A Agrishow encerrou sua 31ª edição na sexta-feira (1), em Ribeirão Preto (SP), com R$ 11,4 bilhões em intenções de negócios, 22% abaixo do registrado na edição anterior. Os números abrangem máquinas agrícolas, irrigação e armazenagem e espelham o que já ocorria no mercado antes da abertura dos portões: no primeiro trimestre de 2026, as vendas de máquinas e equipamentos agrícolas caíram 19,9% em relação ao mesmo período de 2025.
“Está bem em linha com o que está acontecendo no mercado”, disse Pedro Estevão, presidente da Câmara de Máquinas e Implementos Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), na coletiva de encerramento. Para ele, o setor enfrenta um quadro combinado de juros altos, inadimplência crescente, câmbio desfavorável e preços de commodities pressionados para baixo.
Mas a visitação contrariou o pessimismo. Nos cinco dias de evento, 197 mil pessoas passaram pela feira, número próximo ao da última edição, segundo Liliane Bortoluci, diretora de Eventos de Negócios da Informa Markets, organizadora do evento. “A feira cumpriu seu papel. Conseguimos reunir e conectar as empresas expositoras e as pessoas, e isso tem um valor que não se consegue mensurar em negócios”, disse.
Juros, margens e endividamento no campo
João Marchesan, presidente da Agrishow, não poupou palavras para descrever o momento. “Nós estamos vivendo uma tempestade perfeita”, disse, enumerando os fatores: custos de produção em alta há anos, margens comprimidas, volume crescente de recuperações judiciais no campo e um agricultor que parou de investir.
“O que é para custeio ele está fazendo, o investimento ele está adiando. Já por uns três anos.” Segundo Marchesan, o preço da soja concentra parte do problema. Há dois anos, uma saca era negociada a R$ 200. Hoje está em torno de R$ 100. No mesmo intervalo, o custo dos insumos dobrou. O conflito no Oriente Médio agrava o quadro ao encarecer fertilizantes e diesel, insumos básicos para quem acabou de colher e já prepara o plantio da safra de verão, com início previsto para outubro.
Os bancos seguem restritivos, segundo Marchesan. Quem tem acesso a crédito compatível com o retorno do investimento são exceções: produtores capitalizados que operam com recursos próprios ou captam em dólar. “Isso são exceções”, reconheceu. O governo federal anunciou durante a feira uma linha de R$ 10 bilhões via Finep para a compra de máquinas, mas o dinheiro não estava disponível nos bancos durante o evento.
“Nós já estávamos pedindo essa linha especial mais de 90 dias antes da Agrishow”, disse Marchesan. Produtores que poderiam ter fechado negócio preferiram aguardar a operacionalização da linha, o que impactou os resultados da feira.
Maurílio Biagi, presidente de honra da feira, resumiu o peso do crédito sobre quem ainda decide investir: “O sujeito precisa ser muito ‘peitudo’ para tomar um financiamento, assinar um compromisso, pagar esse dinheiro corrigido pelos juros que estão aí.” Para ele, a situação é insustentável a longo prazo. “Há dois anos se vendia uma saca de soja a R$ 200, hoje se vende a R$ 100. Os insumos, no mesmo período, custam 100% mais.”
Apesar dos números abaixo da edição anterior, Marchesan manteve a perspectiva de recuperação. “A agricultura vive de ciclos e nós já estamos na 31ª edição da Agrishow. Esses ciclos já passamos por eles diversas vezes”, disse. A direção da feira projeta retomada do crescimento a partir de 2027 e Estevão anunciou que Marchesan seguirá como presidente da Agrishow na próxima edição. A 32ª edição está programada para o período de 26 a 30 de abril de 2027.