“Como qualquer atividade, existem altos e baixos, e a resiliência e a capacidade de superação dos momentos difíceis é que transformam sonhos em realidades.” A frase surge naturalmente durante a conversa com Tages Martinelli com exclusividade à Forbes Agro. Não parece uma resposta ensaiada, porque soa mais como um resumo de vida. Aos 50 anos, o executivo acaba de alcançar ao topo da estrutura de comando da Jotabasso, uma das maiores produtoras de sementes do Brasil, após uma trajetória de quase 28 anos construída dentro da própria companhia.
Justamente quando assume o cargo de CEO, encontra pela frente um dos ambientes mais desafiadores vividos recentemente pelo mercado brasileiro de sementes. A combinação de preços mais pressionados para as commodities agrícolas, aumento dos custos de produção, margens mais estreitas e um produtor rural cada vez mais seletivo, transformou 2026 em um período de ajustes para grande parte da indústria de insumos.
Em um mercado que movimenta cerca de R$ 45 bilhões por ano no Brasil, segundo estimativas de mercado, a busca por eficiência passou a ser tão importante quanto a busca por produtividade. Mas, ao contrário do que poderia sugerir o cenário, Martinelli não demonstra preocupação excessiva. A explicação está na própria história da empresa.
Fundada em 1971 pela família Basso, a Jotabasso chega aos 55 anos em 2026 consolidada como uma das principais forças da indústria brasileira de sementes.
Com faturamento superior a R$ 1 bilhão, presença em praticamente todo o território nacional e atuação diversificada em soja, milho, trigo e pecuária, a companhia construiu sua trajetória atravessando diferentes ciclos do agronegócio brasileiro.
“Sabemos que o momento da atividade agrícola é de baixa, com pressões externas e pressões de câmbio. Porém, estamos preparados e sabemos que tudo isso é cíclico”, afirma o executivo.

A história de Martinelli dentro da Jotabasso começou em outubro de 1998. Filho de pequenos produtores rurais do interior do Rio Grande do Sul, ele se formou como técnico agrícola e passou por diferentes regiões do País antes de chegar à companhia.
Sua primeira missão foi administrar a área de suinocultura do grupo, atividade que mais tarde seria encerrada em função de sua baixa representatividade nos negócios.
A partir dali, iniciou uma jornada que o levou praticamente por todos os setores da organização.
Atuou na produção agrícola, acompanhando operações de algodão, plantio e colheita. Trabalhou no beneficiamento da fibra, na área de exportação, em operações de trading e no pós-venda de sementes de soja. Mais tarde, assumiu posições estratégicas nas áreas financeira, administrativa, recursos humanos, sustentabilidade e comercial.
Poucos executivos conhecem tão profundamente a estrutura da empresa quanto ele.
A experiência acumulada ao longo de quase três décadas permitiu acompanhar de perto a transformação da Jotabasso de uma empresa regional para uma organização com alcance nacional, governança corporativa consolidada e presença relevante no mercado brasileiro de sementes.
“Uma das grandes fortalezas da Jotabasso sempre foi a valorização das equipes e a preparação das pessoas para enfrentar os momentos de dificuldade que acontecem ciclicamente no agro”, afirma.
Essa cultura ajudou a moldar uma empresa familiar que, ao longo dos anos, incorporou práticas típicas das grandes corporações.
A companhia possui conselho de administração desde os anos 2000 e mantém processos auditados por uma das grandes empresas globais de auditoria, combinação que fortaleceu sua estrutura de governança sem abrir mão dos valores herdados do fundador João Basso.
A força de uma das maiores sementeiras do Brasil

O coração do negócio continua sendo a semente. Em um mercado onde a tecnologia passou a valer tanto quanto a genética embarcada no produto. Nacionalmente, a produção de sementes no Brasil cresceu 2,9% na safra 2025/2026, alcançando 4,25 milhões de hectares monitorados por órgãos oficiais, segundo dados da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem).
O avanço reflete a busca por maior produtividade e o fortalecimento de toda a cadeia do agronegócio nacional. A soja lidera com hegemonia absoluta, ocupando 3,48 milhões de hectares desse total. Em seguida, destacam-se o milho, com 207,3 mil hectares, e o mercado de pastagens forrageiras, com 101,5 mil hectares.
A Jotabasso consolidou sua posição ao lado de grandes produtoras de sementes do País como Boa Safra Sementes, Amaggi, Bom Futuro, SLC Agrícola, Atto Sementes e o Grupo Girassol. Atualmente ela produz mais de 1 milhão de sacas de sementes de soja por ano.
“Qualidade não se mede no volume. Qualidade se mede pela entrega ao produtor,” diz Martinelli.
A estratégia conversa diretamente com a evolução do mercado brasileiro de sementes. Durante a última década, a disputa deixou de ocorrer apenas em toneladas produzidas e passou a migrar para o valor tecnológico agregado.
Biotecnologias mais avançadas, tratamentos industriais sofisticados, materiais genéticos adaptados a diferentes regiões e soluções capazes de reduzir riscos climáticos passaram a definir a competitividade do setor. Foi nesse ambiente que a Jotabasso ganhou protagonismo.
Uma estrutura espalhada pelo coração agrícola do Brasil
O crescimento da companhia acompanhou o avanço da agricultura brasileira sobre o Cerrado.
Hoje, a empresa mantém operações estratégicas em algumas das regiões mais importantes do agronegócio nacional, incluindo estruturas produtivas e unidades de beneficiamento de sementes localizadas em Rondonópolis, em Mato Grosso, e Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul.
Essas unidades funcionam como centros de processamento e distribuição capazes de atender produtores em diferentes estados brasileiros.
A presença da empresa vai além da produção de sementes. Ao longo dos anos, a Jotabasso construiu um modelo baseado na diversificação das atividades. Além da liderança em sementes de soja, a companhia produz soja em grão, milho, trigo e mantém operações pecuárias que ganham participação crescente dentro do faturamento do grupo.
Segundo Martinelli, essa estratégia ajuda a diluir riscos, melhorar a utilização das áreas agrícolas e aumentar a eficiência econômica da operação.
A estrutura também possui impacto relevante na geração de empregos. Atualmente, a companhia mantém cerca de 800 colaboradores fixos. Durante os períodos de safra, esse número se aproxima de mil profissionais envolvidos nas atividades agrícolas, industriais, logísticas e comerciais.
Crescimento sem abrir mão da rentabilidade

Embora o faturamento da empresa já tenha ultrapassado R$ 1 bilhão, os planos de expansão continuam sobre a mesa. O detalhe é que o crescimento não virá baseado apenas em aumento de produção.
“Queremos crescimento com rentabilidade”, afirma Martinelli.
A frase reflete uma preocupação cada vez mais comum entre empresas do agronegócio. Depois de um período de expansão acelerada impulsionado pelos preços recordes das commodities, o setor voltou a olhar com mais atenção para eficiência operacional, gestão financeira e controle de custos.
Dentro da Jotabasso, isso significa buscar ganhos em todas as etapas do processo produtivo. “Nós temos que olhar para dentro de casa. Está na nossa mão. Nós temos muito mais controle dos nossos custos”, afirma o CEO.
A companhia também mantém atenção constante às alternativas de financiamento disponíveis no mercado. Recentemente, ampliou sua presença no mercado de capitais e continua avaliando instrumentos capazes de reduzir o custo financeiro das operações em um ambiente de juros historicamente elevados.
O legado que pretende construir
Depois de quase três décadas percorrendo todos os degraus da organização, Martinelli evita associar seu legado a indicadores financeiros ou recordes de produção. Seu objetivo é mais amplo.
Ele quer entregar uma empresa preparada para atravessar as próximas décadas mantendo os mesmos princípios que sustentaram sua trajetória até aqui: respeito às pessoas, compromisso com o produtor, responsabilidade ambiental, inovação e crescimento sustentável.
Talvez seja justamente por isso que o atual momento do mercado não o assuste, pois quem passou quase 28 anos aprendendo a lidar com os ciclos do agronegócio sabe que os períodos difíceis são passageiros. O que permanece é a capacidade de adaptação.
E é exatamente nessa capacidade que a Jotabasso aposta para seguir entre os protagonistas do mercado brasileiro de sementes.