15/04/2026

15/04/2026

Search
Close this search box.

O Que a Dieta do Império Romano Pode Ensinar sobre Como Devemos Comer Hoje

Gettyimages

No Império Romano, a dieta era baseada na moderação

Acessibilidade








Quando as pessoas falam sobre dietas estranhas no reino animal, alguns exemplos óbvios vêm à mente, como os coalas que comem quase nada além de folhas de eucalipto ou os abutres que sobrevivem de carniça que faria a maioria das criaturas fugir. Mas antes de apontarmos os dedos para as excentricidades alimentares de outras espécies, talvez devêssemos olhar no espelho.

Os humanos são os únicos animais que rasgam camadas de plástico para comer alimentos fabricados meses antes, contendo ingredientes que não conseguimos pronunciar. Nós esquentamos no micro-ondas jantares feitos em fábricas a milhares de quilômetros de distância e bebemos líquidos criados em laboratórios para ter gosto de morango, apesar de não conterem fruta alguma.

Como biólogo evolutivo, muitas vezes pergunto, e me perguntam: é isso que fomos feitos para consumir?

Para entender o que nossos corpos realmente foram projetados para comer, não precisamos necessariamente começar do início. Na verdade, um capítulo mais recente da nossa história pode ser muito mais esclarecedor, o Império Romano, que atingiu seu auge por volta do ano 100 d.C., há cerca de 1.900 anos.

Vamos explorar o que os romanos realmente comiam e por que algumas dessas práticas podem valer a pena ser retomadas no século 21.

Os surpreendentemente simples pilares da dieta romana

Se você se sentasse para jantar em uma insula romana (prédio de apartamentos) ou até mesmo em uma vila rural, não receberia banquetes elaborados todos os dias. O romano médio da classe trabalhadora na verdade comia o que hoje é considerado o protótipo da dieta mediterrânea: rica em grãos integrais, leguminosas, vegetais e azeite de oliva.

Puls, a base da alimentação romana, era um mingau espesso feito de trigo emmer ou cevada. Às vezes era enriquecido com lentilhas ou favas, regado com azeite de oliva ou temperado com ervas. Pães de grão grosso, muitas vezes de fermentação natural, também eram comuns.

Hoje retiramos a fibra e os micronutrientes dos grãos e os consumimos como amidos refinados. Mas naquela época os grãos integrais eram a norma. O benefício principal era a fibra que enriquece nosso microbioma intestinal e fortalece não apenas a saúde e o sistema imunológico, mas também o humor.

Basta dizer que a dieta romana não era apenas prática, era biologicamente elegante.

Um superalimento romano esquecido?

Um dos componentes mais curiosos da culinária romana era o garum, um molho de peixe fermentado, comparável ao moderno e apreciado molho de soja ou ketchup.

O aparentemente pouco apetitoso processo de preparação do garum, que consistia em camadas de vísceras de peixe com sal fermentadas ao sol, produzia um resultado surpreendentemente saboroso, rico em umami e nutrientes, particularmente aminoácidos, cálcio e ômega-3.

Para o paladar moderno pode soar desagradável, mas o garum tinha muito em comum com os alimentos fermentados de saúde atuais, como kombucha, kimchi e missô. Do ponto de vista biológico, o processo de fermentação introduz bactérias benéficas e pré-digere proteínas, tornando-as mais biodisponíveis. Essas dinâmicas microbianas são cada vez mais reconhecidas como essenciais para a digestão humana e para a saúde imunológica.

Muito menos carne do que se imagina?

Apesar do que Hollywood possa sugerir, a maioria dos romanos não se banqueteava com javalis assados ou pratos intermináveis de carne. O consumo de carne era na verdade ocasional, não diário, especialmente entre os pobres e a classe trabalhadora. E quando se comia carne, geralmente era carne de porco, seguida de cabra, cordeiro e depois aves. Em parte por causa do valor dos bois na pecuária, a carne bovina raramente fazia parte da dieta romana.

E é exatamente aí que a dieta romana diverge fortemente das normas ocidentais modernas, em que a carne muitas vezes domina o prato. Isso pode ter sido uma vantagem para os romanos do ponto de vista evolutivo. Apesar da flexibilidade alimentar onívora, nossa fisiologia, incluindo nossos intestinos relativamente longos e a dependência da fermentação de fibras, sugere uma preferência por dietas mais equilibradas e que inclua as plantas.

O consumo regular e indiscriminado de carnes processadas, em detrimento das naturais, tem sido associado a maiores riscos de câncer colorretal e doenças cardíacas. O equilíbrio romano de carne ocasional e alimentação com mais vegetais se alinha mais de perto com o que nossa biologia parece otimizada para receber.

O ciclo de fome e fartura

É preciso reconhecer que a dieta romana era moldada não apenas pela cultura, mas também pela disponibilidade e pela sazonalidade. A preservação de alimentos era primitiva. As pessoas comiam o que estava na estação e muitas vezes enfrentavam períodos de escassez.

Essa escassez intermitente pode ter induzido formas leves do que hoje chamamos de jejum intermitente. A vida no Império Romano pode ajudar a entender por que esse método ganhou tanta atenção atualmente. Nossos corpos evoluíram sob ritmos de fartura e escassez, uma inevitabilidade natural da época. Não é surpresa que, ainda hoje, na era da abundância, as evidências continuem a indicar que a alimentação com restrição de tempo pode apoiar a saúde metabólica, reduzir a inflamação e até promover processos de reparo celular.

Em essência, os sistemas biológicos que tornaram os romanos antigos resistentes à escassez de alimentos são os mesmos que muitos humanos modernos tentam “reativar” por meio de janelas deliberadas de jejum.

A bebida preferida dos romanos?

Os romanos, de todas as classes sociais, eram unidos pelo vinho, uma bebida que frequentemente misturavam com água, ervas ou mel. Em muitos casos, era mais seguro do que a água pura e mais nutritivo do que podemos imaginar. O vinho tinto contém polifenóis, particularmente o resveratrol, que possui propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

Dito isso, o vinho deles era muito diferente das versões modernas, carregadas de açúcar e com alto teor alcoólico. Era de baixo teor alcoólico e consumido com moderação, como parte das refeições.

Do ponto de vista biológico, a abordagem romana, álcool moderado no contexto da alimentação, é mais saudável do que os padrões de consumo excessivo que afetam muitas sociedades hoje.

Que lições podemos tirar do Império Romano?

Ao compararmos a dieta do Império Romano com as tendências alimentares atuais, surgem alguns pontos biológicos importantes:

  • Os corpos humanos prosperam com alimentos básicos ricos em fibras e de base vegetal, como leguminosas, grãos e vegetais, que formavam a base da dieta romana.
  • A fermentação não é apenas culinária, é biológica. Os romanos usavam o garum de forma instintiva, hoje nós o rebatizamos como “amigável ao intestino”.
  • A moderação no consumo de carne e álcool está de acordo com as evidências evolutivas e epidemiológicas para a saúde a longo prazo.
  • A disponibilidade cíclica de alimentos, que antes era uma dificuldade, agora é imitada pelo jejum intermitente com efeitos biológicos surpreendentemente semelhantes.

Em um mundo de barrinhas de proteína, planos cetogênicos e alimentos ultraprocessados, a dieta romana oferece um modelo de simplicidade e necessidade enraizado na biologia. Embora não precisemos fermentar vísceras de peixe no quintal para sermos saudáveis, há muito a aprender com uma civilização que, em seu auge, alimentou dezenas de milhões de pessoas com princípios sustentáveis.

*Scott Travers é colaborador da Forbes EUA, biólogo evolucionista americano, radicado na Universidade Rutgers, onde se especializou em biodiversidade, evolução e genômica.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Eficiência no Chapadão do Parecis é aposta para blindar rentabilidade do produtor

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso A 17ª Parecis SuperAgro, em Mato Grosso, marca um…

Anfavea Prevê Queda de 6,2% nas Vendas de Máquinas Agrícolas em 2026

As vendas de máquinas agrícolas no Brasil deverão somar 46,7 mil unidades em 2026, queda…

Geopolítica e custos de produção dominam debates do 4º Congresso Abramilho

Foto: Pedro Silvestre/Canal Rural Mato Grosso A volatilidade do cenário global e o impacto direto…