20/04/2026

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Além da Paella, Valência Combina Séculos de Agricultura e Tradição

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Valência é famosa pelos cítricos, em especial pelas laranjas

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Uma das melhores maneiras de conhecer um novo destino de viagem é por meio de sua culinária. Cada mordida pode revelar a história, a economia e a cultura de um lugar. Na região de Valência, na Espanha, rica em áreas agrícolas, isso é especialmente verdadeiro. Mas, sendo lar de alguns dos pratos mais populares do país, Valência e sua comida iluminam não apenas as tradições locais, como também oferecem uma janela para a Espanha como um todo.

Valência ganhou as manchetes internacionais em outubro passado por causa de enchentes fatais, um desastre que matou mais de 200 pessoas. Essa tragédia traçou um retrato equivocado de uma região alagada, quando, na verdade, a área tem em média mais de 330 dias de sol por ano. Porém, as secas estão se tornando mais frequentes em toda a Península Ibérica, e os agricultores espanhóis precisam ser cada vez mais cuidadosos com o uso da água.

Nesse aspecto, Valência tem um trunfo que não é exatamente um segredo: as acequías, uma complexa rede de canais de irrigação de terra que remontam ao século 8. Essas tubulações têm paredes porosas que permitem que a água infiltre no solo e reabasteça os aquíferos da região, ao mesmo tempo em que regulam o fluxo para evitar o escoamento.

Por causa dos canais, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), declarou Valência como um “Sistema de Patrimônio Agrícola de Importância Global”, iniciativa que reconhece e protege sistemas agrícolas tradicionais únicos no mundo. A nomeação veio em função do modo como a região lida com a irrigação e a saúde do solo, permitindo que suas fazendas prosperem em uma localização costeira densamente povoada e ainda sustentem uma diversidade biológica significativa.

As acequías são geridas e mantidas localmente, promovendo a cooperação entre os diversos usuários da água, um elemento importante em um futuro climático incerto, no qual os recursos naturais provavelmente serão pontos de conflito.

Laranjas de Valência

Embora o arroz receba grande parte da atenção, a área também produz uma quantidade expressiva de frutas e hortaliças. Valência é famosa pelos cítricos, em especial pelas laranjas que levam seu nome, mas a região também cultiva amêndoas, alcachofras, berinjelas, azeitonas, romãs, abóboras, tomates e outras culturas. Um ótimo lugar para vivenciar essa fartura local é La Barraca Toni Montoliu, na cidade de Meliana, a poucos minutos de carro da capital regional.

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As acequías são canais de irrigação de terra que remontam ao século 8

Um senhor mais velho, com uma energia aparentemente inesgotável, Montoliu é uma enciclopédia ambulante da história rural valenciana e fica feliz em compartilhar esse conhecimento durante as visitas à sua fazenda, um complexo que inclui uma barraca tradicional e uma coleção impressionante de instrumentos agrícolas usados ao longo dos séculos. Basta tentar acompanhá-lo enquanto ele passa apressado pelo galinheiro e entra nos campos, onde colhe ingredientes que depois aparecerão no seu almoço.

Para um passeio completo pela propriedade, uma carroça puxada por cavalos percorre o pomar de laranjeiras, uma extensão de árvores salpicadas de frutos coloridos como enfeites natalinos. Na época da colheita, os turistas podem colher uma laranja para si. Depois de ver Montoliu cozinhar uma paella valenciana, é possível fazer uma refeição preparada do campo à mesa.

Uma tapa do interior em uma cidade costeira

Nesta região costeira, a proximidade com o mar significa que muitos restaurantes servem frutos do mar. Mesmo com tanto peixe fresco, o tipo salgado e curado ainda tem seu lugar garantido, graças às comunidades do interior de Valência.

Chamada pericana, a receita de tapas vem de vilarejos do interior montanhoso de Alicante. Ela é preparada com ñoras e outros pimentões vermelhos secos, alho, azeite de oliva e peixe salgado. Embora possa servir como guarnição de vários pratos, a pericana como tapa é oferecida de forma simples, a mistura densa e saborosa vem acompanhada de pão fresco e tomates. As notas doces e defumadas dos pimentões combinam perfeitamente com os demais ingredientes.

Beba sua vontade de doce

Valência também oferece sobremesas de tirar o fôlego. Embora o chocolate a la taza (chocolate quente bem espesso) não seja exclusivo da região, um de seus principais fabricantes fica na província de Alicante.

Fundada em 1881, a Valor Chocolates é uma empresa familiar que produz uma enorme variedade de guloseimas fáceis de encontrar nos supermercados da Espanha, mas apenas a bela cidade costeira de Villajoyosa pode reivindicar a fábrica e o museu do chocolate da Valor. Após uma parada na chocolateria da empresa, não será difícil entender por que o nome Villajoyosa significa literalmente “vila alegre”.

Os mouros, povos muçulmanos do Norte da África, são creditados por terem introduzido a horchata nesta região, outra iguaria intimamente ligada a Valência. A horchata espanhola, um leite adoçado sem lactose, feito de chufa (tubérculos conhecidos como tigernuts), é diferente da versão mexicana, que é preparada com arroz. Apesar do nome, a chufa é, na verdade, um tubérculo comestível de uma planta parecida com capim e rico em nutrientes. Suas raízes estão no Antigo Egito, onde era tão valorizada que foi encontrada nos sarcófagos dos faraós.

Para preparar a horchata valenciana, trituram-se as chufas e mistura-se o “leite” resultante com canela, limão e açúcar. Para manter a qualidade, ela deve ser consumida fresca, em até dois ou três dias após a produção. Costuma ser bebida principalmente no verão, mas é possível encontrá-la o ano inteiro em horchaterías, estabelecimentos especializados na bebida.

Comidas de festa para saborear o ano inteiro

Com seu elegante calçadão à beira-mar e um castelo medieval que se ergue acima das ruas estreitas e charmosas da cidade antiga, Alicante já vale a visita só pelas paisagens, mas os apreciadores de boa comida também vão gostar de conhecer sua contribuição fundamental para as celebrações festivas em toda a Espanha.

Sol de Zuasnabar Brebbia/Getty Images

Um dos principais fabricantes do chocolate a la taza fica na região

A província é o berço do doce de amêndoa conhecido como turrón. Datado de séculos atrás, ainda durante o domínio mouro, o turrón surgiu da combinação de mel, claras de ovo e amêndoas Marcona, cultivadas na região. A versão mais macia e aveludada do doce é chamada de Jijona, nome de uma pequena cidade ao norte de Alicante, onde também há um museu dedicado ao produto. Da cor de café com leite, o turrón Jijona cremoso derrete nos dedos.

Valência ainda abriga o grande festival anual que paralisa a cidade: Las Fallas. Durante a celebração, é tradição comer buñuelos, bolinhos doces e redondos de massa frita, servidos com chocolate quente bem grosso. Embora sejam consumidos em toda a Espanha, a versão valenciana do doce costuma levar abóbora, que está em época justamente quando os moradores se ocupam de incendiar os muitos bonecos e carros alegóricos do festival.

* Sofia Perez é jornalista colaboradora da Forbes EUA e escritora há mais de 35 anos. Escreve sobre alimentos e gastronomia, mostrando da produção ao prato.

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