A inteligência artificial já está presente nas máquinas, nos drones, nos equipamentos agrícolas e nos sistemas de monitoramento do campo. Mas o desafio que mobilizou um grupo de 11 produtoras rurais e executivas durante quase três horas, na manhã de 30 de junho, na sede da Forbes Brasil, em São Paulo, foi outro: como transformar essa tecnologia em uma ferramenta capaz de simplificar processos, apoiar decisões e preparar empresas familiares e grandes organizações para uma nova etapa da gestão. A conversa marcou a primeira edição do Power Connections FMA, formato criado pela Forbes Brasil em 2025 para reunir pequenos grupos de líderes em encontros reservados para discutir temas estratégicos do agronegócio.
“O Agro do futuro não será liderado por quem tem a máquina mais pesada, mas por quem tiver o fluxo operacional mais leve.” A frase do professor Julio Freitas, projetada na tela da sala de reuniões da Forbes Brasil, na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, sintetizou o eixo do encontro “O Agro Inteligente: como a transformação digital está redefinindo produtividade, competitividade e tomada de decisão”. Professor da FAAP e fundador da Fluxe, empresa especializada em aceleração digital, Freitas conduziu a discussão mostrando que o principal obstáculo para a adoção da inteligência artificial já não está na tecnologia disponível, mas na capacidade das organizações de reorganizar seus processos internos. “O caos hoje está no back-office, nas planilhas, nas aprovações manuais e na comunicação”, afirmou.
O Power Connections nasceu como um projeto da Forbes Brasil voltado à realização de encontros entre executivos e lideranças de diferentes setores econômicos. No Forbes Mulher Agro, o modelo ganhou uma edição própria. Esta foi a primeira de quatro reuniões previstas até o fim do ano, sempre com grupos reduzidos e temas definidos previamente. A proposta é transformar as discussões em um material de referência para o grupo, que hoje reúne cerca de 50 líderes do agronegócio brasileiro.
Criado há quatro anos, o Forbes Mulher Agro reúne empresárias, produtoras rurais e executivas que ocupam posições de liderança em diferentes segmentos da cadeia agroindustrial brasileira. O grupo se consolidou como uma comunidade permanente de troca de experiências, produção de conteúdo e discussão de temas estratégicos para o setor. Nesta primeira edição do Power Connections FMA, 11 integrantes participaram da mesa-redonda, inaugurando um formato que será repetido outras três vezes ao longo deste ano, sempre com grupos diferentes e novos temas.
Participaram desta edição Amalia Sechis, da Beef Passion; Amanda Scarpa, do Grupo Mantiqueira; Cintia Ticianeli, da Agroserra Industrial; Elizana Baldissera (Gija), da Fazenda Vale Verde; Fernanda Hoe, da Elanco Saúde Animal; Helen Jacintho, do Grupo Continental; Leticia Jacintho, produtora rural e presidente da associação De Olho no Material Escolar; Luiza Fatorelli, da Fazenda SJ Margarida; Maressa Vilela, do Grupo Cinco Estrelas; e Nina Ploger, da Melhoramentos. A diversidade dos setores representados ampliou a discussão para além das lavouras, incluindo proteína animal, bioenergia, educação, papel e celulose, genética, sustentabilidade e indústria de alimentos.

Atual presidente do Forbes Mulher Agro, Nina Ploger destacou que o encontro inaugura uma nova etapa na trajetória do grupo, criada para ampliar a troca de experiências entre as integrantes. “Esse é o objetivo e o propósito do grupo. Mesmo com as nossas agendas, que não são fáceis, a gente está fazendo essas trocas. Essa integração de conhecimento e de compartilhamento é muito importante nos dias de hoje”, afirmou.
Para Helen Jacintho, cofundadora do Forbes Mulher Agro juntamente com Vera Ondei, editora de agro, esse ambiente de troca responde a uma demanda construída pelas próprias integrantes. “Nós precisávamos de mais tempo para conversar, precisávamos de mais conteúdo. A gente vai absorvendo e trazendo aprendizados para o grupo.”
Apesar das diferenças entre os negócios, os desafios apresentados mostraram grande convergência. As participantes relataram que a inteligência artificial já faz parte da operação no campo, incorporada a máquinas agrícolas, sensores, softwares de monitoramento e sistemas de agricultura de precisão. O ponto considerado mais sensível está na gestão. Organizar dados, integrar informações, reduzir processos manuais e transformar informações dispersas em decisões rápidas aparecem como prioridades comuns entre empresas familiares, multinacionais e grupos de produção.
O diagnóstico surgiu ainda na rodada de apresentações. “Hoje, o que eu percebo no campo é que a tecnologia chegou, a inteligência chegou, mas existe um gap muito grande das pessoas que estão ali”, afirmou Elizana Baldissera Gija, produtora de grãos em Capão Bonito (SP). “Às vezes você tem máquinas no campo, mas não tem pessoas aptas a colocar aquilo em prática.” Para ela, formar equipes capazes de utilizar os recursos tecnológicos disponíveis tornou-se tão importante quanto investir em novos equipamentos.
Essa percepção apareceu sob diferentes perspectivas ao longo da conversa. Luiza Fatorelli, CEO da Fazenda SJ Margarida, afirmou que o avanço da inteligência artificial depende da qualidade das informações produzidas nas propriedades. “Hoje, a nossa maior dificuldade é criar essa base de dados para que a inteligência artificial possa, de fato, auxiliar nessa gestão e na tomada de decisão.” A executiva observou que em um ambiente de margens mais estreitas e decisões cada vez mais complexas, a gestão passa a ocupar papel central dentro das fazendas.
Na avaliação de Maressa Vilela, do Grupo Cinco Estrelas, o agro já incorporou boa parte das tecnologias embarcadas nas operações, mas o próximo salto ocorrerá dentro dos escritórios. “A inteligência artificial está muito presente no agro, nas máquinas, nos drones. Ela precisa chegar na gestão para contribuir com as tomadas de decisão e com toda essa parte administrativa”, afirmou. “Nesse momento de desafio, a gente precisa ser cada vez mais eficiente nas pequenas coisas.”
A mesma lógica apareceu na experiência da Beef Passion. Fundadora da empresa, Amalia Sechis explicou que a inteligência artificial passa a fazer diferença quando ajuda a capturar valor em cada etapa da operação. “Quando a gente vai analisar um boi que a arroba nem chega aos R$ 400, uma desossa bem feita ou uma perda a mais, a análise passou a ser primordial.” Segundo ela, a estratégia da empresa é retirar a carne bovina da lógica exclusivamente baseada em commodities e ampliar a agregação de valor por meio do posicionamento da marca. “O meu objetivo não é volume, o meu objetivo é posicionamento de marca”, afirmou.
A discussão também mostrou que transformação digital e governança caminham lado a lado. Amanda Scarpa compartilhou a experiência do Grupo Mantiqueira, empresa fundada por seu pai e que passou recentemente por mudanças em sua estrutura societária após a entrada da JBS no capital. “Quando entrei no negócio, quis realmente entender toda a operação”, contou. Hoje ela atua como secretária de Governança do Conselho de Administração e acompanha a evolução da empresa em uma fase de profissionalização. A executiva lembrou ainda que começou a estudar tecnologias ligadas ao futuro da alimentação ainda em 2019, quando passou a acompanhar o mercado de foodtechs e proteínas alternativas.
A perspectiva internacional apareceu na fala de Fernanda Hoe, que no início deste ano assumiu uma posição nos Estados Unidos pela Elanco Saúde Animal. “A gente vai vendo as semelhanças e diferenças entre os mercados e como o produtor, muitas vezes, enfrenta desafios muito parecidos aqui e lá”, afirmou. A avaliação reforçou que os obstáculos relacionados à adoção da inteligência artificial e à transformação dos modelos de gestão extrapolam o agronegócio brasileiro.
O tema também alcançou a educação. Presidente da associação De Olho no Material Escolar, Leticia Jacintho chamou atenção para os impactos da inteligência artificial sobre as novas gerações. “Quero saber como as crianças vão saber discernir o certo do errado”, afirmou. Para ela, tecnologia e educação passaram a caminhar juntas na formação dos futuros profissionais e cidadãos.
Não por acaso, Freitas propôs que cada participante refletisse sobre cinco questões: em que estágio sua empresa se encontra na adoção da inteligência artificial; quais iniciativas já estão em andamento; quais obstáculos dificultam sua expansão; quais medos ainda cercam essa transformação; e onde está o maior potencial de geração de valor. As respostas mostraram que as barreiras são menos tecnológicas do que culturais. Empresas consolidadas convivem com diferentes gerações de gestores, estruturas organizacionais complexas e processos que ainda dependem de controles manuais.

Durante a discussão, Cintia Ticianeli observou que a inteligência artificial também exige uma mudança de mentalidade. “O mundo não é determinístico. A gente não tem controle de tudo. A gente vive resolvendo problemas difíceis.” Freitas respondeu afirmando que as organizações precisam compreender o contexto em que as decisões acontecem, em vez de depender apenas de processos lineares. Ao abordar a resistência às mudanças, lembrou que toda empresa reúne perfis conservadores, tradicionais, inovadores e disruptivos. “O melhor dos mundos é você ter um representante de cada perfil desse na sua equipe”, afirmou.
Fato é que ao final da manhã, poucas respostas eram definitivas. Em compensação, havia consenso de que velocidade de decisão, qualidade dos dados e integração entre pessoas passam a determinar a competitividade das empresas. Antes de abrir o debate, Freitas havia deixado uma provocação que simboliza boa parte da conversa: “Enquanto as pessoas não enxergarem valor, elas não vão atribuir relevância. E, se não atribuírem relevância, você não terá adesão.” Foi esse movimento de construção coletiva, muito mais do que a tecnologia em si, que marcou a estreia do Power Connections FMA. Os próximos três encontros previstos para este ano darão continuidade às discussões sobre temas considerados estratégicos para a gestão e a competitividade do agronegócio brasileiro.