“O mercado de commodities sempre foi suicídio; eu optei pelo mercado de nicho,” diz, em entrevista exclusiva à Forbes Agro, o chef chocolatier Fabio Sicilia, dono da Gaudens Chocolate, uma das maiores fabricantes de chocolate artesanal da Amazônia.
A fala de Sicilia ajuda a explicar a trajetória da própria Gaudens. O nome inclusive deriva do latim gaudium, significa alegria, felicidade ou prazer. E é por intermédio desse ‘prazer’ que a marca tem sido uma das mais emblemáticas da transformação da cadeia do cacau no Pará.
“Para a Gaudens, o luxo é trazer a luz à origem. Não é luxo de luxúria ou esnobismo.”
Em um Estado que historicamente exporta matéria-prima, Sicilia trouxe à luz um negócio baseado em valor agregado, origem amazônica e industrialização local. Hoje, seu trabalho é apontado como uma das experiências mais consistentes de verticalização do cacau na Amazônia brasileira. Mas não é o único. Além da Gaudens, também está a Mágio e a Cacauway.
No entanto, o protagonismo da empresa ficou evidente na Chocolat Amazônia 2026, realizada entre os dias 23 e 26 de abril, em Belém. A Gaudens ocupou o maior estande expositor da feira, consolidando uma posição construída ao longo de duas décadas de atuação no segmento de chocolates artesanais premium.
Mais do que vender chocolate, Sicilia tenta alterar a lógica econômica de uma das principais cadeias agrícolas do Norte do País: fazer com que mais valor permaneça no território produtor.
A descoberta do cacau amazônico
A jornada começou em 2004, pouco depois de Sicilia retornar da Europa, onde concluiu sua formação como Chef Master. O contato com o mercado europeu provocou uma mudança profunda na forma como enxergava o próprio Pará (estado onde foi criado, pois ele nasceu no Paraná).
“Em 2003, eu voltei da Europa e me deparei com o fato de que os ingredientes mais nobres de lá eram daqui. Percebi que algo estava errado”, afirma.
A percepção ganhou ainda mais força quando descobriu que o Pará possuía o maior município produtor de cacau do Brasil, Medicilândia, na porção centro-norte do estado. Em cerca de 45 mil hectares, foram colhidos 41 mil toneladas em 2024, segundo os dados mais recentes do IBGE. Ao todo, o Pará possui 163,4 mil hectares com cacau, colhendo 137,5 mil toneladas.
O mais curioso, segundo ele, é que mesmo vivendo no Pará desde criança, nunca havia percebido a dimensão econômica e cultural do cacau amazônico.
“A gente tem um embotamento: de tanto ver, você não vê. O cacau está aqui, você vê e esquece.”
Naquele período, o chocolate premium ainda era associado quase exclusivamente à Europa. Sicilia lembra que, quando começou a produzir chocolates artesanais em 2005, os clientes acreditavam que o produto era importado.
“Quando montei a primeira fábrica e servia o chocolate no restaurante, as pessoas perguntavam se era belga. Eu dizia: ‘Não, é de Medicilândia’. E perguntavam onde era isso.”
A aposta na verticalização

A partir dessa constatação, Sicilia passou a defender uma tese que hoje ganha força dentro da bioeconomia amazônica: regiões produtoras precisam industrializar e construir marcas próprias para escapar da dependência das commodities.
“A Europa é muito hábil na agregação de valor; ela consegue agregar valor até no que é nosso”, afirma. “Eles vendem o nosso café embalado em alumínio tirado daqui, e nós compramos o que é nosso com um valor agregado enorme.”
Em vez de disputar escala no mercado convencional, Sicilia decidiu apostar em um nicho baseado em origem, autenticidade e qualidade. Segundo ele, quatro pilares sustentam um produto premium: narrativa verdadeira, origem e originalidade, controle de qualidade e consistência.
“Não adianta ter narrativa sem veracidade. Isso derruba uma marca premium.”
A estratégia exigiu persistência. Durante anos, Sicilia operou praticamente sem apoio financeiro ou institucional. Em determinado momento, chegou a recolher a primeira fábrica para dentro do restaurante para manter a produção.
Mesmo assim, continuou investindo em inovação própria. Em 2012, lançou a Castella, creme de castanha-do-pará com cacau e açúcar orgânico. Depois criou a Crepioca, substituindo flocos de arroz por farinha de tapioca para desenvolver textura crocante em chocolates.
O impacto sobre os produtores
Mais do que desenvolver produtos diferenciados, a Gaudens passou a estruturar uma cadeia integrada de fornecedores locais. Atualmente, a empresa trabalha com cerca de oito produtores estáveis de cacau, principalmente em Medicilândia, além de produtores de cupuaçu e cooperativas ligadas à produção de farinha de tapioca. O processamento de duas toneladas de amêndoas por ano.
“Quando vendo um pacote de Crepioca, estou abastecendo a cadeia do cacau, da mandioca, apoiando a indústria artesanal de tapioca e a cadeia do cupuaçu. É verticalização verdadeira e economia circular.”
A remuneração paga aos produtores também foge do padrão tradicional do mercado de cacau. “Eu pago três ou quatro vezes o valor do cacau comum. Se o cacau commodity está R$ 12, eu pago R$ 35.”
Segundo Sicilia, o prêmio normalmente pago pela indústria ao cacau fino ainda é muito baixo para estimular uma mudança estrutural na produção.
Ao elevar essa remuneração, ele acredita que ajuda a impulsionar uma nova geração de produtores focados em qualidade sensorial e reconhecimento internacional.
O Pará no mapa mundial do chocolate

Os resultados já começam a aparecer. O Pará ultrapassou a Bahia em 2017 e se tornou o maior produtor nacional de cacau. Agora, o desafio passa a ser consolidar também a reputação do Estado na fabricação de chocolates premium e na excelência das amêndoas.
“Minha meta agora é valorizar os diferenciais de cada produtor. Cada região tem sua assinatura.”
Sicilia cita como exemplo o produtor de Medicilândia Ivan Dantas Ferreira, fornecedor da Gaudens, que recebeu recentemente em Paris um prêmio de melhor amêndoa de cacau do mundo.
A trajetória do produtor é exemplo de resiliência na Transamazônica desde 1973, superando crises históricas agravadas pela doença fúngica vassoura-de-bruxa que quase literalmente ‘varreu’ o cacau no Brasil. Foi através do investimento pioneiro em cacau orgânico e fermentado que, hoje, ele se tornou um o símbolo da força e da excelência do cacau fino da Amazônia.
A própria Gaudens também ganhou projeção internacional. Sicilia afirma que a empresa começou a mudar de patamar depois de uma premiação em Londres, repercutida inclusive por veículos internacionais de negócios.
“Parei de ter prejuízo, mas ainda não tenho muito lucro. Meu negócio não é volume, é qualidade.”
Hoje, a empresa segue enquadrada no Simples Nacional, com faturamento anual abaixo de R$ 4 milhões. Sicilia prefere manter uma operação menor, focada em consistência e longevidade da marca.
“Trazer a luz à origem”
Por trás da estratégia empresarial existe também uma tentativa de reposicionar simbolicamente a Amazônia dentro do mercado global de alimentos premium.
“O europeu e o estrangeiro que chegam aqui reconhecem que estão com um produto local; quem é daqui acha que é de fora.”
Para Sicilia, o grande desafio agora é ampliar o impacto desse modelo sobre mais produtores e consolidar uma cultura de valorização da origem amazônica.