A vida no campo nem sempre pode ser uma questão de opção. Pode ser, na verdade, uma simples imposição da vida. Foi assim que a engenheira eletricista e ligada aos negócios de comércio da família, Bárbara Kallás, 50 anos, se tornou uma produtora de leite. “Meu pai falou: ‘Vai lá e aprende’. Eu falei: ‘Pai, eu não sei nada, eu não entendo do mato, eu não entendo de bicho’.
Bárbara resumiu bem uma mudança que jamais havia planejado. Ela passou boa parte da vida ligada ao comércio da família na capital paulista. A rotina mudou após a morte do pai, Georges Mikhael Kallás, em meados de 2018, por conta de um câncer. O empresário libanês havia construído a Fazenda da Vovó, em São José do Alegre (MG), município que fica na região do sul do Estado, no complexo da Serra da Mantiqueira. Poucos dias antes de morrer, pediu à filha que cuidasse da pequena propriedade de três hectares de piquetes pasto e estruturas de confinamento para um rebanho de 470 vacas holandesas. A resposta inicial dela foi de insegurança.
“Eu nem sabia que a vaca precisava parir para dar leite”, lembra Bárbara.
Mesmo assim, diante de um negócio completamente desconhecido, ela decidiu cumprir a promessa. Cercou-se de assistência técnica, ouviu especialistas, aprendeu a rotina da fazenda e passou a acompanhar de perto uma atividade que funciona todos os dias do ano.
“As pessoas diziam: ‘Você não vai saber fazer isso’. Eu falei: ‘Não vou desistir agora, eu prometi, eu vou fazer’.” Hoje, a rotina começa antes do amanhecer e termina apenas à noite. “A gente tira leite no sábado, no domingo, no Natal, no Ano-Novo, na pandemia, no dia de jogo de Copa. Não tem essa. A gente tira leite todos os dias.” Foi dessa forma que Bárbara passou a integrar uma das cadeias mais importantes do agronegócio brasileiro.
Um setor que movimenta mais de R$ 74 bilhões
A história da produtora está inserida em um segmento que permanece entre um dos mais importantes da agropecuária nacional. Segundo a Embrapa Gado de Leite, com base na Pesquisa Pecuária Municipal do IBGE (PPM/IBGE), o Brasil produziu 35,7 bilhões de litros de leite em 2024, o maior volume histórico até então e acima dos 35,3 bilhões de litros registrados no ano anterior.
Além do crescimento da produção, a atividade movimenta uma economia bilionária. Dados do Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP), do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), indicam que a cadeia do leite deverá gerar R$ 74,4 bilhões em 2026. O valor sucede o recorde de R$ 76,33 bilhões registrado em 2025 e representa uma expansão de quase 35% em relação aos R$ 54,96 bilhões movimentados em 2018.
Os números mostram a dimensão econômica da pecuária leiteira, mas também ajudam a explicar o desafio enfrentado pelos produtores. O aumento da produção nacional ocorre em um ambiente de custos elevados, oscilações nas cotações e necessidade permanente de ganhos de eficiência para preservar a rentabilidade. É justamente nesse cenário que está inserida a Fazenda da Vovó.
Da promessa ao aumento da produção
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Daniel Reche/DanoneBárbara junto da instalação de compost barn da propriedade
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Daniel Reche/DanoneTrator fazendo a manutenção da cama do compost barn das vacas. De tempos em tempos, todo o material é retirado e vira adubo para a fazenda
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Daniel Reche/DanoneVista geral da Fazenda da Vovó
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Daniel Reche/DanoneNovilhas da raça holandesa
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Daniel Reche/DanoneBárbara e seu esposo
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Daniel Reche/DanoneBezerra em área de piquete na fazenda
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Daniel Reche/DanoneBezerras em área de piquete na fazenda
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Daniel Reche/DanoneEstrutura de free stall, (que significa “baia livre” em inglês). É um sistema de confinamento para vacas leiteiras. Nele, os animais ficam soltos em um galpão coberto, mas contam com baias individuais forradas com camas macias (geralmente de areia ou maravalha)
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Daniel Reche/DanoneTrator em operação na fazenda
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Daniel Reche/DanoneVacas no sistema de free stall
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Daniel Reche/DanoneFuncionária da fazenda na operação de ordenha
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Daniel Reche/DanoneDetalhe da vacas durante a ordenha
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Daniel Reche/DanoneRebanho de vacas se refrescando com ventiladores e jatos de água antes de ir para a ordenha
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Daniel Reche/DanoneBezerras em área de piquete
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Daniel Reche/DanoneVista geral da fazenda
A transformação da propriedade aparece nos indicadores. Em 2021, a Fazenda da Vovó produzia cerca de 2,9 mil litros de leite por dia. Em 2025, a média passou para 5.394 litros diários. Para 2026, a projeção inicial era de 7.016 litros por dia, mas a fazenda ultrapassou essa marca e atingiu 8.700 litros por dia em julho deste ano.
Boa parte dessa evolução ocorreu após a reorganização da gestão conduzida pelo gerente-geral Sebastião Manoel de Souza Júnior. Segundo ele, o crescimento não veio do aumento do rebanho, mas da melhoria dos processos produtivos.
“Com relação a 2025/2026, nós tivemos um aumento de produção média por gado de 25%. Por outro lado, tivemos 25% de redução no preço do leite.” Na prática, a estratégia passou por controlar aquilo que mais pesa na conta da atividade.
“Hoje o custo de uma fazenda é 70% da alimentação do rebanho. É onde se concentra a maior parte do capital.” A fazenda reduziu de 13% para 6% o índice de erro no carregamento da alimentação das vacas, com meta de chegar a 3%.
“O leite a gente não está ganhando no real, a gente vive dos centavos. Então qualquer redução que você faça traz um resultado melhor.” Segundo Sebastião, considerando um gasto mensal entre R$ 350 mil e R$ 400 mil apenas com alimentação, cada ponto percentual economizado representa impacto direto na rentabilidade da propriedade.
A meta da Fazenda da Vovó agora é atingir 14 mil litros de leite por dia utilizando a área atual da propriedade. Para isso, o plano prevê investimentos em manejo de dejetos e fertirrigação, permitindo ampliar a produção de alimento para o rebanho sem necessidade de expandir a área.
Quando esse objetivo for alcançado, a estratégia passa a ser outra. A propriedade iniciou a formação de gado da raça Brangus para pecuária de corte, pretende ampliar a produção de matrizes e trabalha para transformar a Fazenda da Vovó em fornecedora de genética tanto para leite quanto para corte.
“Quando o projeto estiver totalmente cheio, a gente tem que comercializar o que temos de melhor, que é a genética,” diz Sebastião.
Qualidade do leite virou estratégia
A busca por eficiência também chegou ao manejo do rebanho. A fazenda construiu primeiro um free stall, (que significa “baia livre” em inglês). É um sistema de confinamento para vacas leiteiras. Nele, os animais ficam soltos em um galpão coberto, mas contam com baias individuais forradas com camas macias (geralmente de areia ou serragem).
Depois veio um compost barn, que é um sistema de confinamento para vacas leiteiras que utiliza um grande galpão coberto com uma cama coletiva de material orgânico (como serragem ou maravalha). Esta estrutura ampliou o conforto animal e permitiu alcançar taxa de concepção de 41%.
Mesmo acompanhando os indicadores produtivos e os planos de expansão da fazenda, Bárbara afirma que a maior mudança ocorreu na forma de enxergar o próprio trabalho. “Com 50 anos eu comecei uma produção nova, e a coisa mais linda que existe é produzir alimentos.”
Ela conta que, sempre que encontra um produto da Danone no supermercado, procura identificar uma parte da história construída na Fazenda da Vovó. “Eu tomo e falo assim: ‘Esse tem o leite da Vovó’.”
A frase lembra o pedido feito pelo pai anos atrás. O que começou como uma promessa feita por uma filha que não conhecia a atividade rural tornou-se um projeto de produção de leite que continua crescendo e prepara novos negócios para a propriedade.
Uma fazenda que integra a estratégia da Danone
A Fazenda da Vovó fornece leite para a Danone há cerca de 30 anos, parceria iniciada ainda pelo pai de Bárbara. Hoje, a propriedade faz parte da Jornada Flora, programa de agricultura regenerativa da companhia que envolve 148 pecuaristas fornecedores e já alcança 60% do volume de captação de leite da companhia que faturou globalmente € 28,3 bilhões em 2025 (R$ 171,1 bilhões, na cotação atual)
A iniciativa já reduziu em 50% o fator de emissão de dióxido de carbono e em 43% as emissões de metano desde 2020. Segundo a Danone, os produtores participantes obtêm retorno médio de R$ 116 para cada R$ 100 investidos nas práticas adotadas.
Para Sebastião, entretanto, o diferencial da parceria vai além da agenda ambiental. “É uma parceria de 30 anos ininterruptos. A Danone nos dá uma certa segurança no mercado.”
Além da comercialização da produção, a fazenda participa de programas como Educampo, ComQuali e Central de Compras, que oferecem assistência técnica, compras coletivas de insumos e acesso facilitado a investimentos.
Segundo o gerente, o pagamento também incorpora bonificações por qualidade do leite, sólidos, crescimento da produção e indicadores ambientais. “A gente vive dos centavos no leite, mas essas bonificações somadas dão em torno de 8% a mais no valor.”