22/04/2026

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A nova fronteira do agro é definida por tecnologia, estratégia e valor

“A inteligência artificial vai ser, de longe, a tecnologia mais importante para o agro na próxima década.” A avaliação é do engenheiro agrônomo, mestre em política agrícola e comércio, e doutor em economia empresarial Marcos Jank.

Com trajetória que atravessa academia, setor privado e formulação estratégica para o campo, Jank é um dos principais especialistas do País em agronegócio global, e atualmente é professor sênior do Insper, coordenando o programa Insper Agro Global.

Em entrevista exclusiva à Forbes Agro, Jank não faz apenas uma projeção tecnológica. Ele delimita uma mudança de ciclo. Para ele, o agronegócio brasileiro, que construiu sua competitividade com base na adaptação tropical e na escala produtiva, passa agora a operar sob uma lógica orientada por dados, eficiência marginal e risco global.

Essa transição ocorre em um ambiente mais complexo. Ao mesmo tempo em que amplia a produtividade dentro da porteira, o setor se vê mais exposto à volatilidade geopolítica, à dependência de insumos e às limitações estruturais que ainda cercam a produção.

Jank é uma das mentes que estará no São Paulo Innovation Week (SPIW) e apresentou algumas ideias que debaterá neste festival de inovação e que será realizado nos dias 13 e 15 de maio, na Mercado Livre Arena Pacaembu e na FAAP, em São Paulo (SP).

A construção de uma vantagem tropical

Lucas Ninno/Getty ImagesColheita de soja em plena operação no País

“O Brasil desenvolveu um dos sistemas mais competitivos de agricultura tropical do mundo”, afirma Jank. A base dessa vantagem foi construída ao longo de décadas, combinando ciência pública, inovação incremental e expansão privada.

O País criou um modelo próprio. “Não há outro país com a dimensão do Brasil que utilize esse conjunto de tecnologias e inovações”, diz. Essa singularidade se expressa na capacidade de produzir em ambientes tropicais com níveis elevados de produtividade e crescente eficiência ambiental.

A integração produtiva é parte central dessa equação. “Conseguimos integrar soja, milho, algodão, carne, etanol e celulose”, afirma. A segunda safra e o avanço do etanol de milho ilustram esse arranjo, no qual ativos são utilizados de forma contínua ao longo do ano.

Ainda assim, trata-se de um modelo pouco difundido fora do País. “A agricultura tropical global é a mais heterogênea e desigual”, observa, ao apontar a dificuldade de replicação desse padrão em outras regiões da América do Sul, África e Ásia.

A virada digital do campo

José Antonio Vidal Humanes/Getty ImagesAgricultora monitorando área de plantio de algodão

Se a primeira transformação foi agronômica, a atual é informacional. “Hoje vemos mecanização avançada, drones, biotecnologia e inteligência artificial”, afirma Jank.

O eixo da inovação mudou. “As inovações agora estão focadas em produzir mais com menos insumos, com maior precisão”, diz. A eficiência deixa de ser apenas física e passa a ser também analítica.

Nesse contexto, a inteligência artificial ocupa posição central. “Ela vai impactar a operação, a produção, a comercialização e até a proteção de preços”, afirma. A tecnologia amplia a capacidade de antecipar cenários, reduzir incertezas e otimizar decisões.

O efeito mais profundo é silencioso: altera o perfil do produtor. A gestão passa a ser orientada por dados, integrando clima, mercado e operação em uma mesma lógica decisória.

Ao lado da IA, a biotecnologia mantém protagonismo. “Avançamos rapidamente na criação de variedades mais resistentes e com menor uso de agroquímicos”, diz. Já a agricultura de precisão e o uso de drones consolidam uma lógica de aplicação localizada, com menor desperdício e maior controle.

Menos insumo, mais eficiência

A busca por eficiência redefine também o uso de insumos. “Existe um conjunto de técnicas voltadas à otimização, produzir mais com menos insumos”, afirma Jank.

A fronteira tecnológica passa a incorporar soluções biológicas de forma mais consistente.

“Durante muito tempo tratamos tudo com químicos. Agora vemos um avanço grande das soluções biológicas”, diz.

Esse movimento não elimina os insumos tradicionais, mas altera sua função dentro do sistema produtivo. A combinação entre químicos e biológicos, somada à aplicação localizada, reduz custos e aumenta a eficiência agronômica.

A pressão recente sobre fertilizantes acelerou essa transição. “Produtores passaram a buscar alternativas como rocha fosfática e resíduos orgânicos”, afirma.

A lógica de reaproveitamento ganha espaço. “A vinhaça, um resíduo do processamento da cana, pode ser fertilizante, mas também gerar biogás e energia elétrica”, observa. O avanço da economia circular no campo passa a ter fundamento econômico, não apenas ambiental.

O peso da geopolítica

Carregamento de soja em navio graneleiro
sandsun/Getty ImagesCarregamento de soja em navio graneleiro

A tecnologia, no entanto, não opera isoladamente. “O mundo está mais polarizado”, afirma Jank.

O Brasil ocupa uma posição delicada nesse cenário. “A China compra cerca de 35% das exportações brasileiras e é nosso principal parceiro”, diz. Ao mesmo tempo, boa parte da tecnologia utilizada no campo tem origem ocidental.

Essa dependência dupla exige equilíbrio estratégico em um ambiente de regras mais frágeis. “A OMC perdeu relevância e vemos acordos mais arbitrários”, afirma.

Os impactos são diretos. “Conflitos recentes expõem vulnerabilidades em insumos como diesel e fertilizantes”, diz. A guerra e as disputas comerciais deixam de ser variáveis externas e passam a influenciar diretamente o custo de produção.

Eficiência dentro, fragilidade fora

Apesar da evolução tecnológica, os entraves estruturais persistem. “Temos uma agricultura extremamente eficiente dentro da fazenda, mas fragilidades antes e depois da produção”, afirma Jank.

A logística continua sendo um dos principais gargalos. “Mato Grosso está a cerca de 2 mil quilômetros dos portos”, destaca. A dependência do transporte rodoviário, em longas distâncias, eleva custos e reduz competitividade.

A armazenagem também limita estratégias comerciais. “Muitas vezes o produtor é obrigado a vender rapidamente”, diz, o que reduz a capacidade de capturar melhores preços.

Valor agregado ainda é fronteira

Mesmo com ganhos expressivos, o desafio da agregação de valor permanece. “O Brasil não é o celeiro do mundo. Representa cerca de 4% da produção global e 9% do comércio”, afirma.

A pauta exportadora é robusta, mas concentrada. “Há espaço para agregar valor e diferenciar produtos”, diz.

O caso do café ilustra essa limitação. “Exportamos majoritariamente café verde, enquanto outros países agregam valor”, afirma.

O ponto central está na estratégia. “Não é só produzir com valor agregado, mas saber distribuir e posicionar esses produtos no exterior”, conclui.

Ao fim, a equação do agro brasileiro se torna mais complexa. A vantagem competitiva deixa de estar apenas na escala ou na produtividade. Passa a depender da capacidade de integrar tecnologia, reduzir vulnerabilidades e capturar valor em um ambiente global cada vez mais instável.

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