Maarten Goossens, sócio da Anterra Capital, gestora de capital de risco com atuação na Holanda e nos Estados Unidos, demonstra ceticismo em relação a algumas das afirmações mais exageradas sobre a forma como a tecnologia poderá transformar a agricultura. “Estamos nesse mercado desde 2013 e acompanhamos um ciclo de expansão e retração”, afirma. “Cada nova tecnologia acabou se mostrando cara demais, não conseguiu ganhar escala e não proporcionou retorno sobre o investimento para os produtores rurais.”
Em vez de apostar em visões que parecem saídas da ficção científica, como enormes fazendas verticais ou a substituição completa da carne por alternativas vegetais, o caminho está em repensar as estruturas e práticas já existentes no setor agropecuário, argumenta Goossens. A Anterra acaba de concluir o primeiro fechamento de um novo fundo voltado para empreendedores e especialistas em tecnologia que façam exatamente isso. Até o momento, a gestora captou US$ 100 milhões (R$ 550 milhões na cotação atual) junto a investidores e pretende alcançar um patrimônio final de US$ 200 milhões (R$ 1,1 bilhão).
A oportunidade é enorme. O setor de alimentos e agricultura é o maior do planeta, movimentando cerca de US$ 10 trilhões (R$ 55 trilhões) e empregando cerca de 1,3 bilhão de pessoas, quase 40% de toda a força de trabalho mundial. Mudanças demográficas e os desafios climáticos exigem que produtores rurais e toda a cadeia ampliem continuamente a produção agrícola, muitas vezes em condições cada vez mais difíceis.
“Estamos procurando soluções tecnológicas que já tenham eficácia comprovada e que possam ser aplicadas nesse setor”, explica Goossens. “Os segmentos da economia em que atuamos, grandes, complexos e historicamente resistentes às mudanças, finalmente estão prontos para serem transformados, e as ferramentas necessárias para isso já existem.”
A palavra “comprovadas” é fundamental. Segundo dados da Research & Markets, o mercado global de tecnologias para o agronegócio movimentou US$ 24,8 bilhões (R$ 136,4 bilhões) em 2024 e deverá crescer a uma taxa anual superior a 12% até 2030. No entanto, os produtores precisam de produtos e serviços que funcionem na prática, e não de tecnologias experimentais cujo desempenho ainda seja incerto. Por isso, o novo fundo da Anterra concentra seus investimentos em ferramentas que já vêm sendo utilizadas com sucesso em outros setores.
Dois dos primeiros investimentos do fundo ilustram essa estratégia. Um deles é a Anchr, plataforma de distribuição atacadista de alimentos baseada em inteligência artificial, que aplica ao setor alimentício conhecimentos desenvolvidos na logística digital de outros segmentos. A Anterra investiu na empresa em estágio inicial ao lado da a16z Speedrun no início deste ano. Outro investimento é a Animerra, empresa de produtos biológicos que utilizará avanços obtidos pelas ciências da vida na saúde humana para desenvolver novas abordagens voltadas à medicina veterinária.
A Animerra também representa outro princípio importante que, segundo Goossens, diferencia a Anterra de outros investidores do universo das tecnologias para o agronegócio. “Quando identificamos uma lacuna no mercado, não temos receio de criar nossas próprias empresas”, afirma. A gestora tanto investirá em empresas já existentes que buscam recursos para expandir suas operações quanto incubará novos negócios desenvolvidos internamente, como é o caso da Animerra.
O novo fundo aproveitará a experiência acumulada por Goossens e seus colegas nos dois fundos anteriores lançados e administrados pela Anterra desde 2013. “Sem dúvida, chegamos cedo a essa tendência e vimos alguns investidores apostarem em soluções excessivamente complexas”, afirma. “Sempre procuramos identificar empresas disciplinadas, capazes de gerar retornos concretos tanto para seus clientes quanto para seus investidores.”
Naturalmente, a inteligência artificial será uma parte importante dessa trajetória. Porém, a Anterra demonstra tanto entusiasmo pelas aplicações práticas da IA, como a automação de processos manuais e analógicos na agricultura, quanto pelo potencial da tecnologia para transformar, por exemplo, a forma como pesquisa e desenvolvimento são conduzidos.
Os investidores também demonstram forte interesse, especialmente em razão do histórico dos dois primeiros fundos da Anterra, que registraram saídas relevantes, incluindo uma oferta pública inicial de ações na Nasdaq e uma série de aquisições realizadas por compradores estratégicos.
Até o momento, a base de investidores reúne instituições financeiras, operadores da cadeia de alimentos e inovação do setor provenientes da América do Norte, Europa e Ásia-Pacífico. Entre eles estão o maior banco do mundo voltado aos setores de alimentos e agricultura, um dos maiores investidores globais em ciências da vida, um dos principais fundos soberanos da Ásia e a maior empresa mundial de saúde animal.
O fundo pretende construir um portfólio com aproximadamente 15 a 20 empresas. “Passamos 12 anos e dois fundos demonstrando que é possível criar empresas líderes de categoria nos setores de alimentos e agricultura, gerando retornos concretos ao fazer isso”, afirma Brett Wong, também sócio da Anterra Capital. “O que mudou é que, finalmente, o mundo alcançou essa visão.”