nessa realidade, há empresas europeias — especialmente dos setores industrial, energético e de infraestrutura — avaliando a Argentina como destino para investimentos ou parcerias comerciais sem conhecer o marco regulatório local… É justamente para isso que precisamos estar preparados.”

Clara Altamirano, fundadora e CEO da Claridad en Acción, ressalta a necessidade de uma leitura intercultural, humana e estratégica para consolidar esses investimentos:

“Para assessorar empresas europeias… primeiro precisamos desenvolver uma verdadeira compreensão intercultural: entender como elas negociam, como tomam decisões, o que valorizam e o que esperam de seus parceiros locais… Nenhum processo de internacionalização se sustenta sozinho. Vamos precisar de articulação entre profissionais, especialistas e empresas capazes de responder a padrões elevados.”

Vinhos versus azeite de oliva: os dois lados da moeda produtiva

Na economia real, os impactos são distintos. O setor vitivinícola adota uma postura cautelosa, mas confiante, especialmente em mercados estratégicos como o Brasil.

Magdalena Pesce, CEO da Wines of Argentina, afirma que a abertura deverá intensificar a concorrência no segmento premium diante dos vinhos brancos e rosés da França e de Portugal: “Nossa resposta é a narrativa ‘The Wine for Now’.”

Para Pesce, o acordo funciona como uma credencial internacional: “Ele elimina o estigma de sermos uma economia fechada e nos posiciona como um parceiro confiável dentro do bloco comercial mais exigente do mundo”.

Por outro lado, o setor de azeite de oliva acende um sinal de alerta. José Chediack, presidente da SolFrut, faz uma crítica estrutural baseada na desigualdade de condições gerada pelos subsídios europeus, especialmente em regiões como a Andaluzia, onde eles representam até 30% da renda dos produtores:

“O acordo expõe a produção argentina a competir diretamente com o maior produtor mundial — a Espanha — em condições profundamente desiguais. Não se trata de proteger ineficiências, mas de evitar uma competição estruturalmente injusta… Sem esse apoio estatal, grande parte dos olivais espanhóis não seria economicamente viável.”

Chediack alerta sobre o impacto que poderá pressionar os preços de referência no Brasil, motivo pelo qual defende mecanismos de salvaguarda e um estudo técnico independente sobre possíveis práticas de dumping.

Resistências políticas e incertezas

Em geral, o acordo não estará livre de atritos políticos nos mercados de destino. Facciolo relata as tensões observadas diretamente na França:

“As resistências virão dos setores que se sentem mais ameaçados por essa abertura. Na França, redes de supermercados anunciaram boicotes a produtos sul-americanos, enquanto pecuaristas denunciam concorrência desleal.”

Além disso, do ponto de vista técnico, Christian Fuciños, sócio-líder de Global Trade Advisory da Deloitte, adverte que o sucesso do acordo dependerá de como as empresas incorporarão essas novas regras às suas operações.

Já a Câmara de Exportadores da República Argentina (CERA) destaca que as oportunidades iniciais de exportação podem ser limitadas pelo tamanho reduzido das cotas que o Mercosul ainda precisa distribuir internamente, tendendo a deslocar o principal potencial do acordo para a atração de investimentos produtivos.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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