05/05/2026

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a Aposta da Nestlé na Geração Z do Conilon

Fernando Puline, 30 anos, cresceu entre lavouras de café no interior de Minas Gerais. Mesmo assim, quando decidiu aplicar na propriedade familiar aquilo que havia aprendido na faculdade de agronomia, encontrou resistência. A reação já era previsível, como ocorre em muitas fazendas brasileiras.

“Não é tão fácil convencer alguém mais velho na área a fazer do jeito que você acha certo”, afirma o produtor, que conduz a Fazenda Puline ao lado da esposa, Luana Puline, 26 anos, também engenheira agrônoma.

A propriedade do casal, localizada em Aimorés (MG), tem 110 hectares, dos quais cerca de 10 hectares são destinados ao café conilon e esse era o desafio dentro de casa: ao contrário do arábica, a espécie conilon não era considerada “nobre” ou “especial” por causa do seu teor de cafeína e perfil de sabor. Mas a nova geração do conilon quer mudar essa percepção e vem implementando mudanças graduais, combinando conhecimento técnico, manejo mais preciso e uso crescente de tecnologia. É uma nova geração quebrando paradigmas que pareciam imutáveis até pouco tempo atrás.

“Conforme a gente vai trabalhando, vai mostrando as tecnologias e mostrando que dá certo”, diz Fernando.

Na prática, a transformação da propriedade tem sido construída em etapas. O primeiro hectare plantado por ele, financiado com apoio da família e crédito rural, rendeu cerca de 38 sacas na primeira colheita. O resultado foi considerado promissor, mesmo diante de adversidades climáticas e pressão de pragas.

“A gente está indo de degrau a degrau”, resume o produtor.

Essa história representa um movimento maior que começa a ganhar força na cafeicultura brasileira: a entrada de jovens produtores na condução das propriedades e na adoção de estratégias voltadas à qualidade do café conilon, que este ano pode representar R$ 25,6 bilhões, segundo o Valor Bruto da Produção Agropecuária, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

E é exatamente nesse ponto que empresas globais da cadeia começam a mirar suas estratégias, como a suíça Nestlé, que em 2025 faturou globalmente de 89,49 bilhões de francos suíços (R$ 601,80 bilhões na cotação atual).

A sucessão que preocupa a indústria do café

Divulgação/Nestlé BrasilBárbara Velo, gerente de ESG & Coffee Expertise da Nestlé

Para a Nestlé, uma das maiores compradoras de café do mundo, a renovação geracional no campo se tornou um tema estratégico. Segundo Bárbara Velo, gerente de ESG & Coffee Expertise da companhia, a média de idade dos produtores parceiros hoje gira entre 50 e 60 anos e é um dado que acende alerta sobre o futuro da produção.

“O projeto nasceu de dois desafios: a sucessão familiar no campo e a falta de baristas qualificados nas cidades”, afirma.

Foi nesse contexto que surgiu o programa Fazedores de Café, lançado em 2019 e voltado à formação de jovens ligados à produção cafeeira. O objetivo é ampliar o conhecimento desses produtores sobre qualidade, processamento, degustação e comercialização do café.

As turmas, geralmente com cerca de 30 participantes entre 18 e 29 anos, passam por uma imersão que aborda desde práticas agrícolas até análise sensorial da bebida.

“Muitos jovens não enxergavam o campo como um negócio. Quando eles entendem a qualidade do que produzem, passam a valorizar muito mais o produto,” diz Bárbara.

Até agora, o programa já formou mais de 400 jovens entre iniciativas no campo e nas cidades. Sendo 282 jovens no campo (produtores rurais) e 169 em centros urbanos, em cursos de baristas. “O curso vai do grão até muito além da xícara”, diz.

A meta para 2026 é capacitar mais 100 participantes, mantendo o formato presencial como principal metodologia de ensino.

Uma nova geração no campo

A Fazenda Puline, em Minas Gerais, pode ser colocada como um dos grandes frutos da iniciativa da Nestlé, porque os produtores enxergam que o futuro do negócio ainda está sendo construído passo a passo e não se intimidam.

Os planos incluem ampliar a área de café, mecanizar parte da produção e iniciar a participação em concursos de qualidade. No horizonte também está o lançamento de uma marca própria.

“A gente podia agregar valor naquilo que a gente produz”, diz Fernando. Para Luana, a visão é estar ainda mais fortes com a lavoura: “A gente não se enxerga fora do café”, diz.

O peso estratégico do conilon

Alfribeiro/Getty imagesPlantação de café em região montanhosa no Brasil

O foco da empresa no café conilon, também chamado de robusta ou canéfora, não é casual.

Dentro da base de cerca de 3,8 mil produtores participantes do programa Nescafé Plan no Brasil, aproximadamente 65% a 70% produzem conilon, concentrados principalmente no Espírito Santo.

“O conilon faz parte do DNA do Nescafé”, afirma Rodolfo Clímaco, gerente de agricultura da Nestlé. Segundo ele, a variedade apresenta características agronômicas que a tornam cada vez mais relevante para a indústria.

“O conilon costuma ter produtividade cerca de 40% superior ao arábica”, explica.

Além disso, a espécie é considerada mais resistente às variações climáticas e tem papel central na produção de café solúvel e em blends industriais.

Esse avanço ocorre em um contexto de transformação da própria cafeicultura brasileira. De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deve produzir cerca de 66,2 milhões de sacas de café na safra 2026, sendo 44,1 milhões de sacas de arábica e 22,1 milhões de sacas de conilon.

A área total ocupada pela cultura no país é de 1,9 milhão de hectares (1,5 milhão de hectares de arábica e os 386,8 mil hectares restantes de conilon), e com o conilon concentrado principalmente no Espírito Santo, Rondônia e sul da Bahia. O Espírito Santo responde por 69,7% a área cultivada de conilon no país, com 269,4 mil hectares, e 67,3% da produção, com 14,9 milhões de sacas.

Qualidade como estratégia de renda

Rodolfo Clímaco, gerente de Agricultura da Nestlé
Divulgação/Nestlé BrasilRodolfo Clímaco, gerente de Agricultura da Nestlé

Se no passado o conilon era visto principalmente como um café de volume, hoje a estratégia começa a incluir também a qualidade.

Segundo Clímaco, melhorias no manejo e no pós-colheita podem elevar o valor do café em cerca de 20%, dependendo do posicionamento do produto. “O produtor aprende a segregar o café, classificar e entender o que ele tem em mãos”, afirma.

A adoção de práticas regenerativas também influencia diretamente a rentabilidade. Sistemas regenerativos podem reduzir o custo de produção de cerca de R$ 500 a R$ 600 por saca para algo próximo de R$ 400 a R$ 450, segundo dados da empresa.

O resultado é um ciclo que combina qualidade, redução de custos e maior valor agregado ao produto final.

Da commodity ao café de identidade

Thielen Brandão, produtora rural no município de Pinheiro (ES)
Sandro MalaguttiThielen Brandão, produtora rural no município de Pinheiro (ES)

Essa mudança de mentalidade também começa a aparecer entre produtores mais jovens.

No norte do Espírito Santo, a produtora rural Thielen Brandão, 34 anos, iniciou há poucos anos a transição de uma produção tradicional de café commodity para cafés de maior qualidade. A propriedade da família cultiva cerca de 15 hectares de café conilon, ou canéfora.

“O produtor de canéfora muitas vezes produz o café e vende como commodity, mas vai ao supermercado e compra um arábica para beber”, afirma.

Até recentemente, esse também era o caso da própria família. “Até o ano passado nós produzíamos café, mas não tomávamos o nosso próprio café.”

A virada veio quando perceberam o potencial de qualidade da bebida e decidiram investir na produção de cafés especiais. Hoje, a propriedade prepara o lançamento da marca própria Grãos de Ana.

“O produtor que produz e também comercializa consegue agregar mais valor ao seu produto”, diz.

Ciência e tecnologia para o campo

A formação técnica e científica também tem papel crescente no processo de atrair cada vez mais jovens para compor a classe de produtores de café conilon, e por vislumbrar a cultura com maiores potenciais de ganhos.

No Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), o professor Raphael Moreira coordena um mestrado profissional em cafeicultura criado para resolver problemas práticos do setor.

“O objetivo é que o produtor saia do café commodity e consiga vender um produto de maior qualidade”, afirma.

Segundo ele, a combinação entre conhecimento técnico, tecnologia e capacitação pode abrir novas oportunidades de mercado para os produtores.

Entre as áreas de pesquisa estão mecanização, uso de drones, nutrição de plantas e manejo fitossanitário.

“Quando trabalhamos com jovens do meio rural, abrimos a mente deles para o potencial que existe dentro da própria propriedade.”

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