Você provavelmente ouvirá o Château Angelus antes mesmo de vê-lo. Três vezes ao dia, os 20 sinos de sua torre, o maior deles pesando mais de 680 quilos, podem ser ouvidos muito além dos vinhedos ondulados de Saint Émilion, na França.
Uma das vinícolas mais prestigiadas de Bordeaux, o Château Angelus mostrou recentemente uma nova adega para seu Grand Vin. O espaço subterrâneo se inspira na sensação de transcendência proporcionada pelas catedrais, com paredes escalonadas de pedra clara formando camadas horizontais ao redor do ambiente.
Óculos circulares foram abertos no teto, de onde pendem 22 cubas invertidas em formato de sino, feitas de carvalho, aço inoxidável e concreto. Mesmo a cerca de 7 metros abaixo da terra, o olhar é constantemente direcionado para cima.
Outra adega que armazena os vinhos exclusivos da casa
O projeto marcante, assinado pelo arquiteto Olivier Chadebost — responsável também pelas adegas ultramodernas do Chateau d’Yquem, em Sauternes, e do Cheval Blanc, em Saint Émilion — não tem apenas função estética. Ele permite uma infusão delicada durante o processo de vinificação e desacelera a extração das uvas cabernet franc e merlot características da propriedade. A adega será inaugurada com a safra de 2026.
A Vinícola
A nova estrutura dá continuidade ao uso de imagens religiosas pelo Château Angelus. A torre de sinos e o sino presente em todos os rótulos são as referências mais evidentes. O pavilhão de entrada é chamado de nave, com teto arqueado em carvalho francês, iluminação dramática voltada para cima e janelas ogivais. As duas áreas de recepção foram decoradas como confessionários.
Na nave, houve uma degustação dos vinhos Carillon e Angelus, ambos da safra de 2016. Composto por 90% de merlot e 10% de cabernet franc, o suculento Carillon apresentava notas intensas de frutas negras, cerejas e framboesas, além de taninos macios.
O anfitrião serviu o Angelus em um decanter em formato de sino gravado com o logotipo e o emblema da marca. O excelente Angelus, composto por 60% de merlot e 40% de cabernet franc, sendo o vinho mais produzido do château, mostrava complexidade, com notas de especiarias, pimenta, frutas negras profundas, chocolate e tabaco.

O vinho mais exclusivo do Château Angelus é o Hommage à Elisabeth Bouchet. O bisavô da presidente e CEO Stéphanie de Boüard Rivoal, Maurice de Boüard de Laforest, plantou vinhas de cabernet franc para sua esposa, e hoje elas representam 47% do vinhedo. A cuvée recebeu o nome dela e, quando produzida, é limitada a 1.000 garrafas.
O Château Angelus pode ser considerado o vinho preferido de James Bond: apareceu em Casino Royale, Spectre e 007: Sem Tempo para Morrer. Uma das 225 garrafas magnum da edição limitada 007 Angelus Premier Grand Cru Classé fica exposta em uma vitrine de vidro na nave.
A Família
Administrado por oito gerações da família de Boüard de Laforest, o Château Angelus opera desde 1782. Hubert de Boüard comandou a propriedade por mais de 30 anos, acumulando seus maiores reconhecimentos. Sua filha, Stéphanie de Boüard Rivoal, assumiu a direção em 2012, tornando-se a terceira mulher a administrar a casa em seus quase 250 anos de história.

Enquanto continua produzindo os renomados vinhos, Stéphanie, ex-banqueira, levou uma visão empresarial aguçada para a operação. Além da nova adega, converteu a propriedade para a agricultura orgânica e expandiu os negócios para o setor de hospitalidade.
Em 2013, adquiriu o Le Logis de la Cadène, o restaurante mais antigo de Saint Émilion, e acrescentou uma pousada de quatro suítes, a La Maison de la Cadène, em 2016, seguida pelo hotel L’Auberge de la Commanderie, nas proximidades, em 2017. Depois, em 2019, comprou o renomado restaurante Le Gabriel, localizado na icônica Place de la Bourse, na cidade de Bordeaux.
Seu passo seguinte, em 2022, foi adicionar uma fazenda de aproximadamente 8,9 hectares em Saint Loubès, cerca de 32 quilômetros a oeste de Saint Émilion, para cultivar legumes, frutas e aves destinados aos restaurantes. Ela deu ao local o nome de La Ferme 1544 — referência ao ano em que a família de Boüard se estabeleceu pela primeira vez na região.
Outro Sabor
Sem um convite VIP para visitar a vinícola, a melhor alternativa é almoçar ou jantar no Le Logis de la Cadène, localizado a cerca de 4,8 quilômetros da propriedade.
Na vila medieval protegida pela UNESCO, uma rua de paralelepípedos leva até o restaurante no topo da colina, inaugurado em 1848. Nos meses mais quentes, glicínias roxas florescem na pérgola do terraço, enquanto, no frio, um salão com poltronas e lareira se torna um local acolhedor para um aperitivo.
Na discreta sala de jantar com piso de madeira e paredes brancas pintadas com galhos e pássaros, o chef Thibaut Gamba destaca ingredientes frescos da região em sua alta gastronomia francesa. O menu de preço fixo muda semanalmente, mas um clássico permanente é a torta de cogumelos terrosa, servida com caldo aveludado e massa crocante.
Ao pedir o prato, o garçom traz uma tigela artisticamente montada com vários tipos de cogumelos, incluindo shiitake, shimeji e juba de leão, cultivados nas pedreiras de Saint Émilion pertencentes ao Château Angelus, próximas aos vinhedos.
Os demais pratos, como o lombo de cordeiro assado, são igualmente deliciosos. Mas vale atenção também para as pequenas porções, como o trio de amuse bouche servido sobre um galho, com tartare de carne em conchas de ostra e caviar sobre pequenas bases decorativas, os deliciosos queijos franceses vindos da cave de maturação e as mignardises de chocolate apresentadas em uma videira metálica que acompanha o amadurecimento das uvas. As madeleines quentes também se destacaram, cortadas à mesa, regadas com vinho tinto de um mini barril e servidas com creme de baunilha.
Naturalmente, a refeição não estaria completa sem os vinhos da carta com mais de 1.000 rótulos. O sommelier pode indicar os melhores vinhos Château Angelus de Bordeaux para tornar a experiência ainda mais divina.