Após receber um aporte guiado pela família Lafer, da Klabin, em maio deste ano, a Vesper Biotechnologies anuncia um termo de cooperação com o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) da Universidade Federal de Goiás, com o objetivo de desenvolver inteligência artificial voltada à biotecnologia.O anúncio foi feito durante o Anual Meeting 2026, que aconteceu nos dias 25 e 26 de maio, em Florianópolis (SC).
A empresa catarinense é a primeira venture builder brasileira especializada em biotecnologia, atuando não só no investimento, mas na criação e crescimento de empresas do setor, por meio de suporte financeiro e operacional.
Gabriel Bottos, CEO e cofundador da empresa, é engenheiro de formação e soma 20 anos de experiência em criação de empresas em diferentes setores.Sua trajetória no empreendedorismo começou em 2008, ao lado do irmão gêmeo, Rafael Bottos, com a criação de uma empresa de lasers para marcação e microusinagem em peças de metal, a Welle Lasers.
A História da Vesper
Em 2018, Bottos e seus sócios Julio Moura, Jonas Sister e Rafael Bottos, decidiram fundar a Vesper Biotechnologies, com a ideia de criar “empresas boas para o mundo”. “Nós não sonhávamos com biotecnologia nessa época, mas nós tínhamos um real propósito de criar empresas que tivessem algo a mais, além só da geração de capital”, afirma Bottos em entrevista à Forbes Brasil.
O propósito da Vesper mudou em 2019, quando a sobrinha de quatro anos de idade, Helena, foi diagnosticada com neuroblastoma quimiorresistente em estágio 4, uma forma extremamente agressiva e rara de câncer infantil. Ela tinha menos de 3% de chance de sobreviver e menos de um ano e meio de expectativa de vida. “Nós fomos aos melhores médicos, minha família inteira é formada por médicos, mas não tinha solução. Eu aprendi que tem coisa que o dinheiro realmente não compra”, relembra o CEO.
A família levou Helena até Madrid, na Espanha, para inseri-la em um estudo clínico de dois anos de duração, com um medicamento em teste no país. Graças ao tratamento, a menina venceu o câncer e hoje vive uma vida normal e saudável, aos 10 anos de idade. “Parece quase um milagre mas, na verdade, foi biotecnologia”, acrescenta.
A partir dessa realização, Bottos e seus sócios decidiram direcionar toda energia e capacidade para resolver grandes desafios da atualidade, em uma área completamente nova para eles. “Como pode um país tão grande como o Brasil, com tantos diferenciais em termos de biodiversidade, agricultura e medicina, não ter startups de biotecnologia exportando inovação para o mundo todo? E a questão é essa: será que nós não temos ciência de nível internacional, ou será que nós não estamos endereçando corretamente o que temos aqui? Obviamente, é o segundo cenário. Os melhores cientistas do Brasil são tão bons quanto os melhores do mundo.”
A partir desse momento, os sócios começaram a buscar por cientistas no Brasil para oferecer uma proposta ousada: acesso a tudo o que precisarem, seguindo os melhores padrões internacionais de gestão, capital, estrutura e propriedade intelectual, para desenvolverem soluções proprietárias no País. Foram avaliados mais de quatro mil projetos de brasileiros e estrangeiros, com auxílio de um Scientific Advisory Board de estrelas de nível global.
“Não começamos, necessariamente, a procurar por startups, porque as que existem no Brasil estão morrendo ao longo do caminho. Então nós pensamos: onde está a ciência que nós queremos realmente criar? Ela ainda estava dentro da universidade”, conta Bottos.
Ao todo, oito foram selecionados para integrar o portfólio da Vesper, sendo cinco na área de saúde humana e três na área de agricultura e diagnóstico. Desde então, a empresa levantou mais de R$ 220 milhões, com a criação de 17 patentes internacionais e mais de 100 pessoas trabalhando, todas endereçando grandes desafios globais em suas respectivas áreas.
Captação de Recursos
A Vesper, que já conta com investidores como ECOA Capital, Green Rock e programas federais da Finep e Emprapii, abriu no fim de 2025 uma rodada de investimentos de US$ 15 milhões, cerca de R$ 75 milhões, que atraiu investidores de peso, incluindo a família Lafer, da Klabin. A meta, segundo Bottos, é terminar essa captação até o final do ano.
“Uma coisa comum em todos os nossos investidores é a visão estratégica de não só investir em alto risco para ter retorno financeiro, mas de realmente fomentar uma nova matriz econômica no Brasil. Nós estamos falando de um país que teria condições de ser protagonista no mundo, gerar prosperidade de centenas de bilhões de dólares. Alguém tem que começar, esses são os early adopters de uma matriz econômica da qual nós vamos nos orgulhar muito no futuro”, afirma.
O executivo reforça, no entanto, que levantar capital para empresas de biotecnologia no Brasil ainda é um grande desafio, por se tratar de um setor desconhecido e ainda permeado por muitos preconceitos. Segundo o executivo, receios com impasses com a Anvisa, falta de competitividade e longos períodos para desenvolver soluções são alguns dos fatores que a Vesper está tentando desmistificar entre investidores.
“É um negócio meio ovo-galinha: não tem investimento porque não tem case de sucesso e não tem case de sucesso porque não tem investimento”, afirma. O desafio da Vesper é demonstrar e provar para os investidores que as empresas do portfólio podem oferecer ciência de ponta, gestão séria, melhores práticas de governança e condições de levar essas empresas ao ponto de êxito”.
“Nós temos empresas que ganharam o Orphan Drug Designation do FDA americano, e cientistas que figuraram entre os melhores da Europa e Estados Unidos. Nós estamos muito próximos de criar um blockbuster brasileiro que vai fazer todo o jogo virar. Se os investidores não se unirem para resolver isso, nós vamos continuar sendo um assimilador de tecnologia importada, espectadores de inovação. Nós precisamos deixar de ser vassalos e começar a ser líderes do nosso futuro”, afirma.
O setor de biotecnologia no Brasil
Segundo Bottos, o Brasil une uma combinação rara de condições capazes de colocar o País dentro do jogo global no setor de biotecnologia, transformando-o em um veradeiro agente de transformação.
A área de biotecnologia vem sendo profundamente transformada pela evolução da inteligência artificial, por meio da aceleração drástica no desenvolvimento de drogas e soluções diversas, além da redução de riscos. “Na Vesper, em algumas empresas mais do que outras, nós integramos várias tecnologias de IA, porque elas já nasceram com isso; Nós temos empresas que trabalham com GPUs da NVIDIA, que já estão desenvolvendo plataformas próprias de processamento de dados para desenvolver soluções para a agricultura”, afirma.
A Vesper também conta com o maior banco de dados de microrganismos do País, e um dos maiores do mundo de fungos e bactérias, com o objetivo de conseguir reduzir a necessidade de químicos na agricultura.
“Nós falamos muito aqui de RNAs, que são moléculas que carregam informações e estão em todas as células do seu corpo. Nós conseguimos otimizar essas informações carregadas utilizando IA. É como acelerarmos em poucas horas o que levaria 6 bilhões de anos de evolução, explicando de forma simplista”, conta Bottos.
Segundo o executivo, uma das empresas aprovou um projeto de R$ 21 milhões em parceria com a Fiocruz, para desenvolver um novo tratamento para mieloma múltiplo, utilizando plataformas de IA.
Saúde Humana
Na área de saúde humana, a venture desenvolve terapias para câncer, doenças autoimunes, doenças infecciosas, demências e condições ligadas ao envelhecimento, como Alzheimer.
Com foco no combate ao câncer, se destaca a Aptah Bio, liderada por Rafael Bottos, que desenvolve terapias de RNA para tratar tumores e doenças neurodegenerativas. Em fevereiro, a startup recebeu o certificado Orphan Drug Designation da FDA, que considera o medicamento apto para ser testado diretamente em pacientes, dispensando outras fases de estudos clínicos.
Já a Vyro Biotherapeutics foca no desenvolvimento de terapias baseadas em vírus modificados – um dos cases de maior sucesso da empresa é com o Zyka Vírus, no tratamento de tumores no Sistema Nervoso Central (SNL).
Outras startups voltadas para saúde são a Futr Bio, dedicada a desenvolver vacinas com RNA; a Cellerts, focada em terapias celulares; e a Reddot, para diagnósticos moleculares.
O Agronegócio
Atualmente, o portfólio de empresas do agro da Vesper é composto pela Symbiomics, que desenvolve bioinsumos para substituir fertilizantes químicos, InEdita e Hapiseeds, com foco em edição genômica de plantas. Os objetivos são divididos em três frentes:
- Produzir mais na mesma área;
- Reduzir custos, principalmente de químicos, reduzindo a dependência de fertilizantes e pesticidas e minimizando impacto ambiental;
- Ter menos perdas por estresse climático, aumentando a resiliência climática.
“A nossa estratégia não é necessariamente levar a semente até o fazendeiro e falar ‘Olha, está aqui a semente’. Nós vamos licenciar a tecnologia para produtores de sementes que vão comercializar isso rapidamente pelo mundo. É um modelo de Intel Inside, como o que a NVIDIA faz, que desenvolve a solução e coloca nos robôs e nas máquinas do mundo todo”, conta Bottos.
Visão de futuro
Com a meta de trazer duas startups para o portfólio a cada ano, a Vesper também mira, eventualmente, uma oferta pública inicial (IPO) para financiar sua expansão. No médio prazo, Bottos afirma que a venture planeja ter pelo menos três drogas em fase clínica, cinco a sete diagnósticos no mercado e pelo menos dez produtos agrícolas com teste em campo.
“Com essa combinação de soluções, nós vamos levar a Vesper a um valuation de alguns bilhões de dólares. Nós queremos criar o primeiro unicórnio de biotecnologia do Brasil”, finaliza o CEO.