O cacau começa a avançar sobre áreas improváveis do Pará. Em Castanhal, município do nordeste paraense tradicionalmente associado à pecuária e distante do eixo histórico da produção cacaueira do estado, duas propriedades rurais vêm consolidando modelos produtivos que unem recuperação ambiental, rentabilidade elevada e agregação de valor.
Na Fazenda Monte Castelo, o produtor Osny de Azevedo Ramos apostou na conversão de áreas degradadas em sistemas agroflorestais de cacau e açaí e hoje produz amêndoas premiadas nacional e internacionalmente, e são donos de fabricação própria com a marca Caupé Chocolate Artesanal. Na Fazenda Dom Manoel, o casal Lia Fernandes Gomes e Manoel Gomes trocou o cultivo de hortifrúti por um sistema integrado de cacau, açaí e dendê, com foco na verticalização da produção e no agroturismo.
“Conservação e reflorestamento têm que estar aliados ao ganho financeiro do produtor, porque, do contrário, nunca vamos conseguir recuperar essas áreas”, afirma Osny de Azevedo Ramos.
As duas histórias revelam uma transformação silenciosa em uma região onde o cacau ainda é visto como novidade produtiva, mesmo dentro do maior estado produtor do país. Ambos produtores ganharam recente notoriedade na feira Chocolat Amazônia, que ocorreu em Belém (PA) em meados de abril.
A recuperação de uma terra considerada improdutiva
A história da Fazenda Monte Castelo começou a mudar em 2019. Até então, a área era marcada por décadas de pecuária extensiva e por sucessivas tentativas frustradas de implantação agrícola. A propriedade pertence a Norton Amador da Costa, 76 anos, mas foi sob a gestão do genro, Osny de Azevedo Ramos, 41 anos, que o projeto ganhou uma nova direção.
“Esta área onde vocês estão era, inicialmente, pasto [explica o produtor a um grupo de jornalistas, visitando a propriedade]; foi pasto por 40 anos. Meu sogro resolveu começar a plantar pimenta-do-reino, só que o solo estava tão degradado que a pimenta morreu nos dois primeiros anos”, relata Osny.
Cirurgião-dentista de formação, ele iniciou a transição para o agro após um problema de saúde que o afastou da profissão. Foi nesse período que recebeu de técnicos da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) a sugestão de apostar no cacau como ferramenta de recuperação do solo. O órgão é federal, vinculado ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), e visa o desenvolvimento sustentável da cacauicultura brasileira.
A partir dali, surgiu um modelo baseado na integração entre cacau e açaí. A lógica veio da própria floresta amazônica.
“Quando começamos a plantar o cacau, eu falei para o meu sogro: ‘A gente entra na floresta e vê o açaí próximo ao cacau’. Quando combinamos essas duas culturas, temos uma vantagem: renda nos dois semestres do ano”, afirma.
Enquanto o cacau produz principalmente no primeiro semestre, o açaí garante receita no segundo. Na prática, o sistema reduz a exposição do produtor às oscilações de mercado e mantém fluxo financeiro contínuo dentro da propriedade.
O salto para o cacau premium

Desde o início, a Fazenda Monte Castelo optou por trabalhar com fermentação e secagem das amêndoas, mirando o mercado de cacau fino. A decisão foi tomada sem que Osny sequer soubesse que existia comercialização de cacau comum sem fermentação.
“Nós não sabíamos que o cacau era vendido sem ser fermentado; não existia essa opção para nós. Isso gerou uma glória, pois já começamos focados na qualidade”, afirma.
O resultado apareceu rapidamente. Na primeira participação em um festival especializado, a fazenda conquistou medalha de ouro diante de produtores tradicionais do setor.
“No meu terceiro ano de plantio, na minha primeira colheita, resolvi enviar uma amostra de amêndoas para o festival. Estavam lá campeões brasileiros e mundiais e, no momento da entrega da medalha de ouro, chamaram o nosso nome. Eu quase caí para trás”, relembra.
Hoje, o diferencial da propriedade está justamente na agregação de valor. Enquanto o cacau convencional é comercializado na região entre R$ 9 e R$ 10 por quilo, o cacau fino produzido na fazenda alcança preços entre R$ 40 e R$ 55 por quilo.
A próxima aposta envolve o consórcio entre cacau, açaí e baunilha. A projeção é atingir faturamento próximo de R$ 200 mil por hectare.
“O cultivo da baunilha é experimental ainda. Se der certo, podemos atingir um faturamento por hectare jamais imaginado por qualquer produtor no Brasil”, diz Osny.

A Fazenda Monte Castelo possui atualmente 22 hectares cultivados com cacau e açaí. Outros 10 hectares estão em implantação neste ano, dentro de um plano gradual de expansão até alcançar 50 hectares produtivos. A área total da fazenda chega a 400 hectares, sendo 200 agricultáveis.
A produtividade também chama atenção para os padrões da região do nordeste paraense. O cacau híbrido da Ceplac registra média de 1,7 quilo por planta ao ano em um sistema com aproximadamente mil plantas por hectare. Já o açaí supera 14 toneladas por hectare.
Paralelamente ao cultivo agrícola, a fazenda mantém um sistema intensivo de pecuária confinada. O esterco produzido pelo gado retorna integralmente para as lavouras, fortalecendo o manejo orgânico.
“Hoje, 70% de toda a adubação que fazemos é orgânica. Até o final deste ano, quero chegar a 100% para iniciar o processo de certificação”, afirma Osny.
Para ele, a recuperação ambiental só se sustenta quando existe retorno financeiro ao produtor.
“Conservação e reflorestamento têm que estar aliados ao ganho financeiro do produtor, porque, do contrário, nunca vamos conseguir recuperar essas áreas.”
O projeto que mira a agricultura familiar
Além da produção comercial, Osny vem desenvolvendo um sistema experimental de cacau superadensado voltado à agricultura familiar. Inspirado em experiências do Equador e em pesquisas da Ceplac, o modelo trabalha com até cinco mil plantas por hectare, cinco vezes mais do que o sistema convencional.
O projeto-piloto está sendo implantado em parceria com agricultores quilombolas da região e utiliza clones de alta produtividade, como CCN-51 e PS-1319.
“Estamos tentando desenvolver aqui na Amazônia um plantio de alta densidade com alto retorno para a agricultura familiar”, afirma.
A meta é alcançar produtividades entre seis e oito toneladas por hectare, criando um modelo economicamente viável para pequenas propriedades rurais.
A virada da Fazenda Dom Manoel

A poucos quilômetros da Fazenda Monte Castelo, a Fazenda Dom Manoel construiu uma trajetória diferente, mas igualmente baseada na transformação produtiva por meio do cacau.
Durante mais de 15 anos, Manoel Gomes e Lia Fernandes Gomes trabalharam com culturas perecíveis, fornecendo mamão, maracujá e limão para redes supermercadistas. A instabilidade da atividade levou o casal a buscar outro caminho.
“De repente, vimos que as coisas não estavam mais fluindo como deveriam e precisávamos tomar outro rumo. O cacau não era uma cultura comum aqui na região, mas fui buscá-lo pela sua história e pelo que ele poderia proporcionar”, afirma Manoel.
Hoje, a propriedade soma 35 hectares cultivados com cacau em sistemas agroflorestais integrados ao açaí e ao dendê. O modelo opera com cerca de mil pés por hectare e produtividade média de dois quilos de amêndoas por planta ao ano.
“Não existe nenhuma cultura que permaneça com alta rentabilidade os 12 meses do ano. Você sempre precisa de outra para ter equilíbrio financeiro; por isso o cacau e o açaí se completam”, diz Manoel.
Da amêndoa ao chocolate

Assim como ocorre na Fazenda Monte Castelo, a Fazenda Dom Manoel também trabalha protocolos de fermentação e secagem voltados ao mercado premium. Parte importante da produção abastece a Gaudens Chocolate, uma das referências em chocolates artesanais amazônicos.
“O mercado está mais exigente e o consumidor mais cauteloso. Mesmo que a amêndoa não vá para uma fábrica de chocolate, ela precisa seguir um protocolo de qualidade”, afirma Manoel.
A estratégia agora é avançar na verticalização da cadeia. O casal pretende implantar uma fábrica própria de chocolate e transformar a fazenda em espaço de visitação rural e educação ambiental.
“Nosso propósito é fabricar o chocolate e receber visitas. Vai ser um negócio muito bom trazer alunos para conhecerem o que é um pé de cacau de verdade”, afirma Lia.
Segundo ela, o projeto deve começar a sair do papel nos próximos dois anos. “Não é um projeto rápido, mas já estamos nos preparando”, afirma. Enquanto isso o cacau amazônico do casal abastece a produção da Gaudens, que é uma das grandes referências em chocolates artesanais no Pará.
Uma nova fronteira do cacau no Pará
As experiências das duas propriedades ajudam a explicar um movimento crescente dentro da cacauicultura paraense: o avanço da cultura sobre áreas antes dominadas exclusivamente pela pecuária ou por sistemas agrícolas convencionais.
Mais do que ampliar área plantada, os produtores apostam em um modelo baseado em qualidade, diferenciação de mercado e integração entre culturas.
Na Fazenda Dom Manoel, cerca de 25 famílias dependem diretamente da atividade agrícola desenvolvida na propriedade.
Para Lia Fernandes Gomes, o cacau deixou de ser apenas uma alternativa econômica.
“O cacau é chocolate, é amor. É uma coisa muito interessante: você se apaixona pela cultura e acaba pegando o ‘vício’ do cacau.”