22/04/2026

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O Agro Que a Cidade Não Vê

Quando se fala em agronegócio no Brasil, boa parte de quem vive na cidade pensa em cifras bilionárias, exportações recordes e, também, em desmatamento.

Raramente se reflete sobre a origem da manteiga do café da manhã, da picanha do fim de semana ou da cana-de-açúcar que vira etanol. Há um abismo entre a percepção urbana e o que, de fato, acontece da porteira para dentro.

O pilar invisível da economia nacional

O agronegócio é um dos principais pilares da economia brasileira. Em 2025, o setor respondeu por 32,8% do PIB, segundo o IBGE, e por aproximadamente metade das exportações do país.

Sua relevância ajuda a sustentar o câmbio, conter a inflação e gerar empregos, tanto no campo quanto na cidade. No fim da linha, essa força influencia diretamente o preço e a disponibilidade dos alimentos.

A abundância nas prateleiras parece algo garantido, mas não é. A segurança alimentar que temos hoje é resultado de décadas de investimento em produtividade, tecnologia e gestão.

Mesmo diante de pandemias, guerras e eventos climáticos extremos em outros países, o Brasil manteve o abastecimento interno e ampliou as exportações. Quando o sistema funciona bem, essa segurança passa despercebida pelo consumidor final.

Desafios de mercado e a falta de previsibilidade

Relevância, porém, não significa facilidade. O produtor rural convive com riscos que poucos setores enfrentam simultaneamente. Você já imaginou fabricar algo, ou prestar um serviço, sem saber o quanto vai receber no final?

O produtor não forma preço a partir de seus custos e da margem desejada; ele não define quanto receberá pela produção. A receita é impactada pelo câmbio, estoques globais e fretes, enquanto os custos também oscilam por fatores externos. Ou seja, a produção agrícola é um negócio de alta volatilidade e pouca previsibilidade.

Para reduzir o risco, vender não é apenas colher e “entregar para quem pagar mais”. É preciso decidir quando travar custos e preços, equilibrando contratos futuros e vendas à vista, sem perder de vista a necessidade de caixa. Em muitas fazendas, essas decisões ainda se baseiam mais na intuição do que em modelos estruturados de gestão.

A profissionalização como estratégia de sobrevivência

Por isso, tratar fazendas como empresas deixou de ser opcional. Planejamento estratégico, controle de custos, indicadores de desempenho, gestão de riscos e governança tornaram-se questões de sobrevivência.

O produtor deve, urgentemente, passar a tomar decisões baseadas em dados. Além de vivermos tempos de margens estreitas, a gestão profissional pesa na capacidade de acessar crédito, negociar e enfrentar crises.

O crédito rural, por sua vez, segue como um gargalo. Produzir em escala exige capital intensivo e, embora o Plano Safra seja importante, os recursos ainda chegam a poucos, com burocracia, juros elevados e prazos nem sempre compatíveis com o ciclo produtivo.

Atualmente, às vésperas da maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, a Agrishow 2026, as previsões de negócios estão aquém do planejado. O produtor passou a segurar investimentos, pressionado pelos fatores de crédito e margem.

Quando a equação financeira não fecha, não é apenas o produtor que perde: a própria capacidade do país de manter e ampliar a produção é afetada, com reflexos diretos nas gôndolas.

Sucessão familiar e o papel da tecnologia

O agro é movido por empresas, em sua grande maioria familiares, e o setor lida com um risco silencioso: a sucessão. Em muitas propriedades, a gestão segue concentrada em uma única pessoa, sem planejamento sucessório, formação de novas lideranças ou governança mínima.

Negócios sólidos podem perder competitividade, ser fragmentados ou desaparecer, como vem ocorrendo nos Estados Unidos.

Nesse cenário, a tecnologia é uma aliada central para a produtividade, a gestão de risco e a atração de jovens.

Agricultura de precisão, sensores, monitoramento por satélite, biotecnologia, máquinas conectadas e inteligência artificial ajudam a produzir mais com menos, reduzir desperdícios e impactos ambientais, tornando o campo um ambiente mais atraente para a nova geração.

Sustentabilidade e o mito do conflito campo-cidade

Tudo isso convive com um dos marcos legais ambientais mais rigorosos do mundo. O Código Florestal Brasileiro exige que milhões de hectares de reservas sejam preservados dentro das propriedades, sob responsabilidade do produtor.

Casos de desmatamento ilegal precisam ser combatidos com firmeza, mas não podem distorcer o trabalho da grande maioria que cumpre a lei e investe em boas práticas de preservação.

Não existe “campo contra cidade” ou “cidade contra campo”. O que move o agro é um amor que a cidade ainda não enxerga por completo: amor pela terra, pelo trabalho, pela família e pelo propósito de alimentar.

Quando o produtor tem condições reais de planejar, investir e gerir com foco no longo prazo, ganha ele, ganha o consumidor, ganha o investidor e ganha o país.

*Jaqueline Casale é zootecnista, sucessora e conselheira da Casale, empresa líder em máquinas para pecuária. Filha e esposa de produtores rurais. Atuou em empresas globais como JBS Australia, PwC Brasil, Minerva Foods e BRF. Integra o Forbes Mulher Agro (FMA).

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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