“Seletividade é a palavra mais usada Pelos Financiadores do Agro, disse Pedro Fernandes, diretor de Agronegócio do Itaú BBA, nesta quinta-feira (2). A palavra que mais deve orientar o crédito rural na safra 2026/27 é “seletividade”. Fernandes afirmou que o ambiente de rentabilidade mais apertada para os produtores e o aumento dos desafios de financiamento exigirão uma análise mais rigorosa na concessão de crédito. Mesmo nesse contexto, o banco projeta crescimento de cerca de 10% em sua carteira agro, atualmente em R$ 135 bilhões.
“A gente continua acreditando no setor no longo prazo, mas no curto prazo vê uma série de desafios de financiabilidade. É natural que o tema da seletividade tenha sido uma palavra cada vez mais utilizada pelos financiadores. Essa tende a ser a tendência para o financiamento da safra 2026/27, com desafios maiores para produtores que têm percentual de arrendamento mais elevado”, afirmou Fernandes durante a apresentação do relatório Visão Agro 2026/27. Apesar do ambiente mais restritivo, o executivo acrescentou que o Itaú BBA continua apoiando sua base de clientes para atravessar o período de menor rentabilidade.
A leitura do banco é que o agronegócio inicia um novo ciclo marcado por margens comprimidas, preços pressionados para diversas commodities, custos ainda elevados e incertezas climáticas associadas à formação de um forte El Niño. O ambiente internacional também permanece no radar por causa das tensões geopolíticas e da dependência brasileira de fertilizantes importados, fatores que elevam a volatilidade dos custos de produção.
Segundo o relatório Visão Agro 2026/27, depois de quatro anos de oferta abundante e rentabilidade reduzida, a recuperação mais consistente dos preços agrícolas dependerá de ajustes na oferta global. Caso as condições climáticas favoreçam as principais regiões produtoras, a tendência é de manutenção de preços mais baixos para boa parte das commodities.
Fernandes afirmou que as margens operacionais permanecem sob pressão, especialmente na produção de soja e milho, onde parcela significativa do resultado operacional continua sendo absorvida pelo serviço da dívida. Na avaliação do executivo, produtores com maior nível de arrendamento deverão enfrentar condições mais difíceis para acessar crédito na próxima safra.
Apesar desse cenário, o diretor destacou que a carteira agro do Itaú BBA continua em expansão. “Esse é um ano em que a gente cresce. Vemos um crescimento ao redor de 10% da nossa carteira, mas com esse grau de seletividade e de apoio à nossa base de clientes para construir essa ponte até momentos de maior rentabilidade”, afirmou.
Os fertilizantes continuam sendo um dos principais pontos de atenção para a próxima safra. Enquanto a ureia apresentou recuo de preços, os fosfatados permanecem caros e com oferta restrita. O relatório recomenda antecipar decisões de compra, especialmente para a soja, uma vez que a janela logística para aquisição dos produtos está se estreitando.
O estudo também aponta diferenças importantes entre as cadeias produtivas. Café e pecuária ainda preservam níveis de rentabilidade relativamente melhores, embora enfrentem desafios próprios. Já segmentos como cana-de-açúcar, suinocultura e florestas apresentam um ambiente mais pressionado do que na safra anterior. Na soja, estoques globais mais ajustados deixam os preços mais sensíveis a eventuais perdas climáticas. No milho, a boa segunda safra garante oferta confortável, mas a demanda segue sustentada pelas proteínas animais e pelo etanol.
O que dizem os consultores do Itaú BBA para as principais commodities
Soja
A soja deve registrar mais uma safra recorde no Brasil em 2026/27, embora em um ritmo de expansão menor do que o observado nas últimas duas décadas. Segundo Francisco Queiroz, especialista da consultoria Agro do Itaú BBA, o aumento dos custos de produção e a redução das margens vêm desacelerando o crescimento da área cultivada. “Se a gente cresceu nos últimos 20 anos mais ou menos 5% ao ano a área de soja, a nossa perspectiva de crescimento para a safra 26/27 é de 0,5% somente”, afirmou. O executivo ressaltou que o cenário-base continua sendo de uma produção próxima de 182,4 milhões de toneladas, mas alertou que uma eventual quebra de safra no Mato Grosso poderia alterar o equilíbrio global da commodity. “Se tivermos problemas ali no Mato Grosso, a gente pode ter um desequilíbrio do balanço global e aí sim os preços teriam uma reação em Chicago.”
Milho
Para o milho, a principal preocupação do Itaú BBA está concentrada na segunda safra. A avaliação é que o fortalecimento do El Niño pode atrasar o plantio da soja e reduzir a janela ideal para o cultivo do cereal, aumentando o risco climático. “A nossa maior preocupação, pensando em Brasil, é na segunda safra”, disse Francisco Queiroz. Ao mesmo tempo, o executivo avalia que a expansão do etanol de milho continuará sustentando a demanda doméstica e oferecendo suporte aos preços. “A gente projeta o crescimento de consumo de milho somente para a produção de etanol de 10 milhões de toneladas”, afirmou. Segundo ele, o mercado apresenta “um cenário um pouco mais construtivo sob a ótica de preços”, diante da redução dos estoques mundiais e do aumento do consumo interno.
Algodão
No algodão, a expectativa é de um mercado internacional mais apertado, com redução da produção entre os principais países exportadores. Para o Brasil, a perspectiva é de estabilidade na área plantada, já que parte dos produtores deverá priorizar o milho na segunda safra. “Os produtores que fazem os dois eventualmente devem priorizar mais o milho, um pouco menos o algodão”, afirmou Francisco Queiroz. Segundo o especialista, Estados Unidos, China e Brasil devem produzir menos na safra 2026/27, movimento que reduz a oferta global e tende a diminuir os estoques da fibra. “No final do dia, isso também leva o mundo a um panorama de aperto de oferta e de redução de estoques.”
Açúcar e etanol
O setor sucroenergético deve ampliar a moagem de cana na safra 2026/27, impulsionado pela recuperação da produtividade e pela maior disponibilidade de matéria-prima. Segundo Mariana Zechin, especialista da Consultoria Agro do Itaú BBA, o principal desafio será transformar esse potencial em produção efetiva. “Não basta eu ter cana disponível. É preciso que o clima permita a colheita e o processamento desse volume”, afirmou. A executiva avalia que o El Niño pode provocar interrupções na colheita, piorar a qualidade da matéria-prima e aumentar a produção de etanol na entressafra, pressionando os preços do biocombustível em um mercado já abastecido pela expansão do etanol de milho.
No mercado de açúcar, a consultoria projeta uma mudança de cenário. Após o superávit registrado na safra 2025/26, a expectativa é de um déficit global de cerca de 700 mil toneladas em 2026/27, reflexo do desestímulo à produção em países como Tailândia e Índia. No Brasil, os resultados iniciais da safra também levaram o Itaú BBA a revisar a expectativa para o mix de produção das usinas do Centro-Sul. “Hoje a gente trabalha com o mix de produção de açúcar no Centro-Sul na casa de 46,4%”, disse Mariana Zechin, abaixo da projeção inicial de 48,5%.
Bovinos
O mercado de bovinos atravessa um período de transição do ciclo pecuário, com perspectiva de preços mais firmes em 2026, embora o curto prazo seja marcado por incertezas provocadas pela suspensão das compras chinesas. Segundo Cesar de Castro Alves, gerente da consultoria Itaú BBA, a retenção de matrizes deve reduzir gradualmente a oferta de carne. “A tendência é, no ano que vem, menos oferta e, possivelmente, preços mais firmes”, afirmou. O executivo pondera, no entanto, que o segundo semestre será pressionado pela interrupção das exportações para a China, o que pode enfraquecer temporariamente o mercado doméstico.
Suínos
A suinocultura é o segmento que mais preocupa o Itaú BBA entre as proteínas animais. Apesar do custo da ração continuar baixo, o excesso de oferta e a queda dos preços comprimiram as margens dos produtores. “As margens já estão negativas. A gente teme bastante o setor de suínos porque precisa fazer um ajuste, precisa reduzir o tamanho do mercado para o setor se equilibrar”, disse Cesar de Castro Alves. Segundo ele, um eventual aumento do custo do milho em 2026 pode ampliar ainda mais a pressão sobre a atividade.
Frango
Na avicultura, o cenário segue mais equilibrado, sustentado pelo bom desempenho das exportações e pelo custo competitivo da ração. Ainda assim, o ritmo acelerado da produção exige cautela. “O setor vai, mais uma vez, bater recorde de tudo. De produção, de consumo. E as margens ainda não estão ruins de frango”, afirmou Cesar de Castro Alves. O principal risco apontado pelo executivo está na biossegurança, já que qualquer restrição às exportações poderia afetar um mercado que opera com elevada produção.
Café
A produção brasileira de café deve alcançar 72,5 milhões de sacas na safra 2026/27, impulsionada pela recuperação da safra de arábica, o que deve devolver o mercado global ao superávit. “O Brasil é o principal produtor, contribuindo com 81% para esse crescimento da oferta na safra 2026/27”, afirmou a especialista Marina Maragon. Apesar da expectativa de preços mais baixos, a especialista recomenda atenção às oportunidades de comercialização. “É muito importante que o produtor trabalhe estratégia de gestão de risco, aproveitando momentos de alta dos preços”, disse. O principal risco climático permanece concentrado na formação das floradas da safra 2027/28, caso o El Niño provoque irregularidade nas chuvas.
Trigo
O mercado de trigo segue pressionado por margens apertadas, o que deve limitar investimentos e reduzir a atratividade da cultura no Brasil. Segundo Marina Maragon, muitos produtores mantêm o cereal no sistema mais pelos benefícios agronômicos à soja do que pela rentabilidade. “O único atrativo para ele continuar produzindo trigo são os ganhos que a cultura traz para a próxima safra de verão, porque os preços seguem muito baixos e as margens pouco atrativas”, afirmou. A executiva alerta que o El Niño aumenta o risco de perda de qualidade dos grãos durante a colheita, o que pode reduzir a oferta de trigo destinado à panificação.
Arroz
O arroz continua enfrentando um cenário de preços deprimidos, reflexo da ampla oferta no mercado internacional e dos elevados estoques no Brasil. Para Marina Maragon, a recuperação da rentabilidade dependerá de um novo ajuste na produção. “A gente pode ver, sim, um novo recuo para a safra 2026/27 porque está vendo preços em níveis muito baixos e margens bastante restritas ao produtor”, disse. A consultoria projeta redução de cerca de 3% na área plantada e também na produtividade, movimento que pode diminuir a oferta na próxima safra, embora a reação dos preços deva ser gradual por causa dos estoques ainda elevados.
Laranja
A citricultura entra na safra 2026/27 com uma produção estimada em 265 milhões de caixas, abaixo da média histórica, mas sem reação dos preços da fruta ou do suco no mercado internacional. Segundo Wharlhey Nunes, especialista da Consultoria Agro do Itaú BBA, o consumo de suco segue enfraquecido após dois anos de preços elevados, o que limita a recuperação da remuneração ao produtor. “Apesar dessa safra menor, a gente não viu aumento dos preços da laranja nem do suco em Nova York. Essa queda de oferta não está sendo tão significativa assim”, afirmou.
O especialista avalia que o cenário será distinto entre os produtores. Aqueles com contratos de longo prazo firmados com a indústria ainda preservam rentabilidade, enquanto quem depende do mercado à vista deve enfrentar margens negativas. “Os produtores que não têm contrato com a indústria e vendem no mercado local têm uma margem negativa, mesmo considerando apenas os custos operacionais”, disse. Para Nunes, o principal risco climático do El Niño não está na safra atual, mas na formação da produção de 2027/28. Além disso, custos elevados e o avanço do greening podem reduzir investimentos nos pomares e comprometer o potencial produtivo dos próximos ciclos.