Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) encontraram uma forma inovadora de transformar resíduos de laranja em plásticos biodegradáveis mais resistentes. O estudo, conduzido na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) durante o mestrado de Pedro Henrique Bezerra, sob orientação da professora Fernanda Vanin, utilizou partes descartadas da fruta — casca, albedo, sementes e membranas — para reforçar o alginato de sódio, composto extraído de algas marinhas marrons amplamente usado na produção de bioplásticos.
Embora comum, o alginato de sódio apresenta limitações, como baixa resistência e alta absorção de água, que o faz se desmanchar com facilidade. Para melhorar o desempenho, a equipe buscou um material rico em fibras e pectina, substância de alto poder espessante. A primeira tentativa com batata não funcionou; a laranja, por sua vez, mostrou-se ideal.
Os resíduos, cedidos por um comércio de Pirassununga (SP), foram higienizados, secos, triturados e transformados em um pó padronizado, chamado OBP (sigla em inglês para “pó de subproduto de laranja”). Testes indicaram que, quanto maior a concentração de OBP, maior a resistência térmica do bioplástico.
Solução sustentável e destino para resíduos
A pesquisa pode ajudar a reduzir o impacto ambiental dos plásticos derivados de petróleo, dos quais apenas 9% são reciclados no mundo, segundo a ONU. De acordo com a European Bioplastics, a produção global de plásticos biodegradáveis deve alcançar 7,43 milhões de toneladas até 2028.
O Brasil, maior produtor mundial de laranja, gera um grande volume de resíduos, principalmente no estado de São Paulo, que concentra de 75% a 80% da produção nacional. Grande parte desses subprodutos ainda é descartada, apesar do potencial para uso como ração, adubo ou matéria-prima para óleos essenciais.
Próximos passos
A professora Fernanda Vanin destaca que a tecnologia ainda precisa evoluir, especialmente para aumentar a resistência à água. A equipe pretende testar plastificantes hidrofóbicos e outros resíduos além da laranja, visando ampliar as aplicações e reduzir custos de produção.
“Sabemos que a ciência avança de forma gradual, mas cada passo é fundamental. Se conseguirmos estimular o uso de soluções mais sustentáveis, já teremos dado uma grande contribuição”, afirma Fernanda.
Os pesquisadores estão abertos a parcerias com empresas interessadas em dar escala ao projeto, o que poderia ampliar seu alcance e competitividade frente aos plásticos convencionais.