21/04/2026

21/04/2026

Search
Close this search box.

Que Lições o Brasil Pode Ter com os Orgânicos da Dinamarca, um Mercado de R$ 13 Bi

picture aliance/Getty Images

Fazendeiro dinamarquês observa o trabalho de robô num campo de beterraba orgânica

Acessibilidade







Que lições sobre a agropecuária orgânica o Brasil pode tirar da Dinamarca? O país europeu movimentou € 2,1 bilhões (R$ 13,07 bilhões na cotação atual) neste mercado em 2023 e possui o maior índice de consumo no mundo de alimentos e bebidas, que chega a 12%.

A comparação do que ocorre nesses dois mercados merece atenção. De um lado, há um país que transformou políticas, consumo e estrutura produtiva em um sistema coordenado e economicamente atraente. Do outro, há o Brasil, com enorme potencial agrícola, mas ainda incapaz de converter seus recursos e sua diversidade em um mercado sólido e competitivo.

Entender por que a Dinamarca virou referência e por que o Brasil permanece na rabeira deste mercado ajuda a esclarecer o que falta para que a agricultura orgânica brasileira deixe de ser nicho e se torne vetor econômico relevante.

Foi em busca da resposta desses porquês que um estudo ganhou vida a cinco mãos por pesquisadores brasileiros. A pesquisa envolveu os PhDs em economia Lucas Ferreira Lima e Ademar Ribeiro Romeiro, do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp), a PhD em sociologia Lucimar Santiago de Abreu, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, de Jaguariúna (SP), e os PhDs em economia João Alfredo de Carvalho Mangabeira e Sérgio Gomes Tôsto, pesquisadores da Embrapa Territorial, de Campinas (SP).

Em termos práticos, a agropecuária orgânica é um sistema de produção que não utiliza agrotóxicos, fertilizantes sintéticos, transgênicos ou outros insumos químicos sintéticos. Em vez disso, utiliza técnicas como a rotação de culturas, a adubação com composto e o controle biológico de pragas para manter a fertilidade do solo e a saúde do agroecossistema.

Os orgânicos no mundo

NurPhoto/Getty Images

Amostra de vegetais e frutas orgânicas

O mercado orgânico global atingiu € 136 bilhões (R$ 842 bilhões) em 2023, impulsionado pelo crescimento nos Estados Unidos, Europa e Ásia. O dado faz parte de um anuário estatístico elaborado pelo suíço Instituto de Pesquisa de Agricultura Orgânica (FiBL, na sigla em alemão) feito em parceria com IFOAM Organics International, uma federação mundial, sediada na Alemanha, que promove a agricultura orgânica.

Os países com os maiores mercados orgânicos foram os Estados Unidos: € 59 milhões (R$ 365,8 milhões), seguido pela Alemanha, com € 16,1 milhões (R$ 99,8 milhões), e a China, com € 12,7 milhões (R$ 78,7 milhões). Globalmente, apesar da Dinamarca estar na 12ª, o país possui a maior abertura para produtos orgânicos na rede de varejo. A taxa de vendas de orgânicos foi de 11,8% em 2023, seguido da Suíça, com 11,6%, e Áustria com 11%.

A Dinamarca não chegou ao topo por acaso. Segundo os pesquisadores da Embrapa e Unicamp, o país europeu apostou cedo em uma estratégia de longo prazo que combinou instituições fortes, regulação clara, incentivos financeiros e um esforço contínuo de educação do consumidor.

A Dinamarca estruturou sua agricultura orgânica de forma colaborativa desde os anos 1980, com forte institucionalização, escolas especializadas e legislação pioneira”, diz Romeiro.

“Supermercados passaram a oferecer produtos orgânicos a preços reduzidos ainda na década de 1990, impulsionando a demanda. Nos anos 2000, planos nacionais integram políticas agrícolas, ambientais e de alimentação pública, elevando o país ao patamar de líder global”.

Essa soma produziu um ambiente em que produtores têm segurança para investir, varejistas encontram demanda consistente e o estado atua como âncora ao usar seu poder de compra para ampliar o mercado interno.

O resultado é um circuito virtuoso em que mais consumo gera mais produção, que por sua vez reduz custos, aumenta competitividade e alimenta novas ondas de investimento, o que caracteriza o país como sendo uma engrenagem típica de setores já maduros e organizados.

Formado por uma península e mais de 400 pequenas ilhas, a Dinamarca possui uma área total de 4,3 milhões de hectares, equivalente ao estado do Rio de Janeiro. Possui aproximadamente 5,6 milhões de habitantes em 2020. Em 2023, o país alocou 303,4 mil hectares para a produção orgânica e o valor gasto por pessoa ao ano em alimentos ou bebidas orgânicas chega a € 362 (R$ 2.250). Mundialmente este é o segundo maior valor, atrás apenas da Suíça que registra um gasto anual per capita de € 468 (R$ 2.901,43).

A realidade dos orgânicos no Brasil

UCG/Getty Images

Feira de frutas orgânicas na cidade do Rio de Janeiro

No Brasil, a dinâmica é bem diferente. Pelos dados do FiBL e IFOAM, o país possui uma extensa área agrícola de 351,29 milhões de hectares. No entanto, apenas uma pequena parte é dedicada ao cultivo de produtos orgânicos (ou está em conversão), representando cerca de 1 milhão de hectares, ou cerca de 0,4% da área agrícola total do país.

Embora seja o 12º maior país em termos de área de produção orgânica no mundo, o Brasil gerou cerca de € 778 milhões (R$ 4,8 bilhões), e seu consumo anual per capita foi de € 4 (R$ 25) em 2023.

O Brasil possui 5,1 milhões de estabelecimentos rurais, e apenas 24 mil unidades de produção orgânica estão efetivamente registradas no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, uma lista pública mantida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) que contém as informações de todos os produtores neste segmento.

“O Brasil, por exemplo, não registra a produção orgânica”, diz Lima.

“Só temos o CNPO. Isso se dá porque o tipo de comercialização no Brasil é por circuitos curtos. As pessoas produzem em pequenas propriedades, normalmente, agricultores familiares ou pequena propriedade empresarial, e não há emissão de nota, em muitos casos.”

Somando a ausência de dados nacionais confiáveis, as dificuldades de acesso ao crédito e uma assistência técnica insuficiente tornam a conversão da agricultura convencional para a orgânica mais arriscada e onerosa para pequenos e médios produtores, justamente aqueles que formam a base da agricultura orgânica no país.

Ao mesmo tempo, o consumo restrito não incentiva a indústria e o varejo a investir em cadeia produtiva, logística e processamento. Em termos econômicos, o Brasil opera em um círculo vicioso: oferta pequena gera preços altos, que restringem o consumo, que por sua vez impede a escala necessária para reduzir custos.

O exemplo dinamarquês

Pelo estudo, o exemplo do país europeu pode dar novos rumos para a produção brasileira, por meio de políticas que definem metas de produção e incentivos, e acesso a apoio técnico e financeiro para os produtores. Com isso, o varejo pode trabalhar com previsibilidade e os consumidores passam a confiar na certificação nacional, com um selo amplamente reconhecido e incorporado ao hábito de compra.

Esse alinhamento reduz riscos e transforma o orgânico em uma categoria de mercado competitiva, não apenas ambientalmente desejável. Desta forma, o Brasil conseguiria vender produtos orgânicos em grandes redes a preços próximos aos dos convencionais.

Para Lucimar, da Embrapa Meio Ambiente, o estudo mostra que, enquanto a Dinamarca opera em um quadrante virtuoso, com forte articulação público-privada, ampla disponibilidade de dados e políticas estáveis, o Brasil permanece em um círculo vicioso, marcado por baixa escala, dificuldades de acesso a crédito, falta de informação estruturada e mercado restrito.

“Apesar disso, o país reúne oportunidades significativas: ampla diversidade agrícola, grande número de agricultores familiares e crescente demanda por alimentos mais saudáveis”, diz Lucimar.

Para ela, o que falta é transformar esses ativos em estratégia: alinhar incentivos, reduzir incertezas e criar demanda estável. Em outras palavras, fazer a transição do ciclo vicioso para o ciclo virtuoso, exatamente como fez a Dinamarca.

A experiência do país europeu, segundo os autores, pode ser adaptada e replicada nos demais países da América Latina e da África, fortalecendo a transição global para sistemas alimentares mais sustentáveis. (redação com Embrapa)

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Mercado de Vinho nos EUA Ultrapassa US$ 115 Bilhões em 2025, Aponta Novo Relatório

Um novo relatório da empresa de pesquisa de mercado BW166 mostra que as vendas de…

“A IA Vai Mudar a Forma Como Consumimos Soluções no Agro”, Diz André Piza, da Syngenta

A transformação digital no agronegócio global passou a ocupar um novo lugar dentro da Syngenta.…

Importação Chinesa de Soja dos Eua Cai 70% no Primeiro Trimestre

As importações chinesas de soja dos Estados Unidos aumentaram em março em relação aos dois…