04/06/2026

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Onde Está o Dinheiro e por Que Ele Ainda Não Chega

Um importante estudo divulgado neste mês de maio pelo Centro para Investimento de Impacto e Práticas (Centre for Impact Investing and Practices), sediado em Singapura, em parceria com a Temasek e a Invesco, entrevistou 165 financiadores asiáticos que representam mais de US$ 1 trilhão (R$ 5,4 trilhões na cotação atual) em ativos sob gestão e constatou que adaptação climática e resiliência ocupam o primeiro lugar entre os temas de impacto. O centro é de uma organização criada em 2022 pela Temasek Trust, braço filantrópico ligado à Temasek Holdings, com o objetivo de desenvolver padrões, pesquisas e capacitação para o mercado de investimentos de impacto na Ásia e em outras regiões

Segundo o estudo, a Ásia está aquecendo duas vezes mais rápido que a média global, 3,7 bilhões de pessoas na região foram afetadas por eventos climáticos desde 2000 e o continente concentra aproximadamente 75% da lacuna mundial de financiamento para adaptação. Em escala global, os prejuízos econômicos causados por desastres naturais cresceram cerca de cinco vezes como proporção do PIB desde a década de 1970. Somente em 2025, as perdas chegaram a US$ 224 bilhões (R$ 1,21 trilhão), com mais de 17 mil mortes.

Ainda assim, os fluxos atuais de financiamento para adaptação variam entre US$ 26 bilhões e US$ 50 bilhões por ano (entre R$ 140,4 bilhões e R$ 270 bilhões), diante de necessidades anuais entre US$ 310 bilhões e US$ 365 bilhões (entre R$ 1,67 trilhão e R$ 1,97 trilhão) até 2035, sendo que menos de 11% desse valor vem do setor privado.

Na COP30, realizada em novembro passado e apresentada como a “COP da implementação e da adaptação”, os governos se comprometeram a triplicar o financiamento para adaptação para US$ 120 bilhões por ano até 2030 (R$ 648 bilhões na cotação atual). Ainda assim, menos da metade do necessário.

Então, como tornar a adaptação e a resiliência mais compreensíveis para investidores em todo o mundo?

  1. Pare de tratar todo capital para adaptação como se fosse a mesma coisa

O setor ainda está em estágio inicial. Susan Hunt Stevens, cofundadora e CEO da Tessi, empresa de tecnologia que ajuda proprietários de imóveis a reconstruírem de forma mais resiliente após desastres, faz uma analogia útil:

“Isso me lembra minha primeira conferência GreenBiz sobre sustentabilidade corporativa em 2011. Líderes pioneiros como Levi’s, Unilever e Walmart faziam um trabalho incrível, mas as salas eram pequenas, todos se conheciam e a maioria das empresas ainda estava decidindo o que faria, se faria alguma coisa. O que diferencia essas pequenas salas hoje é a urgência. Desastres naturais e secas são extremamente visíveis fisicamente e financeiramente devastadores. Quase não há discussão sobre o porquê. A conversa é muito mais sobre como vamos financiar isso.”

Essa pergunta — como vamos financiar isso? — exige precisão. A discussão sobre investimentos em adaptação enfrenta um problema fundamental de enquadramento: ela trata um conjunto amplo de classes de ativos, perfis de risco e expectativas de retorno como se fossem uma única categoria. Não são. E não distinguir essas diferenças pode dificultar os fluxos de capital. Laurie Schoeman, diretora de investimentos e impacto da Partners for the Common Good e ex-conselheira sênior de resiliência climática do presidente dos Estados Unidos Joe Biden, resumiu a questão de forma direta:

“Cada tipo de capital precisa de um retorno adequado. Investidores em participações acionárias querem entre 11% e 18%. Bancos enquadrados na Lei de Reinvestimento Comunitário aceitam entre 5% e 6%. O mercado de títulos pode trabalhar com 3% a 4%.”

As soluções de adaptação e resiliência variam enormemente: um produto de seguro paramétrico acionado por limites de temperatura pode precisar de uma parceria estratégica com uma seguradora para chegar ao mercado; uma barreira contra enchentes em escala comunitária pode ser financiada por meio de títulos municipais; uma startup em estágio inicial desenvolvendo previsão de secas com inteligência artificial pode precisar de capital de risco para crescer; uma empresa industrial de médio porte que deseja reduzir o risco climático em sua cadeia de suprimentos pode necessitar de um empréstimo bancário.

Todos esses são investimentos em adaptação. Porém, possuem bases de investidores, expectativas de retorno, perfis de risco e horizontes temporais diferentes. Se agrupamos tudo sob o mesmo rótulo, deixamos de contar uma história realmente representativa.

Virginie Morgon, fundadora e sócia-administradora da Ardabelle Capital, empresa europeia de private equity voltada para transformação de cadeias de valor, torna essa distinção mais concreta:

“Algumas áreas são altamente adequadas ao private equity: tecnologias industriais, eficiência hídrica, equipamentos para resíduos, agricultura resiliente, plataformas de economia circular, eficiência energética, ecossistemas de renovação de edifícios e digitalização de cadeias de suprimentos. Outras áreas de adaptação são menos compatíveis com as expectativas tradicionais de retorno do private equity. Infraestruturas de proteção em larga escala, ativos de resiliência de longo prazo ou sistemas públicos de adaptação podem exigir finanças mistas, capital de infraestrutura ou estruturas público-privadas.”

Uma taxonomia da estrutura de capital, que relacione classes específicas de ativos de adaptação aos tipos de investidores e perfis de retorno mais adequados, em vez de apresentar adaptação como uma categoria homogênea, é fundamental nesse contexto.

  1. Construir os sistemas habilitadores, não apenas os ativos

Pesquisas do Instituto Mundial de Recursos (World Resources Institute) apresentam um argumento macroeconômico poderoso para a adaptação, mostrando que projetos bem estruturados podem gerar retornos anuais de dois dígitos e múltiplas fontes de valor econômico e social em grande escala. Diante disso, o que poderia formar um sistema mais favorável para a circulação do financiamento de adaptação? Três iniciativas ajudam a responder.

Primeiro, precisamos de mecanismos de pagamento mais bem definidos. Em instrumentos de dívida e emissões de títulos voltados para adaptação, a pergunta fundamental é: quem realmente paga essa conta? A resposta varia conforme a estrutura. Títulos de obrigação geral distribuem o pagamento entre os contribuintes municipais.

Títulos lastreados em receitas vinculam o pagamento a uma fonte específica de renda, como tarifas de serviços públicos ou pedágios. Porém, nem todos os ativos de adaptação geram fluxo de caixa direto. Uma barreira contra enchentes protege valores imobiliários, mas não cobra taxa de ninguém por isso.

A restauração de áreas úmidas costeiras sequestra carbono, reduz impactos de tempestades e melhora a qualidade da água, benefícios públicos com muitos beneficiários e sem um pagador claramente definido. A Câmara de Comércio Internacional observou que o setor precisa desenvolver estruturas nas quais o pagamento esteja ligado a perdas evitadas ou contribuições dos beneficiários, transformando a resiliência em fluxo de caixa e não apenas em um imperativo moral.

Segundo, comprovação de desempenho. A mitigação possui uma unidade universal de medida: uma tonelada de CO₂ reduzida ou removida é um resultado padronizado, negociável e verificável. A adaptação não possui equivalente.

Um estudo de mensuração da OCDE constatou que estabelecer uma relação causal entre uma intervenção e a redução da vulnerabilidade climática é apontado como grande desafio por 80% dos países participantes. Essa lacuna de mensuração limita diretamente o capital disponível. Investidores não podem financiar aquilo que não conseguem verificar, e não conseguem verificar resultados sem uma definição acordada. Isso começa a mudar.

O Adaptation and Resilience Investors Collaborative, consórcio formado por dez instituições financeiras de desenvolvimento, publicou em 2024 uma estrutura para medir impactos de adaptação de maneira relevante para investidores e passível de agregação entre portfólios.

Terceiro, redução da burocracia. Mesmo projetos de adaptação bem concebidos, com estruturas claras de pagamento e modelos de desempenho validados, podem sofrer atrasos por questões de licenciamento e zoneamento. Não se trata de mero inconveniente operacional. É um fator estrutural que reduz retornos e altera profundamente a percepção de risco.

Na União Europeia, atrasos no licenciamento de projetos de infraestrutura energética frequentemente ultrapassam dois anos e, em alguns casos, chegam a quatro anos, o dobro do prazo máximo previsto na Diretiva de Energias Renováveis. A complexidade e a duração dos processos de licenciamento industrial são consideradas um grande obstáculo ao investimento por 83% das empresas que atuam na Europa. Esses atrasos geram custos e incertezas que afastam investidores. A previsibilidade dos processos é requisito para investimentos em larga escala.

O fortalecimento do ecossistema de adaptação e resiliência é essencial. Morgon contesta a ideia de que sistemas habilitadores sejam apenas centros de custo:

“Um dos maiores equívocos sobre investimentos em adaptação e resiliência é acreditar que são estratégias necessariamente de baixo retorno ou concessionárias. Na realidade, a resiliência possui valor econômico crescente porque a volatilidade se tornou um dos principais fatores de custo. O perfil de retorno que buscamos é marcado por menor volatilidade dos lucros, maior poder de precificação, mais segurança no abastecimento, resiliência regulatória e maior durabilidade dos fluxos de caixa.”

  1. Escala não é opcional — ela é a própria tese de investimento

Muitas vezes, investir em adaptação exige pensar projeto por projeto: um edifício, um bairro, uma comunidade de cada vez. Mas, se a demanda global por investimentos em resiliência supera US$ 1 trilhão por ano (R$ 5,4 trilhões na cotação atual), precisamos ir além dessa lógica.

Os investimentos em adaptação que surgem hoje podem gerar um efeito de transbordamento, com retornos que ultrapassam o projeto imediato e transformam o valor dos ativos e das comunidades ao redor. Escala não é apenas uma ambição financeira; é a forma pela qual os retornos efetivamente se concretizam.

Evidentemente, isso não é simples. Alcançar tamanho e alcance significativos envolve concessões. A padronização pode reduzir a adequação local, e a agregação pode ocultar necessidades específicas de cada comunidade. Isso é especialmente verdadeiro para soluções de adaptação, que frequentemente exigem abordagens locais.

Schoeman, que trabalhou amplamente com infraestrutura comunitária em Nova York, Los Angeles e Miami, usa a região do DUMBO, no Brooklyn, como exemplo:

“O que aquela barreira de mitigação de enchentes fez não foi apenas proteger a bacia do DUMBO. Ela gerou um efeito positivo que se espalhou por toda a comunidade e por todo o distrito, elevando o valor avaliado de tudo ao redor. É como o efeito da High Line.”

Considere a elevação de vias em Miami Beach, que protege não apenas as estradas, mas toda a base de ativos associada a elas. Ou as concessionárias de energia da Califórnia, que atualmente gastam cerca de US$ 9 bilhões por ano (R$ 48,6 bilhões na cotação atual) em prevenção de incêndios florestais, investimento que pode ser visto como uma das decisões de gestão de risco mais prudentes da década.

A escala também cria uma obrigação: garantir que a resiliência não se torne um privilégio. As comunidades não podem ser resilientes se as famílias não conseguirem encontrar, pagar ou acessar soluções. A tese de investimento consiste em construir infraestrutura em escala comunitária que eleve o nível mínimo de resiliência para todos e gere retornos que financiadores possam efetivamente assumir.

  1. Resiliência é a base, não a manchete

E os melhores investimentos em adaptação talvez nem sejam apresentados como adaptação. Décadas de construção do argumento em favor das energias renováveis não foram vendidas como “mitigação”, mas como economia de custos e estabilidade.

Stevens, que passou quinze anos trabalhando na interseção entre mudança de comportamento e sustentabilidade, observou esse padrão repetidamente:

“Quinze anos em sustentabilidade me ensinaram que as melhores soluções climáticas são aquelas adotadas por razões convencionais — vantagens de preço, melhorias de qualidade, facilidade de uso e economia de tempo — mas que também oferecem um benefício ambiental. A resiliência não é diferente. Em nosso trabalho, precisamos tornar os reparos residenciais mais rápidos, mais fáceis e mais econômicos. Quando fazemos isso, abrimos espaço para escolhas que permitam reconstruir melhor.”

Tomemos o financiamento da agricultura de precisão. Agricultores e investidores tendem a falar menos sobre necessidades de financiamento para adaptação e mais sobre o fato de que financiamento por participação acionária não está disponível para a maioria dos produtores e que os negócios são pequenos demais e pouco acessíveis para investidores em escala. Resolva esse problema estrutural para agricultores e investidores e será possível incorporar incentivos para saúde do solo e resiliência da produtividade dentro da própria estrutura do investimento. A resiliência não é o destaque. Ela é o resultado viabilizado pela estrutura.

Outro exemplo é o redesenho de edifícios. Bombas de calor são normalmente vistas como tecnologia de descarbonização. Porém, instalar esses equipamentos em telhados e fora de porões sujeitos a inundações, descentralizando sistemas de aquecimento e refrigeração, também pode ser entendido como uma medida de adaptação. A narrativa de mitigação atrai o financiamento. O benefício de adaptação vem junto.

O setor não precisa esconder o que está fazendo. Mas precisa falar a linguagem dos investidores que deseja alcançar.

  1. A divisão entre adaptação e mitigação é a discussão errada

Por muito tempo, adaptação e mitigação foram apresentadas como concorrentes. Cada dólar destinado a uma barreira contra enchentes seria um dólar que deixa de financiar um painel solar. Essa forma de pensar é contraproducente.

Morgon explica a partir da experiência da Ardabelle:

“Na Ardabelle, vemos cada vez mais resiliência, descarbonização e soberania como três dimensões da mesma transformação industrial. No nível do portfólio, a distinção entre adaptação e descarbonização está se tornando menos relevante na prática. Uma empresa que reduz sua intensidade energética, aproxima fornecedores críticos, desenvolve fluxos circulares de materiais ou redesenha produtos para depender menos de recursos está simultaneamente reduzindo emissões, reduzindo volatilidade e aumentando a resiliência.”

Schoeman também defende uma abordagem mais equilibrada: “Temos muito mais pontos em comum do que diferenças, e precisamos discutir seriamente como aproveitar as forças uns dos outros. Vejo a mitigação como uma estratégia de longo prazo e a adaptação como uma necessidade imediata de curto prazo. A mitigação trata de reduzir as causas das mudanças climáticas, enquanto a resiliência trata de se adaptar às consequências. As duas precisam coexistir. Não podemos transformar isso em uma falsa escolha.”

Os exemplos estão por toda parte. A modernização das redes elétricas favorece a integração de energias renováveis e aumenta a resiliência diante de eventos climáticos extremos. A eletrificação de edifícios pode reduzir emissões enquanto fortalece a resiliência estrutural e remove equipamentos de áreas sujeitas a enchentes. Soluções baseadas na natureza sequestram carbono e, ao mesmo tempo, protegem comunidades costeiras contra ressacas e tempestades.

É natural colocar mitigação e adaptação em lados opostos. Uma busca reduzir ou remover a causa do problema; a outra reconhece que o problema já atingiu dimensão grande demais para depender apenas disso. Porém, a questão mais interessante é identificar quais sinergias existem entre elas e como estruturar investimentos que permitam alcançar ambos os objetivos.

O trabalho que ainda resta

Os sinais são reais, o capital começa a se mover e, talvez mais importante, a urgência é impossível de contestar. Mas esta oportunidade é limitada, e a narrativa de investimento que trouxe a adaptação até aqui não será suficiente para levá-la adiante.

O setor conseguiu demonstrar que a adaptação importa. O desafio mais difícil e mais específico é mostrar como ela será financiada em escala: com os instrumentos corretos, os retornos adequados, os sistemas habilitadores necessários e uma integração efetiva com a agenda mais ampla de financiamento climático. A janela está aberta. A questão é o que será construído enquanto ela permanecer assim.

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